Crítica | Life Itself – A Vida de Roger Ebert

estrelas 4

Alguns documentários possuem abordagens específicas que se tornam interessantes apenas para o público alvo. Life itself – A Vida de Roger Ebert não é um desses casos. Apesar de resgatar a história de um dos profissionais mais renomados do campo da crítica cinematográfica estadunidense e parecer interessante para comunicólogos e afins, esse resgate memorialístico audiovisual é uma belíssima lição de vida sobre uma pessoa que lutou até os últimos instantes contra o câncer, doença responsável por mudar toda a sua rotina, bem como as suas características físicas.

Roger Ebert foi um dos mais respeitados críticos de cinema dos Estados Unidos. Começou a carreira no jornal Chicago Sun Times, em 1967, migrou para a televisão com o programa Sneak Previews e Siskel & Ebert at the Movies, sendo o segundo uma atração que permaneceu em exibição por 23 anos. As suas críticas tinham um efeito rizomático no campo do jornalismo: inicialmente eram publicadas no veículo oficial, para mais adiante surgirem republicadas em mais de 200 jornais dos Estados Unidos, além de outras localidades do planeta.

Ao passo que alimentava a sua paixão diária por cinema, Roger Ebert também escrevia livros, tendo publicado mais de quinze obras ao longo da sua vida. Em 1975, tornou-se o primeiro crítico de cinema a receber o Pulitzer, um dos mais cobiçados da cultura estadunidense. Junto a todo esse prestígio, houve ainda a concessão de uma estrela na Calçada da Fama, um prêmio geralmente direcionado para a constelação hollywoodiana.

Segundo alguns relatos, Roger Ebert era arrogante, adorava polêmicas e protagonizou uma série de “barracos” que foram ao ar durante debates cinematográficos bastante temperamentais em seus programas. Dono de um estilo de crítica que analisava os filmes através de códigos específicos (polegar para cima e para baixo), o modelo atual de crítica do jornalismo cultural, com bonequinhos e estrelinhas é, por sinal, tributário do estilo Roger Ebert de criticar. Diante do exposto, surge a indagação: o que há de fascinante e pertinente nesta cinebiografia?

Roger Ebert começou como crítico da coluna de esportes. Quando um crítico de cinema do Chicago Sun Times se aposentou, ele foi recrutado para ocupar o espaço, tornando-se um ícone da crítica, algo inesperado em sua carreira. Entre as celeumas que fazem parte da vida de todo cidadão, Ebert passou por uma tenebrosa fase envolvendo alcoolismo. Foram alguns amigos e a mão firme da crítica que o ajudaram na reabilitação.

Ao acompanhar os últimos meses de vida do crítico ao lado da família, o documentário nos apresenta um homem forte, que desde o diagnóstico de câncer lutou contra a doença e continuou erguido mesmo sem a possibilidade de se alimentar, beber e de falar. “Quando estou escrevendo, meus problemas se tornam invisíveis, e eu sou a mesma pessoa que sempre fui”, relata Ebert, por escrito, nos mostrando que o cinema e a crítica faziam parte de uma espécie de “terapia”.

A produção é fascinante por tocar nas cordas sensíveis da proximidade da morte e da necessidade de desapego em relação aos bens materiais. Ebert construiu um império material cinematográfico de livros e filmes em casa, além de um extenso patrimônio para o campo da crítica, mas precisou desapegar dessas coisas e continuar, como no clichê nosso de cada dia, “ a viver um dia após o outro, aguardando a morte eminente”. Mesmo com toda a riqueza e influência, bem como um currículo respeitado, Ebert sabia que o fim da sua caminhada estava próximo. A beleza disso tudo está na forma como o profissional encara a situação: através de filmes, críticas e recordações da sua longa trajetória.

Numa perspectiva formalista, a produção cumpre o básico da linguagem documental: trilha sonora discreta, planos mais fechados, sequência de fotografias que revelam o passado do crítico e um punhado de cenas bem selecionadas dos programas apresentados ao longo da sua incursão televisiva. Martin Scorsese e Werner Herzog surgem com relatos emocionantes, mas não chegam a tocar tanto quanto a dedicada esposa Chaz, uma mulher que passou os últimos dias dando o apoio necessário para Ebert. Como destaque, há algumas cenas envolvendo a sonda que as enfermeiras utilizam para alimentar o paciente: a câmera faz questão de capturar tudo em um primeiro plano híbrido, quase um close, nos transmitindo a inquietação do estado de saúde do crítico.

Dentre as principais polêmicas registradas nos instantes finais da sua atuação no terreno da crítica está a irrealidade e a perturbação do uso da tecnologia 3D. Na seara da atualidade, há uma informação valiosa para a reflexão da tarefa do crítico na contemporaneidade: mesmo sendo de vanguarda, Roger Ebert utilizou a internet como espaço para expansão dos seus textos. Críticos como Moniz Vianna, um dos mais respeitados profissionais brasileiros, odiava a esfera virtual e não achava o espaço um suporte interessante. Na contramão desse pensamento retrogrado, Ebert disponibilizou textos desde os primeiros anos de produção, em 1967, para fãs e interessados em cinema, e assim, tornou o seu blog um lar para o depósito de uma parte das memórias do pensamento crítico estadunidense.

O seu estilo era popular, mas não menos sofisticado. Apesar das críticas possuírem um perfil próximo ao que chamamos de guia de consumo, os textos de Ebert era diferenciados, pois ele conseguia analisar uma obra através do suporte semiótico, sociológico e adornava os seus textos com humor e irreverência. Não que isso seja um primor ou frescor para esse gênero discursivo, pois dos anos 1980 aos dias atuais, muitos jornalistas confundem a crítica com colunismo social e apresentam textos que precisam, mesmo que forçosamente, serem engraçados para atrair leitores, uma verdadeira praga para a reflexão cinematográfica engajada e preocupada com o status do cinema enquanto arte.

O criador (o crítico) e a criatura (a crítica) são colocados numa sessão de psicanálise audiovisual, e nós, como espectadores voyeurs, temos o privilégio de assistir a tudo. Produzido por Martin Scorsese, o documentário deixa de lado o dramalhão e a síndrome do “coitadinho” para expor, inclusive, depoimentos que relatam os defeitos do crítico, dentre eles, o jeito egoísta de resolver algumas questões, a competitividade que quase sempre atrapalhava as relações e a personalidade intempestiva típica de um “encastelado da cultura”, um homem cheio de si que se considerava a quintessência da crítica de cinema.

Life itself – A Vida de Roger Ebert está para os documentários assim como Cinema Paradiso e A Noite Americana estão para o cinema de “ficção”: relatos sobre personagens que dedicaram as suas vidas ao mundo do cinema. Ao longo dos seus 120 minutos, essa produção consegue emocionar e divertir e alcança amplo público pelo seu caráter não hermético, pois consegue entreter e informar, sem deixar o espectador entediado ou se sentindo diante de uma narrativa arquitetada (apenas) para críticos ou cinéfilos.

Roger Ebert – Life Itself (Life ItSelf, Estados Unidos – 2013)
Direção: Steve Jones
Roteiro: Steve Jones e Roger Ebert
Elenco: Chaz Ebert, Martin Scorsese, Roger Ebert, Werner Herzog, Paul Siskel, Pauline Kael, Steve Jones.
Duração: 120 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.