Crítica | Legion – 2X07: Chapter 15

  • Há spoilers. Leia, aqui, as críticas dos episódios anteriores.

É interessante constatar que os capítulos mais problemáticos de Legion, nesta temporada, têm sido aqueles que objetivam impulsionar a narrativa macro, ou seja, o conflito entre David Haller e Amahl Farouk, o Rei das Sombras. Longe de serem ruins – mas MUITO longe mesmo – a tendência mostrada tem sido a de fazer confusão pela confusão, sem um norte claro. E não, não estou pedindo indicações detalhadas, pois a manutenção do mistério lisérgico é da estrutura da série, mas aqui como no Capítulo 10, a narrativa muito fragmentada e cheia de momentos nonsense e repetitivos atrapalham mais do que realmente fazem a história andar.

Depois do angustiante passado de Syd, do foco na trágica volta da forma física de Lenny e da fascinante viagem de David pelo multiverso, o retorno à história principal decepciona um pouco ao novamente abordar a rivalidade dos dois mais poderosos mutantes da mesma maneira que antes: dialogando. Há um cenário novo, claro, mas é mais um momento de conversa entre eles que já vimos praticamente todas as vezes em que os dois se encontraram, como um pneu derrapando na lama. Uma coisa é um episódio filler como o dos vários Davids em várias realidades diferentes (que nem muito filler é, pois é uma forma de nos aprofundarmos na relação entre ele e sua irmã agora falecida ou transmutada), pois, ali, havia franqueza no objetivo. Agora que temos um episódio talhado para mover a trama principal é que sentimos mais o movimento de não sair do lugar.

Sem dúvida que as viagens visuais de Noah Hawley continuam firmes e fortes e elas são sempre os diferenciais na série, além dos divertidos e inusitados trechos “explicativos” com a narração de Jon Hamm que são novidade desta temporada e cujo foco, aqui, é no pânico moral, com direito até mesmo a cutucadas nas audiências do senado americano tentando criar uma relação de causalidade entre a delinquência juvenil aos quadrinhos e que levou à criação da Comics Code Authority na década de 50. No entanto, nem sempre os visuais imaginativos de Hawley conseguem compensar um texto que até pode não parecer em um primeiro momento, mas mastiga o episódio didaticamente ao fazer a ligação do pânico moral com o “monstro da insanidade” que David enfrenta depois que Ptonomy, o primeiro a ser infectado, transmite o “vírus” para seus demais colegas, levando-os a enfrentar os/as Vermillion em uma bela sequência em câmera lenta com especial destaque para Kerry.

O clímax, com o confronto do “alien” que sai das costas de Ptonomy, matando seu corpo físico, é o limite do que o CGI da série pode fazer, com Hawley recorrendo a espaços monocromáticos para lidar com a boa – mas não ótima – renderização da versão Godzilla da criatura em um embate anticlimático e simplista que dá a entender que lutar contra a loucura não é algo muito complexo. O melhor, porém, é o pouco de desenvolvimento que Ptonomy ganha em meio a essa narrativa, já que o personagem, se considerarmos as duas temporadas até agora, era o mais “esquecido” de todos (ainda que Melanie Bird também não seja mais muito proeminente) e as possibilidades de sua mente, agora ligada ao mainframe da Divisão 3, são infinitas, bastando que elas sejam efetivamente utilizadas.

Separadamente, por meio de um automóvel em seu plano astral, algo que creio, seja semelhante à piscina psíquica que David usa no laboratório de Cary, vemos Farouk acessar o mesmo futuro que David acessara e ficando espantado com a revelação de que “o herói será o vilão e o vilão será o herói”, algo que o roteiro tenta usar como parte de uma crítica social que acaba ficando de lado assim que o comentário sai da boca do sempre ótimo Navid Negahban. As implicações dessa revelação a ele são ainda incertas, ainda que ele muito claramente tenha ambição de “reinar” a Terra. No entanto, diria que essa troca simples de papeis nesse futuro da Syd sem braço é simplista demais para acontecer da forma como parece que acontecerá. Imagino – e espero – que o caldo engrosse bastante antes que algum momento de loucura completa de David o leve ao lado negro da Força como George Lucas fez atabalhoadamente com seu Anakin que reclama de areia em todo o lugar (e que não é o Darth Vader que vale, só para ficar claro). Outro aspecto em separado, mas também conectado com a Syd do futuro é a conversa que David e a Syd do presente têm na cama  em que ela, notando que realmente tem ciúmes dela mesma mais velha, estabelece regras que permitem que o telepata converse e abrace-a em suas viagens temporais, mas só. Isso acaba se encaixando – ainda que estranhamente, mas pode haver aí uma relação causal – com a mudança de estratégia da Syd futurista em que ela sugere exatamente algo mais do que apenas um abraço e um beijo, somente para David negar (pelo menos até agora).

Em seu episódio mais fraco até agora, Legion aproxima-se do fim prometendo muitos acontecimentos em apenas quatro capítulos. Há tempo, sem dúvida, mas talvez a alteração estrutural da série, cuja primeira temporada só teve oito episódios, tenha permitido espaço demais para Hawley brincar em sua caixa de areia, criando desequilíbrios como o que vemos aqui. Mas tenho certeza de que foi apenas um pequeno soluço e que voltaremos já já à programação normal.

Legion – 2X07: Chapter 15 (EUA – 15 de maio de 2018)
Showrunner: Noah Hawley
Direção: Charlie McDowell
Roteiro: Noah Hawley, Nathaniel Halpern
Elenco: Dan Stevens, Rachel Keller, Aubrey Plaza, Bill Irwin, Jeremie Harris, Amber Midthunder, Jean Smart, Navid Negahban, Jemaine Clement, Hamish Linklater, Jon Hamm, Pearl Amanda Dickson, Violet Hicks, Audrey Lynn, Lily Rabe, Ryan Caldwell, Katie Aselton
Duração: 45 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.