Crítica | Legion – 2X05: Chapter 13

  • Há spoilers. Leia, aqui, as críticas dos episódios anteriores.

Se olharmos em retrospecto, é perfeitamente possível concluir que Lenny Busker era para ser uma personagem cuja função foi completamente esgotada na 1ª temporada de Legion. Não que Noah Hawley necessariamente tivesse esse planejamento, vejam bem, pois estou apenas conjecturando aqui. Lenny tem um arco completo, fechado e bem resolvido nos oito episódios iniciais e sua volta era desnecessária em termos narrativos e dramáticos. No entanto, Aubrey Plaza, com sua performance versátil, marcante e, mais do que isso, arrebatadora, tornou essa conclusão impossível conceitualmente ou na prática. Sua Lenny resultou em algo muito mais interessante e importante do que tinha o direito de ser e a volta da personagem para pelo menos mais uma temporada era algo que, mesmo sem razão dramática clara, era simplesmente essencial.

Lenny, aliás, muito na linha do que mencionei acima, foi mesmo mantida no “banco de reservas”, por assim dizer, aparecendo somente como um construto metal do Rei das Sombras em breves sequências ao longo dos quatro episódios anteriores. Ficava aquela impressão ruim de que Hawley não tinha um plano muito bem definido para a personagem, mesmo que Aubrey Plaza continuasse mostrando sua capacidade como atriz nos poucos minutos que teve. Mas Lenny parece estar efetivamente de volta à Legion, com direito até mesmo a um novo corpo, agora de olhos azuis, em um capítulo que se veste de contornos de horror e que vai lentamente cozinhando uma revelação aterradora. Se o anterior foi focado completamente na mente complexa e trágica de Syd, agora foi a vez de Lenny brilhar. E Aubrey Plaza não desaponta (em que momento alguém imaginaria que ela desapontaria, não é mesmo?), criando uma nova versão da personagem que convence nos três “estágios” em que é vista no episódio.

Mas Hawley não é bobo e ele evita viagens mentais esquisitas. Já foram dois episódios seguidos assim e, aqui, ele se mantém quase que integralmente fora a mente de Lenny, deixando-nos a uma distância segura da personagem que é entrevistada, em sucessão, por Clark, Ptonomy e, finalmente, David. E a palavra chave, no episódio, é dita mais para seu fim por Ben (agora vivido por Ryan Caldwell), marido de Amy (Katie Aselton), irmã de David: “dread“, palavra que é comumente traduzida como simplesmente “medo” ou “pavor”, mas que é mais insidiosa do que isso. Dread é um medo específico, um pavor de algo que você sente que está por acontecer, quase que como um pressentimento muito ruim. E é esse sentimento que perpassa todo o episodio, desde a mais inócua entrevista de Lenny por Clark, em que a primeira veste a aparência de vítima de abuso (e que é mesmo, mas não apenas isso) até a revelação da verdade ao longo da conversa com David.

Se Ptonomy tem seus poderes limitados por aquele negócio estranho que entrou em seu ouvido (provavelmente uma manifestação física de alguma indução telepática do Rei das Sombras) e encontrou uma barreira na mente de Lenny, deixando-nos pendurados com dúvida, mas, contraditoriamente, certos de que há algo de muito errado ali, a conversa final com David é assustadora na queima lenta que chega até a transmutação do corpo de Amy em Lenny por intermédio do DNA do corpo verdadeiro da amiga de David e aquela máquina que Oliver, controlado por Farouk, furtara da Divisão 3. Ainda que a máquina em si seja, digamos, “mágica” demais, e eu tivesse preferido que fosse algo feito pelo próprio Farouk usando seus vastos poderes, creio que seja perfeitamente possível fechar os olhos para a conveniência narrativa e aceitar o artifício. Afinal, o mais importante, ao longo do episódio, é a construção, a jornada e, quando “aprendemos” que não existe presente conforme a interpretação de Ptonomy, algo mais faz pleno sentido no capítulo: a história paralela de Oliver e Farouk (ou, talvez, Oliver/Farouk) que, primeiro, achamos que se passa no presente, em paralelo com as entrevistas de Lenny e relacionada com o corpo perdido do mutante superpoderoso, mas que, aos poucos, vamos notando que não só não tem conexão com o corpo de Farouk, como é algo no passado, ainda que recente, e que dá a base para Lenny estar ali na Divisão 3. E isso sem nem abordar a conversa sobre moralidade em que Oliver descarta o conceito, como se estivesse completamente entregue ao seu lado negro e ao desejo de vingança contra Farouk.

Essa brincadeira narrativa, cortesia de uma direção cuidadosa de Tim Mielants, com uma montagem que só é confusa se não usarmos a memória para reconstruir os eventos a partir da revelação final, é uma das marcas de Hawley que, desde o primeiro episódio vem não só fortemente brincando com o conceito de realidade, como, também, de tempo e a convergência das histórias, mesmo que sub-repticiamente, contribui para o aumento dessa sensação de pavor, de “dread” que é tão eficientemente construída. Mas para que Farouk se deu a esse trabalho todo? A resposta mais simples – e que eu acho que é a correta – é que esse é um passo importante para desequilibrar David e transformá-lo no tal grande vilão daquele futuro distópico que vimos, onde Syd, mais velha, não tem um braço. De algum jeito, há uma conexão entre a obtenção do corpo de Farouk e esse momento em um futuro possível (aqui, mais do que em outras séries, o conceito de realidades alternativas é da essência da narrativa) e o episódio que marca a metade da temporada parece pontificar essa inevitabilidade, mais uma vez fortalecendo esse “dread“.

Mas Legion não seria Legion se tudo fosse tão “simples” como coloquei acima. Afinal, o próprio episódio aqui comentado é um festival de momentos WTF, incluindo a visão que Ptonomy tem do Almirante com o rosto da criatura gosmenta que está lá passeando por sua mente e, lógico, toda a sequência surreal em que Oliver/Farouk segue Ben pelo deserto, com ele dirigindo um “carro-submarino” que entrega donuts para mineradores que saem de um buraco na terra e vivendo em um complexo aparentemente controlado pela Divisão 3 como uma espécie de programa de proteção à testemunha, culminando com o sonho de Amy com o Vermillion (aqueles androides andróginos do Almirante) e, claro, a “poeirização” de Ben (tem um monte de gente virando poeira essa semana no Universo Marvel, se é que vocês me entendem…) e a “transformação” de Amy em Lenny. Ah, e como poderia me esquecer do verdadeiro corpo de Lenny – com ou sem a mente dela, não sei dizer – saindo da tumba e indo em direção à civilização no lombo de um burro? É tanta coisa completamente surreal – a começar pela sala onde colocam Lenny, lógico – que não tenho a menor esperança de explicações. Mais do que isso, não preciso delas. Está excepcional assim mesmo, do jeito lisérgico de ser de Legion.

Não sei o que será dessa volta de Lenny (de duas Lennies, na verdade!) e o quanto essa revelação bombástica ao final desequilibrará David, levando-o ao caminho do futuro aterrorizante e sombrio que ele mesmo viu, mas uma coisa é certa: Aubrey Plaza merece todo o destaque possível. Se já tínhamos material de sobra para admirar na série, a inserção efetiva de Lenny na história é, sem dúvida alguma, mais uma escolha acertada de Hawley.

Legion – 2X05: Chapter 13 (EUA – 1º de maio de 2018)
Showrunner: Noah Hawley
Direção: Tim Mielants
Roteiro: Noah Hawley, Nathaniel Halpern
Elenco: Dan Stevens, Rachel Keller, Aubrey Plaza, Bill Irwin, Jeremie Harris, Amber Midthunder, Jean Smart, Navid Negahban, Jemaine Clement, Hamish Linklater, Jon Hamm, Pearl Amanda Dickson, Violet Hicks, Audrey Lynn, Lily Rabe, Ryan Caldwell, Katie Aselton
Duração: 45 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.