Crítica | Legion – 2X11: Chapter 19

Episódio

Temporada

  • Há spoilers. Leia, aqui, as críticas dos episódios anteriores.

Ou você morre um herói, ou vive o bastante para se tornar vilão.
⁃ Harvey Dent

Eu me perguntei, quando o episódio anterior acabou, como é que Noah Harley conseguiria lidar com o embate entre David e Farouk de maneira mais espetacular ainda. E, bem no estilo Hawley, que eu deveria ter imaginado, ele sequer tentou. No entanto, mesmo assim, o showrunner entregou um episódio memorável que encerra muito bem o arco de transformação do Legião no vilão do futuro que vislumbramos e, ao mesmo tempo, faz excelente uso de todos os 18 episódios anteriores.

Talvez o elemento mais memorável do Capítulo 19 seja sua linearidade, ou, melhor dizendo, sua simplicidade, pelo menos em comparação com tudo o que vimos antes. Hawley coloca em suspenso suas deliciosas sandices que nos trouxeram ralos no deserto e monstros mentais e aborda o encerramento da temporada de forma substancialmente objetiva e lógica, talvez até um pouco decepcionante para quem realmente esperava uma espetacular batalha mental que tomasse grande parte dos mais de 50 minutos de duração.

Afinal, a tal “luta final” toma apenas alguns poucos minutos do preâmbulo, antes ainda do título da série aparecer. Mas são minutos, mesmo assim, extremamente criativos, com “projeções astrais” gigantes digladiando-se por sobre os dois mutantes que permanecem fisicamente parados. Trata-se de uma referência perfeita à “batalha de giz no quadro negro” entre Farouk e o Professor X que vimos no Capítulo 7. Mas a cereja no topo desse bolo é a volta da estrutura musical, algo muito presente na 1ª Temporada, mas que tinha sido pouco usada na . Não apenas ao som, mas cantando Behind Blue Eyes do The Who (uma possível referência aos olhos claros de Lenny) tanto em inglês quanto em farsi, o episódio abre espetacularmente e prepara o espectador para a luta.

Mas não para seu fim.

Afinal, quando Lenny, como parte do plano original de David, ativa o “diapasão de Itu” com sua arma e desliga todos os poderes mutantes do lugar, a violência física toma conta, com um David enfurecido – enlouquecido! – transformando o rosto de Farouk em uma massa disforme e sangrenta. E notem que ele só para o massacre, que certamente iria até a morte do Rei das Sombras, com a triunfal chegada de Syd, toda ensanguentada, com uma arma em uma mão e a cabeça do Minotauro em outra.

É nesse momento que o segundo e mais importante combate começa com Syd – claramente a versão do presente da Syd do futuro que já vimos – apontando a arma na direção de David e com toda a intenção de usá-la. O diálogo que segue é o primeiro momento expositivo do episódio, em que as peças do que aprendemos ao longo das duas temporadas é montado. David é o vilão desse futuro apocalíptico que Hawley vem prometendo.

Ou será que não? Será que não foi o tiro de Syd – frustrado pelo tiro salvador de Lenny – que funciona como a proverbial gota d’água para transformação final de David? Ou será que realmente ele sempre foi o vilão, algo que o mergulho em sua mente em que ele dialoga com seus outros Davids – Vidad e DVD – dá a entender com a repetição ad nauseam de “a ilusão começa como qualquer sonho, como um ovo“, da narração de Jon Hamm? Afinal, mesmo que tentemos racionalizar que David sofreu influência de Farouk por 30 anos e que ainda pode ter caído no seu “feitiço” ao longo dos 10 episódios anteriores, o fato permanece que David parece extrair prazer de seus atos, os mais recentes deles sendo a tortura, com direito à furadeira elétrica, de Olivier e o espancamento de Farouk.

Mas esqueçamos tudo e foquemos no que David faz no momento em que sai de seu transe mental, ainda no deserto. Ele, sem autorização de Syd, altera suas memórias para fazê-la esquecer os últimos eventos, passando a “amá-lo” mais uma vez. Pior ainda – MUITO PIOR – David, depois disso tudo, faz sexo com essa Syd de memória alterada. Querem que eu use a palavra que a própria Syd deixa de usar? Pois bem, David a estupra. Pronto, falei.

Esse é o herói que aprendemos a gostar ao longo de 18 episódios por um Noah Hawley absolutamente sacana. Afinal, o nome da série é Legion. David é o Legião. Ele simplesmente não poderia ser o vilão. Mas só que é. E não tem muita saída para isso, a não ser que tudo seja ainda um “mega-macro-plano”, que faria inveja a qualquer vilão de James Bond, de Amahl Farouk. Creio, porém, que Hawley não parece ser o tipo de força criativa que faz uso de saídas fáceis como essa. Seria uma perversão completa do que já é uma perversão completa de nossas expectativas.

A sequência do julgamento traz novamente um momento expositivo em que mais uma vez Hawley pega na mão do espectador para fazê-lo efetivamente entender o seu plano diabólico. Confesso que esse momento, assim como o com Syd, pareceram redundantes, mas talvez necessários. Foi o fechamento de um arco cheio de doideiras e viagens lisérgicas que o showrunner simplesmente precisava explicar, trazendo elementos das duas temporadas para encaixe e lembrança do espectador. Ainda que não seja ideal, creio que a construção foi hábil o suficiente para não parecer fora demais da estrutura geral do episódio que, como mencionei, é o mais linear da temporada, quiçá de toda a série até agora.

Já tivemos vários vislumbres do futuro e, aqui, temos mais um, cortesia de um pulo de três anos focado em Melanie e Oliver vivendo sua utopia de casal lá no cubo de gelo mental do mutante. Olhamos o futuro a partir de suas lembranças enevoadas e incertas do que ocorreu. O mundo não acabou, segundo Melanie, mas David transformou-se. Seria a transformação que vimos ao longo do episódio (ou da série inteira, melhor dizendo)? Será que esse futuro é mesmo inevitável? Esse interlúdio com a dupla é o único momento que cai na categoria de “divertido” no episódio, ainda que haja um claro delineamento sombrio nos comentários dos dois.

Depois de um cliffhanger WTF com o orbe que, agora, aprendemos que foi enviado por Carey, tivemos um cliffhanger completamente esperado para a vindoura 3ª Temporada. David, revelado como vilão, espetacularmente liberta Lenny, desaparecendo em seguida. Será que a próxima temporada terá o Rei das Sombras como “mocinho”? Seja como for, ficou claro que Noah Hawley tem um plano muito bem definido para sua série e, mesmo considerando alguns pouco episódios nesta temporada menos do que espetaculares, tenho certeza que será um deleite ver o que ele fará agora.

Legion – 2X11: Chapter 19 (EUA – 12 de junho de 2018)
Showrunner: Noah Hawley
Direção: Keith Gordon
Roteiro: Noah Hawley, Nathaniel Halpern
Elenco: Dan Stevens, Rachel Keller, Aubrey Plaza, Bill Irwin, Navid Negahban, Jemaine Clement, Jeremie Harris, Amber Midthunder, Hamish Linklater, Jean Smart, David Selby, Jelly Howie, Brittney Parker Rose, Lexa Gluck, Marc Oka
Duração: 53 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.