Crítica | Legion – 2X01: Chapter 9

  • Há spoilers. Leia, aqui, as críticas dos episódios anteriores.

Por mais que Agents of S.H.I.E.L.D. tenha mostrado uma evolução incrível ao longo de suas até agora cinco temporadas, que The Gifted e Raio Negro tenham começado muito bem e que, segundo meu colega Luiz Santiago, Legends of Tomorrow tenha se metamorfoseado em uma série muito boa, é Legion que realmente deveria merecer a maior parte da atenção dos espectadores que anseiam por uma história baseada em quadrinhos que não siga uma cartilha que, por melhor que seja, continua sendo básica. Talvez a série baseada em HQ mais “fora da caixa” que esteja hoje no ar seja Preacher e mesmo ela – ótima, sem dúvida – não tem o apuro visual e a ousadia narrativa que o trabalho de Noah Hawley apresenta em sua adaptação de um desconhecido, mas poderosíssimo mutante da Marvel Comics.

Entendo quem considera Legion uma série que coloca o estilo acima da substância, tornando-se uma viagem lisérgica belíssima, mas, em última análise, vazia. Entendo, mas discordo, pois creio que a série seja muito mais do que um mero exercício de vaidade de Hawley, que consegue abordar de forma quase única mentes perturbadas, insanas mesmo, em um ambiente atemporal que flutua entre o terreno e o metafísico ao mesmo tempo que coloca em xeque absolutamente tudo que é colocando diante dos olhos dos espectadores. Não entender Legion por completo não é um aspecto necessariamente negativo, assim como essa incompreensão não é negativa em diversas outras obras cinematográficas e televisivas, bastando lembrar da filmografia de David Lynch para perceber-se o quanto “não compreender” pode ser bom.

Mas Legion não é incompreensível, não é uma viagem maluca, sem pé nem cabeça e sem objetivo. É, dentro de sua lógica interna, um estudo da insanidade usando uma marcante narrativa visual para representar as profundezas da mente humana de uma maneira que favoreça nossa cognição, algo que, aliás, Hawley extrai diretamente dos quadrinhos do Legião, especialmente sob a batuta dos roteiros de Chris Claremont e da arte magnificamente lisérgica de Bill Sienkiewicz.

E essa pegada corajosa, original e embasbacante continua na segunda temporada da série a julgar por seu episódio de abertura que começa um ano após o cliffhanger da temporada anterior, em que vemos David Haller ser absorvido por uma misteriosa esfera voadora. Muito especulou-se sobre o que essa esfera seria, mas quase ninguém aventou a possibilidade de ela simplesmente ser fruto da imaginação de Haller, já que ele é o único que a referencia quando ele finalmente volta para os braços de Syd e sua equipe. Para ele, apenas algumas horas se passaram, mas, para os demais, um ano se foi com David desaparecido. O que aconteceu nesse tempo perdido começa muito vagarosamente a ser desvendado no episódio, mas, pelo visto, a revelação completa virá ao longo da temporada, agora com 10 episódios, no lugar dos oito da original (FX, nada de aumentar a temporada para mais do que isso, por favor!).

Nesse período em que David se ausentou, a base de Summerland deixou de ser usada, com Syd, Cary (e Kerry), Ptonomy e Melanie trabalhando debaixo do telhado da temida Divisão 3, aparentemente sob o comando do deformado Clark. A razão para essa união é mencionada muito rapidamente por Ptnomoy a David, o que, claro, abre avenidas para duvidarmos da simplicidade da coisa. Afinal, não me parece crível que os mutantes, de uma hora para outra, tenham deixado de ser ameaças para a agência e a união de esforços para a captura (e destruição) do Rei das Sombras) é outro fiapo de justificativa que está lá para nos fazer coçar o queixo em incerteza, já que é muito mais fácil acreditar que o objetivo seja capturar e controlar Farouk para fins nefastos. Mas, como praticamente tudo em Legion, a hesitação em se aceitar qualquer coisa que vemos ou ouvimos é o mote da série, fazendo parte de sua estrutura narrativa. Portanto, só saberemos a verdade – se soubermos – mais para a frente.

Nesse quebra-cabeças baseado no pulo temporal de um ano, vemos o bizarro líder da Divisão 3, o Almirante Fukuyama, com direito à cesta japonesa de palha na cabeça (o Komusō) e usando a voz de três mulheres de bigode para falar (sério!), a versão em animação da lenda de Zhuang Zhou, com direito a narração de ninguém menos do que Jon Hamm, além de lampejos desconexos de Oliver Bird, agora o vetor usado por Amahl Farouk, e Lenny (ex-forma de Farouk na mente de David) vivendo a vida que um psicopata psíquico viveria: piscina, sol, bebidas, boates e, claro, um vírus telepático que transforma as pessoas em vegetais batedores de dentes. É informação enlouquecida demais em tão poucos minutos, mas o roteiro que o próprio Hawley co-escreveu com Nathaniel Halpern mantém a ação em um mínimo, se é que podemos chamar o que acontece de ação propriamente dita. Assim como David, estamos nos readaptando a essa (ir)realidade e a história não tem pressa. É a clássica montagem de tabuleiro, ainda que, aqui, o tabuleiro seja fruto da mente de Salvador Dalí depois de uma fusão à base de aditivos químicos com as mentes de Yves Tanguy e Luis Buñuel. Em outras palavras, é um delírio visual que, estranhamente, faz sentido daquele jeito tresloucado de ser.

Essa aclimatação de David ao novo status quo nos leva a uma investigação mental por intermédio de uma câmara feita por Carey para ampliar seus poderes e que o leva a, mais uma vez, comungar com o Rei das Sombras, sem que fique claro se estamos vendo um flashback ou algo acontecendo no presente. Mas o que importa é que tem um número musical, ainda que bem menos inspirado do que no capítulo 6, em que vemos Lenny encarnar Liza Minnelli em Cabaret.

No entanto, o tempo torna-se duplamente importante. Não só a temporada parece disposta a revelar esse ano perdido para David e o mesmo período para os X-Men disfucionais de Melanie, como também em lidar com o futuro, na intrigante visão/sonho/delírio que David tem de Syd mais velha, sem um braço e aparentemente muda, pedindo para ele ajudar Farouk a encontrar seu corpo, o que Clark deixara claro que tornaria o mutante invencível. Se a viagem lisérgica de Noah Hawley já era fascinante somente quando ela se dava pelos meandros psicológicos e metafísicos, já conseguiram imaginar o que pode acontecer se conceitos de viagem no tempo forem adicionados à mistura?

A reserva que eu tenho sobre o episódio, e que é uma herança da temporada anterior, está justamente em David e seu status como Legião. Afinal, este é o nome da série e o personagem, nos quadrinhos, não é apenas um mutante super-poderoso, mas esquizofrênico, e sim alguém que também abriga centenas de personalidades diferentes (e com poderes diferentes) dentro de sua mente, algo que foi apenas ventilado anteriormente, mas jamais desenvolvido. Não há pistas, no episódio, sobre esse aspecto, e creio que isso seja algo essencial não porque eu quero fidelidade aos quadrinhos, mas sim porque simplesmente espero que o próprio nome da série seja justificado. Caso contrário, era mais fácil batizá-la de algo como Pscycho Batshit Crazy Mutant Smorgasbord.

O recomeço de Legion promete uma temporada ainda mais enlouquecedora que a anterior. E não há nada melhor do que ser bombardeado por uma loucura tão linda e bem realizada quanto esta, não é mesmo?

Legion – 2X01: Chapter 9 (EUA – 03 de abril de 2018)
Showrunner: Noah Hawley
Direção: Tim Mielants
Roteiro: Noah Hawley, Nathaniel Halpern
Elenco: Dan Stevens, Rachel Keller, Aubrey Plaza, Bill Irwin, Jeremie Harris, Amber Midthunder, Jean Smart, Navid Negahban, Jemaine Clement, Hamish Linklater, Jon Hamm
Duração: 49 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.