Crítica | LEGO Batman: O Filme

estrelas 4

Quando Uma Aventura LEGO explodiu todas as expectativas em 2014 e provou-se mais do que um mero veículo de merchandising, trazendo consigo uma história inteligente, profunda e absurdamente divertida, ficara evidente que a Warner Bros. havia encontrado uma nova fonte a ser explorada. Um dos fatores que mais agradavam na animação de Chris Miller e Phil Lord era a presença de figuras da cultura pop, com grande destaque para um irreverente e autoconsciente Batman. Sem dúvidas o grande atrativo do filme, não foi necessário pensar duas vezes para saber que ele seria o primeiro a ganhar seu derivado. Felizmente, LEGO Batman: O Filme honra não só a criação de Miller e Lord, mas também todo o cerne da história do personagem.

A trama é totalmente focada no Cavaleiro das Trevas e na versão LEGO de Gotham City. Batman (voz original de Will Arnett) é praticamente uma celebridade em seu combate ao crime, sempre liderado pelo Coringa (Zach Galifianakis), que luta para se provar como o definitivo arqui-inimigo do herói. Mas depois de tanta pancadaria, eis que o mordomo Alfred Pennyworth (Ralph Fiennes) aponta para a solidão de Batman e seu inegável medo de ser parte de uma família novamente, algo que prova-se um desafio quando o jovem órfão Dick Grayson (Michael Cera) descobre a Batcaverna e insiste em se tornar seu parceiro.

Ao longo dos 78 anos de sua História, já tivemos diversas releituras e adaptações do Batman para diversas mídias. Tivemos programas no rádio e na televisão, que culminaram na clássica série de Adam West e Burt Ward nos anos 60 e o lendário desenho animado criado por Bruce Timm na década de 90. Então, no cinema, o personagem ganhou uma fase gótica pelas mãos de Tim Burton, um festival carnavalesco com Joel Schumacher, sua era de ouro com a trilogia de Christopher Nolan e no momento tenta se encaixar no bagunçado e caótico universo cinematográfico da Warner DC. Porém, foram poucos os que entenderam tão bem o personagem como LEGO Batman. Talvez apenas Nolan assuma a dianteira, mas o que diretor Chris McKay e os roteiristas Seth Grahame-Smith (quem diria) Chris McKenna, Erik Sommers, Jared Stern e John Whittington alcançam aqui é o maior estudo de personagem que o Morcego já teve em muito tempo, e é ainda mais surpreendente pelo fato de se tratar de uma animação assumidamente comédia, o exato oposto da personalidade do protagonista.

A questão sobre a solidão do Homem-Morcego pode parecer clichê e superficial, mas é um tema que o longa é capaz de resolver com extrema habilidade e eficiência, trazendo consigo até mesmo a carga emocional surpreendentemente afetiva do primeiro LEGO e uma série de catarses que funcionam e enriquecem a figura do Batman; seja em sua rejeição ao aceitar Robin como parceiro ou até mesmo reconhecer que o Coringa é seu grande vilão (em um divertido diálogo que, como muitos já fizeram, comparam a relação dos dois com algo amoroso), e a jornada desse Batman narcisista e apaixonado por si próprio é cheia de ótimos momentos e traz recompensas satisfatórias em sua conclusão. Ver o personagem andando por sua mansão de máscara e robe de banho, preparando um prato de lagostas no micro-ondas, é uma das desmistificações mais brilhantes de um super-herói que já vi nos últimos anos, sem falar em uma engraçadíssima referência à Jerry Maguire.

O fato de este ser um Batman consciente de sua História e existência também garante algumas das mais hilárias piadas do filme, especialmente por trazer referências diretas a praticamente todas as suas encarnações anteriores (sobrando até mesmo uma merecida cutucada em Esquadrão Suicida) e a própria imagem badass que o personagem veio ganhando ao longo dos anos – “Because I’m Batman!”. Todas as interações do sensacional Batman de Will Arnett com os diferentes vilões, aliados e personagens clássicos são perfeitos, ainda que diversas figuras acabem subdesenvolvidas ao longo do caminho (vide o interesse amoroso em Barbara Gordon, ou Babi, de Rosario Dawson) e a Liga da Justiça não tenha uma participação maior durante o clímax.

Em termos de animação, Chris McKay segue a mesma estética “stop motion digitalizado” adotada por Miller e Lord em Uma Aventura LEGO, mas é fascinante observar como a técnica parece melhor e mais fluída do que em 2014. Ainda temos a impressão de que são de fato bonequinhos de LEGO andando e lutando por aí, mas temos agora elementos como o terno longo do Coringa, a capa do Batman (e seu cabelo transmorfo) e as diversas e insanas transformações dos bat-veículos. É um efeito que fica ainda mais sofisticado quando somos apresentados a um universo totalmente novo durante o confronto final, e que traz participações especiais que vão fazer o público gritar de empolgação e bancar o Capitão América para pegar todas as inacreditáveis referências.

É maravilhoso ver um filme tão seguro e com tanta liberdade como LEGO Batman: O Filme. Não só demonstra a compreensão correta e reflexiva do Cavaleiro das Trevas, mas também se firma como um dos mais divertidos e engraçados filmes de animação dos últimos tempos, mostrando que é possível se adquirir ótimos resultados dramáticos através da comédia. Não é nenhum absurdo atestar que este LEGO seja superior a todas as produções recentes do universo expandido da DC nos cinemas, e a turma de Geoff Johns e Zack Snyder deveria prestar atenção aqui.

LEGO Batman: O Filme (The LEGO Batman Movie) — EUA, 2017
Direção: Chris McKay
Roteiro: Seth Grahame-Smith, Chris McKenna, Erik Sommers, Jared Stern e John Whittington
Elenco: Will Arnett, Zach Galifianakis, Rosario Dawson, Michael Cera, Rosario Dawson, Jenny Slate, Mariah Carey, Billy Dee Williams
Duração: 104 min

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.