Crítica | Lenda Urbana (1998)

estrelas 3

Aconteceu com alguém que conhece alguém que você conhece. Você será o próximo. Essa é a base da narração das lendas urbanas, histórias que sempre impressionaram as pessoas, principalmente o público jovem. O termo se refere aos fabulosos acontecimentos divulgados amplamente de forma oral, via e-mail e hoje, através das redes sociais. Algumas são bastante antigas e sofreram alterações ao longo do tempo, principalmente com o advento da internet e dos ecos destas histórias no meio virtual. Baseadas em fatos reais, estas lendas geralmente refletem preocupações sociais. Em 1998, no bojo de produção de narrativas na esteira de Pânico surgiu Lenda Urbana, um filme sobre assassinatos em um campus universitário.

No filme, Natalie (Alicia Witt) é uma estudante universitária que se encontra em meio a uma série de crimes sádicos, inspirados nas mais tenebrosas lendas urbanas. Instigada, ela decide pesquisar sobre um massacre ocorrido há 25 anos, envolvendo estudantes e um professor, assunto que foi encoberto pelos gestores da universidade. Logo, Natalie vai descobrir que ela é o foco de uma nova onda de crimes.

Lenda Urbana funciona muito bem como filme de terror. É ágil, com direção dinâmica e eficiente. O trabalho de som dá conta do recado, além da montagem de Jay Cassidy, que consegue organizar bem os problemas do roteiro. E os problemas textuais do filme não são poucos, como abordarei mais adiante. Destaque para a cena da perseguição de Brenda, durante um ataque na rádio da universidade. A sequência é uma típica e eficiente perseguição de filme de terror.

Escrito por Silvio Horta, o filme busca capitalizar no sucesso de Eu Sei O Que Vocês Fizeram no Verão Passado. O problema da produção é a explicação para os motivos do assassinato. Se em Pânico há todo um jogo irônico no desfecho narrativo, em Lenda Urbana o psicopata (ou a psicopata?) para estar diante de uma apresentação de seminário na faculdade: há slides com fotos, efeitos, explicações para a sua postura criminosa, fruto de uma vingança. Cheio de exageros, o roteiro não se contenta com a falta de verossimilhança e despenca para mais absurdos nos últimos cinco minutos de história.

Os personagens são carismáticos. Há quase todos os arquétipos dos filmes de terror estão presentes: Natalie (a boazinha), Brenda (a amiga para sempre), Sasha (a sensual e irreverente), dentre outros tipos, como o repórter galã e uma colega de quarto insuportável, que provavelmente será morta nos primeiros minutos de filme.

A produção faz algumas homenagens ao gênero com as suas participações especiais: Brad Dourif, o responsável pela voz do boneco assassino Chuck. Robert Englund, o eterno psicopata dos pesadelos Freddy Krueger surge como um professor de folclore popular e Danielle Harris, a sobrinha de Michael Myers em Halloween 4 e 5 dá as caras como a colega de quarto gótica da protagonista.

As lendas urbanas são narrativas de cunho coletivo encobertas por efeitos de verdade: shampoo que causa câncer, o celular que pode explodir o posto de gasolina, etc. Sempre trazendo uma transgressão, as lendas geralmente mostram uma ação que consiste em desobedecer e violar os limites estabelecidos por algo. Expressam os nossos medos e pede do narrador a crença naquilo que fala: em Lenda Urbana, a equipe parece bastante envolvida e acreditam no que contam, mesmo que alguns pontos soem absurdos, principalmente no seu final apelativo.

Lenda Urbana (Urban Legend, Estados Unidos, França – 1998)
Direção: Jamie Blanks.
Roteiro: Silvio Horta.
Elenco: Jared Leto, Alicia Witt, Rebecca Gayheart, Tara Reid, Michael Rosenbaum, Loretta Devine, Robert Englund, Danielle Harris, Brad Dourif, Joshua Jackson.
Duração: 100 minutos

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.