Crítica | Leitão – O Filme

Mesmo sob a ótica de um defensor das animações da Disney enquanto obras de arte, Leitão – O Filme é explicitamente um produto infantil. Resultado de uma produção desenfreada de produtos alusivos à franquia Ursinho Pooh — das mais lucrativas da empresa — a animação parece pouco inspirada e faz mais do mesmo, limitando-se a um texto que tem pouco apelo até mesmo às crianças mais velhas.

Trabalhar com um produto conhecido como os bichinhos do Bosque dos Cem Acres é um facilitador e tanto. Não há tempo perdido em montar aquele espaço, logo tudo é apresentado numa sequência que mostra o que há de disfuncional nos personagens: Pooh, um líder cleptomaníaco e inconsequente; Coelho, antissocial e mau humorado; Tigrão, abobalhado e tão agitado quanto insuportável; e o protagonista, Leitão, com uma péssima autoestima que é o mote para a história, afastar-se dos amigos por não ter o devido valor.

Essa associação à características negativas fácil associadas às mazelas da infância é mais um mérito do autor A.A. Milne que dos animadores, mas aqui todos os personagem recebem o devido valor. A estrutura de flashbacks por meio das memórias do Leitão dão espaço para cada um dos personagens brilhar e ter seu momentos de graça, mesmo que retratados de forma mais infantil que a normal, já que muitas piadas são pensadas para a criançada que morre de rir de tropeços e galhofas do tipo.

E claro que toda a ingenuidade e bom-humor da Disney vai estar aqui, levando as lições de companheirismo, lealdade e coragem presentes nos filmes da empresa mais uma vez ao mesmo público alvo, só que sem cativar efetivamente quem tiver mais de dez ou doze anos. É tudo bem simples, das músicas à arte, nada é trabalhado de forma motivada, há uma roupagem mais de desenho dominical que de longa-metragem (algo que fica ainda mais claro quando o filme é engendrado de forma episódica). É covardia comparar às grandes produções do estúdio, mas até em relação aos filmes da franquia lançadas perde. Até mesmo as histórias contadas são importadas diretamente das histórias originais, sem qualquer novidade.

Leitão – O Filme é mais uma maneira de tirar leite de pedra de personagens apelativos ao público infantil. Transpira tanto o caráter direct-to-video que vale mais comprar o DVD deste filme e dar na mão de seu filho pequeno, que não vai se importar de assistir incessantemente o filme na televisão de casa e não cansará do texto pouco inspirado. Mas quem sou eu pra reclamar de algo tão inofensivo? É fofo, inspirador às crianças que estão aprendendo o que é viver socialmente, então cumpre seu papel, mesmo que explorando um produto de forma meio descara.

Leitão – O Filme (Piglet’s Big Movie) – EUA, 2003
Direção: Francis Glebas
Roteiro: A.A. Milne, Brian Hohfeld
Elenco: Jim Cummings, Nikita Hopkins, Ken Sansom, John Fiedler, Peter Cullen, Andre Stojka, Kath Soucie, Tom Wheatley
Duração: 75 min.

BRUNO DOS REIS LISBOA PIRES . . . Escrevo sobre cinema e falo ladainha, as vezes os dois ao mesmo tempo. Entusiasta do cinema vulgar. John Carpenter, Howard Hawks e Neville de Almeida me ensinaram tudo que eu sei, pena que eu matei muita aula. Geralmente minha opinião é contrária a dos outros, mas eu sou a favor de termos a mesma só pra ser do contra. Ao caminhar entrevi lampejos de beleza.