Crítica | “Lemonade” – Beyoncé

estrelas 4

“I was served lemons, but I made lemonade.”

Limonada: uma bebida bem açucarada, feita através de uma fruta de sabor ácido. Tal bebida realmente parece ser o nome perfeito pra representar o novo trabalho de Beyoncé. Se trata de uma mistura do R&B chiclete e adocicado de álbuns como 4, junto com a atmosfera mais introspectiva e compromissada de seu tão comentado disco homônimo. Isso porque Lemonade não tenta ser algo sério ou conceitual (só se você realmente comprou essa de que se trata de um disco pessoal) como seu antecessor, já que possui canções com maior frescor pop, mas mesmo assim sabe equilibrar novos e conscientes temas.

Com certeza o maior trunfo de Lemonade vem em conseguir soar coeso mesmo acumulando tantas influências. Você encontra arranjos sintéticos e orgânicos, gêneros como country e R&B, e temáticas românticas e de crítica social, mas tudo muito bem centrado. É um compilado de canções que mostram a jornada de uma mulher machucada pelo amor e, progressivamente, seu fortalecimento. Claro que escutar a ótima introdução de Pray You Catch Me, com belo arranjo de vozes, é contrastante com sua sucessora, a fraquíssima e indefinida Hold Up, que não sabe se decidir entre ser pop ou alternativo. Mas o disco, aos poucos, progride. E progride bem.

O mais interessante está nos experimentos de Beyoncé, que em momentos adentra gêneros diferentes, alguns até tipicamente “brancos”, como o rock n’ roll de Don’t Hurt Yourself – com participação de Jack White – e o country de Daddy Lessons. A primeira é um ótimo dueto nos moldes de Another Way To Die (canção de White com Alicia Keys pra 007: Quantum Of Solace), provavelmente com muita influência criativa de White, tanto na guitarra quanto na bateria. Tais canções mostram uma Beyoncé furiosa e voraz, aberta a experimentar gêneros que não costumam estar em seu catálogo.

Sandcastle já joga em interessante terreno emocional. Uma canção com arranjo gospel de atmosfera tão bela quanto a mostrada em Heaven, do álbum anterior. James Blake ainda entrega uma interpretação impecável em Forward, essencial para complementar a canção anterior. Ainda no âmbito das participações especiais, se encontra The Weeknd em 6 Inch, fazendo o oposto do mencionado sobre Blake: uma participação sem brilho e limitada, com intuito muito maior de agregar status de nome do que qualificar o trabalho de Abel na faixa. Mas, também, a própria faixa não ajuda muito, mesmo com suas excelentes variações melódicas, em algumas audições pode soar cansativa.

Por fim, outro ponto alto de Lemonade está no aspecto que aborda a cultura negra. A fantástica Freedom, com arranjo de tambores, guitarras e baixo excelentes, além de um refrão explosivo, conta com participação do artista perfeito para a temática: Kendrick Lamar. Formation, o primeiro single do disco, é mais um exemplo desse aspecto cultural. “My daddy Alabama, momma Louisiana”, ela canta logo de início mostrando as raízes da cultura afroamericana ao mesmo tempo que manda um dedo do meio direcionado a desigualdades e insistentes preconceitos raciais. São momentos como esses que Beyoncé prova, mais uma vez, sua brilhante capacidade como intérprete, cantando cada verso com a atitude necessária.

Lemonade é um flerte com tudo que Beyoncé e seus produtores podem oferecer, mas tem dificuldades em extrair esse potencial total, soando por vezes padronizado demais. É um passo importante na carreira da cantora, recheado de letras excelentes, bons arranjos orgânicos e finalizando muito coerente, até mais fluido que seu antecessor. Sabe balancear doses de ousadia ao mesmo tempo que joga seguro. Em resumo, faz um bom uso dos limões a ela oferecidos.

Aumenta!: Formation
Diminui!: Hold Up
Minha Canção Preferida: Freedom

Lemonade
Artista: Beyoncé
País: Estados Unidos
Lançamento: 24 de abril de 2016
Gravadora: Parkwood
Estilo: R&B

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, fascinado por música, cinema e quadrinhos. Um fã de ficção científica e aventura que carrega seu fone de ouvido por todo lado e se emociona facilmente com música, principalmente com "The Dark Side Of The Moon". Enquanto não viaja pelo tempo e espaço em uma TARDIS, viaja pelo mundo dos livros e da música.