Crítica | Legion – 1X08: Chapter 8

Episódio

estrelas 3,5

Temporada

estrelas 4,5

Obs: Há spoilers. Leia, aqui, as críticas dos episódios anteriores.

Se o episódio final da temporada inaugural de Legion não alcança o nível do que veio antes, a culpa é exclusivamente de Noah Hawley, mas não pela qualidade do capítulo em si e sim por ter nos acostumado mal com sua viagem lisérgica de visual embriagante ao longo das últimas sete semanas. Afinal, como fechar as pontas sem mergulhar de cabeça em uma batalha final mais “padrão” entre David Hawley que ainda não pode ser chamado de Legião (mais sobre isso para frente) e Amahl Farouk, o Rei das Sombras?

E é isso que o roteiro de Hawley faz aqui: entrar quase que diretamente no grande – ma non troppo – embate psíquico entre os dois mais poderosos mutantes da série, um inicialmente dentro da cabeça do outro. Apesar de a resolução do embate não ser definitiva, o que abre as portas para o vilão voltar na próxima temporada, trazendo sua encarnação Lenny (Aubrey Plaza continua, ainda bem!) a reboque e o sensacional Oliver como hospedeiro, há risco de ser mais do mesmo, ainda que ele seja pequeno considerando que estamos falando de um showrunner que não para de nos surpreender, seja aqui, seja em Fargo.

O melhor do conflito foi mesmo Syd que se revela como a verdadeira heroína da série ao sacrificar-se trocando de mente com David. Mesmo que isso tenha sido resultado da conversa dela com Lenny-zumbi no plano astral invadido de David, fato é que a personagem entregou-se para salvar o amado sem pestanejar e sem entender exatamente as consequências de seu ato para ela. E, claro, a execução em si de toda a sequência – ou sequências – a partir do beijo de Syd foi exemplar sob o ponto de vista técnico, mas, mesmo assim, foi algo… digamos…. trivial, pelo menos trivial para o padrão estabelecido até aqui por Hawley (e voltamos ao ponto que introduz no início da crítica, no sentido de que ele nos acostumou a esperar o inesperado).

O prólogo com a história do Interrogador – agora revelado como Clark – também pareceu deslocado. Recontar sua história desde o momento da incendiária fuga de David até sua recuperação e volta ao campo pela Divisão Três, apesar de interessante, não teve verdadeiro propósito narrativo aqui a não ser permitir que o episódio chegasse à duração regulamentar. Se o objetivo era mostrar que seu marido é também da Divisão Três e que talvez Clark nem mesmo saiba disso, havia outras maneiras de introduzir o assunto que não com longos seis minutos que não dizem exatamente muita coisa para este final em si, ainda que provavelmente venha a ganhar relevo na próxima temporada, com o vilão deformado possivelmente se bandeando para o lado do pessoal de Summerland.

Aliás, a convencionalidade assumida do episódio funcionou para Hawley didaticamente encerrar a primeira história do Legião, mas a impressão que verdadeiramente fica é que foram quase 50 minutos exclusivamente para preparar a segunda temporada. Se pararmos para pensar, mesmo que o status quo tenha sido alterado – Kerry e Cary se reconciliaram, Oliver agora é hospedeiro de Farouk e David não tem mais parasita mutante na cabeça – não houve nada profundamente modificado. O Rei das Sombras continua sendo uma ameaça. David continua sem saber muito sobre o que ele é e Oliver, bem, Oliver continua daquele jeito doido dele, ainda que tomado por uma entidade maligna que quer dominar o mundo, mas que, aparentemente, não gosta de lugares muito frios.

Ou seja, voltamos um pouco à estaca zero, com um agravante: passamos oito episódios sem que a verdadeira natureza de David Haller fosse abordada. Aos que não conhecem o personagem dos quadrinhos e não querem saber, sugiro que pulem os próximos três parágrafos mais robustos abaixo.

Estão avisados?

Pois bem. Ainda que tenha sido desafiador ter um vilão etéreo como o Rei das Sombras, fato é que David Haller só é quem é nos quadrinhos por ter múltiplas personalidades, cada uma com um poder mutante. E por múltiplas, leiam centenas, uma mais bizarra que a outra. Creio que isso tenha sido discretamente mostrado por Hawley nas breves sequências em que a câmera olha para dentro da cabeça de David e vemos diversas pessoas gritando com ele, mas não há certeza sobre isso e, além do mais, isso está longe de ser algo minimamente próximo de uma introdução ao assunto.

E não é uma questão aqui de a série ser uma adaptação e, por isso, poder ser diferente do material fonte. Claro que pode. Deve, na verdade. Mas reparem na escolha do título: Legião. Não foi “Clube dos Mutantes” ou “That ’70s Mutant Show“. O nome foi tirado dos quadrinhos que, por sua vez, bebe de fonte bíblica, mais precisamente dos evangelhos de Marcos, Mateus e Lucas que lidam com o exorcismo, por Jesus, de um homem possuído por uma coletividade de demônios. Quando Jesus pergunta o nome do possuído, a resposta é “Meu nome é Legião, porque somos muitos”. Nos quadrinhos, os “muitos” são as personalidades de David que tomam seu corpo em um esquema de revezamento (só para simplificar).

Será que o Legião do título da série então seria justificado pelas várias formas que o Farouk toma? O “bicho papão”, Lenny, Benny e o garoto de papel machê do livro? Creio que não. Seria um sub-aproveitamento gigantesco do material fonte. Além disso, agora que Farouk está em Oliver, isso significaria, então, que David é somente David.

Agora já podem voltar a ler.

Não queria que esse segredo de David fosse efetivamente desenvolvido nessa temporada, pois seria complicado em conjunto com a linha narrativa do parasita Farouk, mas ele deveria ter sido ao menos aventado, teorizado que seja por Cary ou por Oliver. Será que veremos essa abordagem na segunda temporada?

Faço a pergunta, pois agora já não sei mais. Afinal, com aquela cena de meio de créditos em que David é escaneado e “engolido” por um drone no formato de uma esfera, qualquer coisa é possível e Hawley não pareceu preocupado em abordar a natureza de David, mas sim deixar seus espectadores especulando loucamente por um ano.

E, já que especular é preciso, marque abaixo a opção que mais lhe apetecer sobre o drone:

(a) É algo inventado – ou ainda a ser inventado – por Noah Hawley que pode ser literalmente qualquer coisa;
(b) É o tal do Equinox que o pessoal da Divisão Três disse que estava enviando para Summerland (supondo que enviar o Equinox suplanta a ordem de enviar o Peacemaker, mencionado anteriormente);
(c) É algo enviado pela Divisão Um, mencionada no primeiro episódio, que queria matar David;
(d) É o vilão Equinox dos quadrinhos Marvel que é extremamente obscuro e não tem nenhuma relação direta ou indireta com os X-Men geral ou com o Legião em particular;
(e) É um aparelho enviado pelo vilão Mojo, de outra dimensão, para trazer David para sua arena de jogos, vilão esse que foi muitas vezes especulados como sendo o Demônio de Olhos Amarelos da série;
(f) É o ser tecnorgânico Warlock dos quadrinhos Marvel (não sei, me veio isso à cabeça agora);
(g) É uma versão diferente da esfera que acusa David de criminoso na edição #7 de X-Men Legacy (que não o sequestra nem nada, mas é uma esfera e que chega perto de David, portanto…);
(h) Nenhuma das opções acima.

No entanto, chega de especulação, minha gente (mas sintam-se livre para especular infinitamente nos comentários!). O episódio de encerramento da primeira temporada de Legion, apesar de menos do que sensacional (e talvez um pouquinho desapontador), não tira os méritos do que foi feito até aqui. Um trabalho fenomenal, criativo e ousado que foge ao sub-gênero em que em tese se encaixa e estabelece um novo padrão para séries baseadas em quadrinhos juntamente com sua quase alma gêmea Preacher. Fica também a certeza de que Hawley continuará a ousar e a nos surpreender, pois, convenhamos, o cara é genial.

Legion – 1X08: Chapter 8 (EUA – 29 de março de 2017)
Showrunner: Noah Hawley
Direção: Michael Uppendahl
Roteiro: Noah Hawley
Elenco: Dan Stevens, Rachel Keller, Aubrey Plaza, Bill Irwin, Jeremie Harris, Amber Midthunder, Katie Aselton, Jean Smart, Mackenzie Gray, Jemaine Clement, Hamish Linklater
Duração: 49 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.