Crítica | Legion – 2X02: Chapter 10

  • Há spoilers. Leia, aqui, as críticas dos episódios anteriores.

Querem explicações? Pois esqueçam. O segundo episódio da segunda temporada de Legion consegue ser ainda mais críptico do que o primeiro, mesmo que ele reforce o que parece ser o mote pelo menos desse início: a procura pelo corpo do Rei das Sombras. Todos estão envolvidos, de uma maneira ou de outra, nessa caçada, mas David faz um jogo duplo depois que, no episódio passado, deslocando-se no espaço-tempo, ele consegue conversar com a versão mais velha, sem braço e silenciosa de Syd que lhe pede para ajudar Farouk em sua busca.

Esse pedido deságua imediatamente em um encontro em um carrossel astral entre David, Farouk no corpo de Oliver e, claro, Lenny. O que segue daí é um plano para separar o grupo mutante na Divisão 3, com uma parte seguindo para um lugar desértico e a outra permanecendo por lá e sendo impiedosamente atacada pelo Rei das Sombras e seu Grilo Falante que transforma em pó (e em um porco e um peixe, claro, por que não?) a força de resistência que eles encontram e, no processo, dando tilt nos poderes de Cary e Kerry, que passam a sofrer com isso. As mortes não estavam programadas e David havia expressamente pedido que não houvesse violência, mas Farouk fez ouvidos moucos, e é por isso que é curiosa a reação de David para o ocorrido. Sim, ele ficou perturbado pelos eventos, mas não necessariamente abalado ou particularmente preocupado, pedindo a Kerry, ato contínuo, mesmo vendo sua situação, que reprogramasse a esfera sensorial permitindo que ele novamente quebrasse a barreira espaço-temporal.

Talvez no momento mais importante do episódio, vemos novamente David conversando com a Syd do futuro em que ela pinta um quadro apocalíptico, mas misterioso, pois simplesmente dizer para ele o que acontecera seria fácil demais. Aparentemente, portanto, Farouk é o menor dos males. Na verdade, o Rei das Sombras seria uma arma efetiva contra o grande mal que permanece sem nome e rosto, mas no mesmo diapasão em que Syd se recusa a dizer se David está vivo nesse futuro, limitando-se a um hesitante “é complicado”. A não ser que haja a introdução de um novo vilão em futuro próximo, o que a sequência dá a entender é que o próprio David – ou a manifestação de uma das personalidades de sua mente esquizofrênica – será o responsável pelo apocalipse futuro. Mas, claro, tudo é especulação.

No presente, Farouk parece estar atrás de um monge da ordem Mi-Go que, até onde me consta, não tem paralelo nos quadrinhos. Esse monge seria o caminho para o corpo de Farouk e nós descobrimos que ele parece estar escondido na mesma sala onde os humanos infectados pelo vírus zumbificador batedor de dentes que Farouk espalhou estão. No plano astral, David continua seu pacto com o diabo, desta vez aparecendo para ele no que parece ser sua forma original, o ator Navid Negahban, passando muito efetivamente todo o lado sinistro de seu personagem.

Entre viagens lisérgicas, menção ao Império Shi’ar saindo da boca de Kerry como se não fosse nada demais, diversas versões de Farouk, com um David cada vez mais estranho, além da continuação da narração de Jon Hamm no interlúdio que agora aborda o universo dos carrapatos e dos cachorros, o episódio parece querer ser esperto demais para seu próprio bem. O equilíbrio temático e narrativo que vimos no episódio de começo de temporada se perde um pouco aqui, com a direção de Ana Lily Amirpour seccionando demais o capítulo e criando uma impressão de desconexão por meio dos fade outs que dividem cada “parte”. Com isso, a narrativa passa a ser fragmentada demais, estabelecendo um tipo de estranheza que vai além da visual e que parece retirar o espectador da imersão. Mesmo que tentemos imaginar que essa compartimentalização reflita, de certa forma, a mente complicada de David, a transposição visual dentro dessa lógica ficou aquém do que poderia ser.

Se o trecho inicial com a invasão de Farouk à Divisão 3 funciona magistralmente bem, quase que como um número musical telepático e violento, o restante parecem pedaços lisérgicos que, vistos de forma estanque, até cumprem sua função, mas que não geram um todo harmônico. Ao contrário até, a impressão que temos é de bonitas peças de um quebra-cabeças coladas em ordem aleatória somente porque Noah Hawley assim podia fazer.

Portanto, não é uma questão de querer explicações e não recebê-las, mas sim o que talvez possa ser um exagero estilístico que não se justifica dentro do episódio ou do que vinha sendo feito até aqui (e incluo a primeira temporada na equação). Prejudicou o episódio? Com certeza. Tornou-o ruim? Longe disso. Mas Hawley sabe fazer o confuso, o intrigante e o ensandecido de maneira muito melhor que esta aqui.

Legion – 2X02: Chapter 10 (EUA – 10 de abril de 2018)
Showrunner: Noah Hawley
Direção: Ana Lily Amirpour
Roteiro: Noah Hawley, Nathaniel Halpern
Elenco: Dan Stevens, Rachel Keller, Aubrey Plaza, Bill Irwin, Jeremie Harris, Amber Midthunder, Jean Smart, Navid Negahban, Jemaine Clement, Hamish Linklater, Jon Hamm
Duração: 47 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.