Crítica | Legion – 2X06: Chapter 14

Nota para cada realidade alternativa
e para o episódio como um todo:

  • Há spoilers. Leia, aqui, as críticas dos episódios anteriores.

O que Noah Hawley nos oferece com Legion é uma experiência nova e fascinante a cada episódio. E isso, por si só, já eleva a série a um patamar diferenciado, uma obra que deveria ser muito mais apreciada do que realmente é. Há tantas séries baseadas em quadrinhos de super-heróis por aí, mas há apenas uma Legion e não há preço para cada segundo nessa viagem lisérgica do showrunner pelos meandros de nossa percepção sobre a realidade que mistura cenários atemporais, personagens bizarros, narrativas crípticas, mergulho por mentes perturbadas e números musicais embalados com um apuro visual e sonoro simplesmente imbatível.

Pode até ser que nem todo mundo aprecie o esforço de Hawley aqui – e a audiência em queda deixa isso muito saliente -, mas acho difícil simplesmente descartar Legion debaixo de adjetivos simplistas como “chata”, “lenta”, “louca” e coisas do gênero. Trata-se, acima, de tudo, de uma experiência audiovisual e ela precisa ser entendida dessa forma, mesmo que a compreensão de cada detalhe, de cada maluquice colocada na telinha não seja algo facilmente alcançável. E nem deveria ser, pois tudo muito explicado cansa e não há nada como aquela sensação de estar vendo algo fora do comum, totalmente fora da tão maltratada caixa.

Afinal, não é toda série de TV que investe um capítulo inteiro em seu protagonista vivendo vidas diferentes em realidades alternativas diferentes e, mais ainda, em momentos temporais diferentes dessas realidades alternativas diferentes. E tudo isso para lidar com a dor da perda, da realização de que sua irmã morreu ou, pior, foi transmutada em outra pessoa (no episódio anterior). Em resumo: luto no multiverso com direito a um surreal camundongo cantando e dançando Slave to Love, de Bryan Ferry, e um magnífico reencenamento da sequência do espancamento do mendigo de Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick.

Aliás, diria que as sequências do camundongo e de Laranja Mecânica são, sozinhas, mais do que suficientes para justificar a avaliação máxima deste episódio, mas é notável como ele vai muito além disso. Para isso, basta pensarmos aqui muito rapidamente que estamos falando de, essencialmente, um episódio que poderia ser caracterizado como filler, que não é muito mais do que um epílogo do anterior, mesmo que ele venha a servir para justificar algum desequilíbrio mental (mais?) de David em futuro não muito  distante. Como filler, esperar-se-ia algo simples, objetivo e genérico, mas Hawley não é um showrunner que se daria a fazer algo assim, básico. Ao contrário até. O criador da excelente Fargo (a série) não mede esforços em uma produção absolutamente incrível, repleta de variados cenários, figurinos e trabalhos de maquiagem e cabelo de merecer Oscar. Vemos David em várias versões, com cada uma delas contando um arco narrativo fechado, com começo meio e fim (ou, pelo menos, meio e fim), com direito até mesmo ao arco que serve de prelúdio para a realidade principal que nós temos vivenciado até agora na série, que leva o David que conhecemos até o sanatório Clockworks (repararam a conexão direta com Laranja Mecânica ou, em inglês, A Clockwork Orange?) onde conhece Syd e onde começa a 1ª temporada.

Mais uma vez, como Hawley vem fazendo desde que a 2ª temporada começou, nossa noção de realidade é desafiada. As diversas realidades – uma delas explicando as várias realidades com batatas fritas – correm em paralelo, mas de forma não linear, de forma que somos mantidos em xeque, tentando encaixar mentalmente as peças do quebra-cabeças proposto que demoramos até mesmo para identificar que se trata de um quebra-cabeças. É como remontar Pulp Fiction mentalmente, mas com os mesmos atores vivendo todos os personagens e com cada narrativa sendo paralela e não sucessiva.

Dan Stevens, lógico, é o grande destaque do episódio. Tivemos um grande foco nas mulheres mais importantes da série nos dois episódios anteriores e, agora, é a vez do protagonista brilhar em seus múltiplos papeis dele mesmo. Vemos o Haller que conhecemos da “nossa” realidade em todos os Hallers ali, seja no office boy telepata que se torna um bilionário com complexo de deus ou o doente mental que se torna paraplégico quando seu poder se manifesta violentamente em um episódio policial e assim por diante. Katie Aselton também está muito bem em suas variações, mantendo uma bela química com Stevens até mesmo na fria e doentia cena em que a versão bilionária do personagem usa seu poder para fazer sangrar o nariz da versão perua e deprimida de Amy.

Mais uma vez, Noah Hawley assombra com a qualidade de seu texto e com o que ele nos proporciona a cada novo episódio. Legion pode ser pouco reconhecida, mas quem a assiste não simplesmente assiste TV, experimenta audiovisual.

Obs: Uma notícia ambivalente saiu semana passada: a 2ª temporada de Legion teve mais um episódio encomendado, fazendo com que a temporada tenha 11 no total. Ter mais de Legion é sempre bom, mas essa notícia deve ser encarada com cautela. Não só 11 episódios é um número estranho, como ele pode significar, considerando a baixíssima audiência desta temporada – mais baixa ainda que a já baixa audiência da temporada anterior – o cancelamento da série, com o 11º sendo produzido para encerrar a história com alguma propriedade. Pode ser apenas uma conclusão apocalíptica minha, já que uma série bizarra como Legion pode sim ter 11 episódios simplesmente porque Hawley quer ou precise, agora que ele deve estar trabalhando na montagem dos próximos capítulos. No entanto, acho que é sadio esperar o pior para ser positivamente surpreendido.

Legion – 2X06: Chapter 14 (EUA – 08 de maio de 2018)
Showrunner: Noah Hawley
Direção: John Cameron
Roteiro: Noah Hawley
Elenco: Dan Stevens, Rachel Keller, Aubrey Plaza, Bill Irwin, Jeremie Harris, Amber Midthunder, Jean Smart, Navid Negahban, Jemaine Clement, Hamish Linklater, Jon Hamm, Pearl Amanda Dickson, Violet Hicks, Audrey Lynn, Lily Rabe, Ryan Caldwell, Katie Aselton
Duração: 45 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.