Crítica | Legion – 2X10: Chapter 18

  • Há spoilers. Leia, aqui, as críticas dos episódios anteriores.

Não sei se eu aplaudo ou se eu fico com medo  – ou os dois! – de Noah Hawley quando vejo um episódio desses de Legion. É tanta, mas tanta viagem lisérgica visual, que ela simplesmente não pode sair de uma mente que não esteja debaixo da influência pesada de narcóticos ou barbitúricos ou de uma junção dos dois. Afinal, como é possível imaginar um ralo de pia no meio do deserto, uma “pescaria” com coelhinho branco, além de monges com cofres na cabeça encaixados de maneira lógica(???) dentro de meros 40 e poucos minutos?

Brincadeiras à parte (pero non troppo), creio que Hawley esteja em algum tipo de competição com David Lynch, Luis Buñuel, Terry Gilliam, Quentin Dupieux e outros pelo prêmio de surrealidade audiovisual, mas confesso que é isso – exatamente isso – que espero do showrunner. Não assisto Legion para necessariamente ver “meus” quadrinhos ganhando vida – ainda que tenha sido incrível ver David Haller como o Legião das HQs, de cabelo espetado, logo no prólogo – ou para receber respostas para tudo que está na tela. Encaro a série como o que ela realmente é, ou seja, uma proposta experimental e surreal que desafia os conceitos de realidade e que apenas por acaso é baseada em criação da Marvel Comics. E o episódio sob análise entrega exatamente isso com um roteiro que alia de maneira extremamente muito eficiente todas essas doideiras com um relevante impulsionamento da narrativa macro, ou seja, o embate entre o protagonista e o Rei das Sombras, algo bem diferente do que vimos no capítulo anterior, razoavelmente perdido em sua identidade e objetivo.

A renovação para a 3ª temporada, algo que me pegou de surpresa considerando os números de audiência e a misteriosa adição de mais um episódio à temporada, permite-nos respirar aliviados e esperar com mais tranquilidade o desfecho do presente arco, que não necessariamente encerrará a história de Amahl Farouk e provavelmente não chegará a tocar por completo nas consequências da transformação final de David na ameaça mutante que os vislumbres de futuro deixaram entrever. E isso, claro, é uma excelente notícia e uma que nos ajuda a aceitar o leve “andar de lado” que aconteceu ao longo da temporada.

Mas andar de lado não é algo que acontece aqui, no penúltimo episódio. Apesar de todas as maluquices colocadas em tela, a captura de Syd por Farouk, agora no corpo de Melanie, leva a um longo diálogo entre eles que, ao passo em que vemos a conversão do David que conhecemos no David-monstro do futuro por intermédio das “mesas de vídeo”, serve também para transformar a Syd do presente na Syd triste e apocalíptica que David encontrara no futuro. Essa dupla mudança de status quo é crucial para a temporada e termina por fazer convergir, pelo menos até o momento, as duas linhas temporais diferentes. A desesperança fica evidente por toda a pegada lúgubre da fotografia escurecida no “labirinto do Minotauro”, que muito bem pode ser visto como o labirinto da mente de David, ecoando os diversos mergulhos nas mentes de Melanie, Ptonomy e Syd ao longo da temporada e, com isso, trazendo uma bela circularidade para a história. O Minotauro em si pode ser visto como uma manifestação da mente de David, mesmo que ele pareça ser uma criação de Farouk, já que Oliver, na sessão de tortura com furador que o Legião (citado assim pela primeira vez na série!) sadisticamente emprega, planta a dúvida que já fora plantada na temporada anterior: será que não seria tudo apenas um enormemente complexo construto mental de David? E vejam que a resposta a essa questão nem interessa, já que é muito mais importante a colocação da pergunta e, claro, da dúvida e isso tanto para nós, espectadores, quanto para o próprio protagonista.

Fora da ação no labirinto/ralo, vemos as tentativas de resgate por parte de Cary e Kerry, com direito a uma luta contra minions empunhando boleadeiras (impossível não lembrar de Kill Bill, Vol. 1) e também por parte de Clark e as/os Vermillion usando um sensacional diapasão de Itu que prometia cancelar as habilidades mutantes de todos por ali, até que Farouk, finalmente em seu corpo original, acaba com o plano deles com dois pequenos gestos, já demonstrando o poder sem freios do Rei das Sombras agora em sua versão física completa. Em outras palavras, vê-se claramente uma preparação para algum tipo de embate final entre os dois poderosos mutantes, ainda que seja difícil prever o que acontecerá considerando a loucura de David, agora aparentemente tendo sido seduzido pelo Lado Negro da Mutação – uma Fênix Negra na versão masculina, já pensaram? – e a manutenção de Farouk em sua linha de dominação total, algo que soa genérico, mas que faz sentido considerando seu nível de poder.

Claro que Lenny é, possivelmente, uma carta na manga de David (ou de Farouk, já não sei mais nada), já que toda sua preparação pelo comando mental de David há dois episódios culmina aqui, com ela preparada literalmente para uma guerra com uma arma que sai de uma caixa de ferramentas maior por dentro do que por fora. O que a arma faz, não sabemos, mas ela certamente não atira balas comuns. É bem possível que, no final das contas, seja Lenny o fiel da balança que definirá o caminho daquilo que veremos na próxima temporada.

O penúltimo episódio da temporada foi um primor de WTF? com propulsão narrativa. Um episódio que mostra que Noah Hawley, mesmo tendo nos brindado com capítulos menos do que perfeitos ao longo desta 2ª temporada, não é um showrunner qualquer. O problema – se é que isso é um problema – é que, agora, a expectativa pelo desfecho aumentou tremendamente…

Legion – 2X10: Chapter 18 (EUA – 05 de junho de 2018)
Showrunner: Noah Hawley
Direção: Dana Gonzales
Roteiro: Noah Hawley, Nathaniel Halpern
Elenco: Dan Stevens, Rachel Keller, Aubrey Plaza, Bill Irwin, Navid Negahban, Jemaine Clement, Jeremie Harris, Amber Midthunder, Hamish Linklater, Jean Smart, David Selby, Jelly Howie, Brittney Parker Rose, Lexa Gluck, Marc Oka
Duração: 45 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.