Crítica | Life Is Strange

estrelas 4

Como nosso editor Ritter Fan costuma dizer, viagem no tempo é a melhor receita para fazer qualquer obra parecer interessante. Apesar de muitos jogos utilizarem a temática, poucos realmente te colocam em uma posição de time lord como Life Is Strange, game que apesar de distribuído pela Square Enix, carrega todo um ar indie da Dontnod Entertainment. O game lançado de forma episódica, totalizando 5 capítulos, se mostra um trabalho, mesmo que com muitas ressalvas, brilhante, com uma história constantemente instigante.

O jogo acompanha a jovem Max Caulfield, uma adolescente que busca se encontrar no mundo, ou pelo menos na cidade onde mora, a pequena e conflituosa Arcadia Bay. Max seria apenas uma garota normal enfrentando problemas típicos das meninas de sua idade se não descobrisse que possui a habilidade de “rebobinar” o tempo. A partir desta descoberta conhecemos Chloe, sua melhor amiga, com quem tem um passado e a quem fará de tudo para proteger.

Life Is Strange se aproveita de uma jogabilidade simples que vem ganhando popularidade nos últimos anos com Heavy Rain, The Walking Dead e The Wolf Among Us, uma espécie de point and click onde suas escolhas refletem no andar do jogo. Só que o game possui um diferencial óbvio: a função de rebobinar o tempo (quase) o quanto quiser. Acha que fez a escolha errada? Basta voltar um pouco a fita e mudar sua atitude. No entanto, o jogo possui uma linha própria que deixa essa habilidade de maneira limitada, ainda que proveitosa. A Dontnod Entertainment sabe fazer uso dessa ideia de maneira certeira e inteligente. O seu “dom” nada mais é que um jeito de fortalecer as relações entre os personagens, seja pra salvar ou não alguém, pra extrair informações alheias e usar contra alguém, ou mudar completamente uma cadeia de eventos.

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SuperMax e sua sidekick, Chloe…

O grande trunfo parece ser realmente o roteiro, que apesar de algumas falhas e clichês, sabe construir muito bem seus personagens e, principalmente, seus relacionamentos, ligando a sequência de eventos sempre de maneira orgânica. Há, também, uma carga de suspense muito bem maneirada que prende a atenção do jogador em busca de respostas, nos recompensando com reviravoltas excelentes. Entre os outros méritos de Life Is Strange está sua trilha sonora espetacular que marcará o jogador, muito provavelmente, como uma das mais belas que este terá visto nos games. A delicadeza do jogo é muito bem apresentada nas inúmeras canções folk e indie ao longo dos episódios, o que fortalece a ideia principal da obra que, no fundo, consiste em envolver o jogador emocionalmente.

Entretanto, há seus problemas, que não são simples de ignorar. Embora apresente uma gama enorme de escolhas ao longo da história, chegamos ao fim de tudo com apenas uma que definirá o desfecho do game, sendo somente dois finais possíveis. Embora este que aqui escreve seja um defensor de que a jornada e os meios são mais importantes que os fins, não deixa de ser frustrante ver tal limitação, possivelmente ocasionada pela falta de orçamento. Além disso, muita coisa (inclusive esses finais) são previsíveis para qualquer um que já assistiu a filmes sobre viagem no tempo (aliás, que fique registrado o quanto o game bebe da fonte Efeito Borboleta). A velha carta “não brinque com o tempo” é acionada, mas acredite em uma coisa: temos aqui uma das melhores “lições” desse tipo que já foi vista em qualquer mídia. O que você presencia no último capítulo é assustador…

Life Is Strange carrega a simplicidade e delicadeza típica de um jogo indie – mesmo contando com distribuidores populares e investimento moderado – afim de contar um ótimo conto de amizade. Vivenciar a série de acontecimentos estranhos da pequena Arcadia Bay enquanto convive com seus moradores carismáticos é extremamente prazeroso e vale a pena principalmente aos jogadores abertos a uma experiência emocional nesta mídia. No fim, pode ter certeza, SuperMax e suas aventuras vão provocar saudades.

Life Is Strange
Desenvolvedor: Dontnod Entertainment
Lançamento: último capítulo em 20 de outubro de 2015
Gênero: Aventura, Drama
Disponível para: PC, PS3, PS4, XBox 360 e XBox One

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, cantor de chuveiro e tocador de guitarra de ar. Seja através dos versos ácidos de Kendrick Lamar, a atitude de Bruce Springsteen, ou a honestidade de Tim Maia, por seus fones de ouvido ecoam ondas indistinguíveis. Vai do sangue de Tarantino à sutileza de Miyazaki, viajando de uma galáxia muito, muito distante até Nárnia. Desbravador de podcasts e amante de indie games, segue a vida com um senso de humor peculiar e a certeza de que tudo passa - menos os memes.