Crítica | Lenda Urbana 2

estrelas 3

A insegurança e a violência urbana são temas que dominam largamente o mundo das lendas urbanas contemporâneas. Além do roubo do rim, a babá ameaçada por um psicopata e o refrigerante com salgadinhos industrializados, há também as lendas do tecno-medo, envolvendo micro-ondas, videogames e atualmente os celulares. Narrativas pequenas, mas geralmente bem estruturadas, as lendas urbanas procuram se autenticar por meio de testemunhas e provas supostamente existentes.

Cientes do poder que este tema possui dentro do campo do terror, alguns produtores investiram em um novo filme baseado nestas histórias, mas com um pequeno problema: praticamente não há lendas urbanas no roteiro. Essa é mais uma produção que tentou pongar no sucesso de Pânico. Continuação de Lenda Urbana, o filme possui poucos elos com o primeiro filme e a única lenda urbana “oficial” é o roubo do rim, praticamente desconectada do contexto central do roteiro.

No final das contas, percebemos que o interesse maior era mesmo capitalizar em cima do sucesso do primeiro filme, mas esse aqui perde feio, pois é arrastado e as cenas de ação não conseguem alcançar o efeito esperado para uma produção do gênero terror. O culpado? O roteiro, sem sombra de dúvidas.

Na trama, a realização de um filme de terror se transforma numa macabra realidade para os estudantes da mais privilegiada escola de cinema do país. Há um festival de cinema e o grupo vencedor ganhará o prêmio Hitchcock, o que torna a chegada ao primeiro lugar uma aposta arriscada, tendo em vista que alguém está disposto a eliminar os competidores. Visualmente mais sofisticado, Lenda Urbana 2 apresenta alguns sustos bobos e ganha do primeiro apenas na tentativa de alguns debates sobre a realização cinematográfica.

A grande surpresa ao assisti-lo foi saber que o texto do filme era da dupla responsável pelo ótimo O Exorcismo de Emily Rose. Se no filme sobre possessão demoníaca os escritores alcançaram um bom nível de tensão, em Lenda Urbana 2, eles conseguem apenas um rascunho. Posso afirmar com segurança que neste filme sobre lendas (sem lendas urbanas), os profissionais estavam estagiando no gênero, conquistando o devido espaço no terror apenas com a aterrorizante narrativa de exorcismo.

Se o filme perde pela forma como é contado, ganha em alguns aspectos imagéticos. A montagem de Rob Kobrin e John Ottman não colabora, mas visualmente o filme recebe apoio da sombria fotografia de Brian Person, e no campo sonoro, do trabalho de som mediano.

Dentre as citações e homenagens metalinguísticas, há uma rápida e deslocada citação sobre encenação, Godard e cinema-verdade. “O cinema é mais importante que a vida?”, questiona o professor de cinema, citando diretamente uma das reflexões de François Truffaut, trecho que só pode ser compreendido por aqueles que conhecem o diretor francês, pois não há uma abertura maior para se discutir o assunto. O filme até tem tempo, pois parece se arrastar por uma eternidade entre um assassinato e outro.

Foi possível identificar duas homenagens ao mestre do suspense Alfred Hitchcock: uma cena de perseguição numa torre de sinos (Um Corpo Que Cai) e um grito abafado no momento do crime, como (O Homem que Sabia Demais). Lembra Pânico 3 e os bastidores de produção de um filme, mas se a terceira parte da trilogia de Wes Craven foi o episódio mais mediano, Lenda Urbana 2 consegue ser ainda menos impactante.

Um filme aparentemente difícil de digerir, mas que pode ser enfrentado se você se dedicar com a devida calma e paciência. Cabe ressaltar que os produtores ainda investiram em Lenda Urbana 3, uma narrativa ainda mais desconectada e com todos os defeitos técnicos possíveis.

Lenda Urbana 2 (Urban Legend 2 – The Final Cut, Estados Unidos, França – 2000)
Direção: John Ottman.
Roteiro: Paul Harris Boardman e Scott Derrickson.
Elenco: Jennifer Morrison, Matthew Davis, Mart Bocher, Loretta Devine, Eva Mendes, Joseph Lawrence, Anson Mount, Anthony Anderson.
Duração: 100 minutos

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.