Crítica | Life on Mars (Série Britânica Completa)

estrelas 5,0

O artifício da “viagem no tempo” é um dos mais populares da ficção científica, gerando magníficas obras do gênero, como os inesquecíveis De Volta para o Futuro (a trilogia), O Exterminador do Futuro e sua primeira continuaçãoJornada nas Estrelas IV (além de Primeiro Contato) e Looper. Na televisão, um grande exemplo recente é Continnum que tem no artifício sua mola mestra, além da mais antiga (e cancelada) Odyssey 5, mas há literalmente dezenas de outras que trabalharam o assunto.

É bem mais raro, no entanto, ver “viagem no tempo” como base para a ação em material que não pode ser efetivamente chamado de ficção científica. Sim, em tese qualquer obra com esse elemento fictício pode ser chamada de ficção científica, mas esse rótulo não é exato quando aplicado em obras recentes como Questão de Tempo, no clássico oitentista Em Algum Lugar do Passado e na série Outlander. O mesmo vale para Life on Mars, série britânica da BBC composta de apenas duas curtas temporadas de oito episódios cada, que foi ao ar em 2006 e 2007, que conta com a “viagem no tempo” como elemento fundamental em sua estrutura sem, porém, sequer parecer – nem de longe! – uma ficção científica.

Na verdade, a série criada por Matthew Graham, Tony Jordan e Ashley Pharoah foge dessa rotulação logo na narração de abertura de todos os episódios, com John Simm, no papel do policial Sam Tyler (cujo sobrenome foi escolhido pela filha de Graham, em razão de Rose Tyler, a primeira companion do Doutor na Série Nova de Doctor Who), resumindo a história:

“Meu nome é Sam Tyler. Eu tive um acidente e acordei em 1973. Estou louco, em coma ou voltei no tempo? O que quer que tenha acontecido, parece que eu pousei em outro planeta. Agora, talvez se eu descobrir a razão, eu possa voltar para casa.”

Em outras palavras, a própria e de certa forma fácil explicação baseada em “viagem no tempo” é colocada em xeque e misturada com outras possíveis saídas: loucura, coma ou alguma outra coisa? Mas a questão mesmo que os showrunners levantam é: é mesmo necessária uma explicação? Não seria suficiente simplesmente aceitarmos a premissa e aproveitarmos a viagem de Sam Tyler no passado? E a resposta é um retumbante sim!

Vemos um homem claramente perturbado, tentando entender a mecânica da polícia de Manchester 33 anos antes de seu tempo. E, com seu envolvimento com a delegacia e com o irascível chefe Gene Hunt (Philip Glenister), o espectador passa a compartilhar de sua exasperante experiência em um mundo completamente diferente do que conhecemos, mesmo que por intermédio de filmes e séries de TV. Para começar, não existe nada semelhante ao trabalho técnico de campo que vemos em série como C.S.I. Alguém morreu? Algumas fotos são tiradas e o corpo é logo removido para o necrotério para autópsia. Não há análise do local da morte. Alguém testemunhou um crime e precisa identificar os culpados naquela “galeria” de pessoas com vidro espelhado? Esquece. Não existia esse vidro com esse fim. Interrogatórios? É na base do “bater primeiro e perguntar depois”, com toda a investigação partindo da conclusão para provas que se encaixam nela, com o descarte das outras.

E as pessoas em si? Novamente, é um outro mundo, um mundo preconceituoso ao extremo, em que o politicamente correto não existia e a série desnuda isso sem papas na língua. Gene Hunt, chefe da equipe de investigadores da qual Sam é o segundo em comando depois de uma transferência de Hyde (é assim que ele “acorda” no passado, já com essa identidade e história), é um brutamontes bêbado e fumante que não hesita em xingar negros, imigrantes e falar com desdém das mulheres, além de ter uma relação no mínimo duvidosa com criminosos locais. É uma espécie de encarnação do Preconceito, esse com “p” maiúsculo mesmo. Os militantes do politicamente correto que não souberem olhar além desse ponto e entender os comentários sociais que os showrunners imprimiram na série, provavelmente ficarão horrorizados a cada frase maravilhosamente falada (gritada, na verdade) por Philip Glenister, compondo um personagem que odiamos, mas que ao mesmo tempo não conseguimos deixar de amar. Sim, pois o ator consegue dar um ar bonachão a seu Gene Hunt a tal ponto de ser agradável, especialmente quando visualmente ele é ainda “composto” de seu sobretudo marrom e de seu Ford Granada da mesma cor, que ele dirige como um louco pelas ruas da cidade.

Vemos em Gene Hunt, assim como nos “métodos policiais” neandertais da época aquilo que detestamos e os showrunners trabalham esses aspectos para mostrar-nos como éramos há tão pouco tempo e, possivelmente como ainda somos, mas nos recusamos a aceitar. Sam é justamente o espectador tentando se ajustar a essa realidade e John Simm é o perfeito contraste a Glenister: um cavalheiro despido de preconceitos e tentando ser o melhor policial que sabe ser diante das circunstâncias. Sam e Gene, assim, criam entre si a mesma relação que nós criamos em relação a Gene, algo incerto, hesitante e que mistura amor e ódio.

Além disso, a série acrescenta elementos que poderiam ser chamados de “sobrenaturais”, como as vozes que Sam ouve – normalmente relacionadas com o possível coma em que se encontra em 2006 – e especialmente a assustadora menina do Test Card F (imagem criada pelo BBC e transmitada por mais de 40 anos quando não havia programa no ar – lembram-se da época em que a televisão “acabava”?), que aparece em carne e osso para ele. Mas esses elementos, apesar de constantes, são utilizados de forma parcimoniosa e inteligente, agregando uma camada de insanidade que nos faz duvidar de Sam e que nos remete à pergunta da narração de abertura de traduzi acima.

Considerando o nome da série, diria que é redundante dizer o quão importante é a música para sua construção narrativa. “Life on Mars?”, música que inspirou o título, é, claro, de David Bowie, lançada em seu álbum Hunky Dory, de 1971. Caracteristicamente surreal, mas estranhamente abordando em parte o que vemos na tela

Take a look at the lawman
Beating up the wrong guy
Oh man! Wonder if he’ll ever know
He’s in the best selling show
Is there life on Mars?

a canção de Bowie pode ser vista como uma discreta forma de introduzir uma meta-história auto-consciente de Sam Tyler (“He’s in the best selling show“) e, também, serve como porta de entrada para um magnífica compilação musical setentista, contendo canções de Deep Purple, The Who, Uriah Heep, Pink Floyd, Jethro Tull, The Rolling Stones, Thin Lizzy, Elton John, Tom Waits e de uma enorme e significativa lista de artistas que viram seu cume criativo na época e cujas canções são usadas na estrutura da narrativa às vezes como comentário do que estamos vendo, outras como alegorias. Ver Life on Mars é, também, escutar Life on Mars, além de mergulhar em um sem-número de referências musicais, cinematográficas e televisivas da época.

A dinâmica da série é a de “caso da semana”, mas, com apenas 16 episódios no total, isso não atrapalha nem um pouco o desenvolvimento, com cada episódio servindo para aprofundar a relação entre Sam e Gene e também entre Sam e Annie Cartwright (Liz White), policial da equipe. Há uma linha narrativa maior e fechada em cada temporada como uma segunda camada para os “casos da semana” e, em um terceiro nível, como a cola que aglutina toda a história, do primeiro ao 16º episódio, há a solução do mistério sobre Sam Tyler. Em todos esses três níveis, a fluidez narrativa é constante, clara em seu objetivo de nos deixar na dúvida e bem resolvida (e não falo aqui da revelação final, que possivelmente dividirá os espectadores, apenas do caminho até lá).

Life on Mars é uma série que em sua enganosa simplicidade agradará a fãs de ficção científica e de tramas policiais igualmente e surpreenderá com as atuações da dupla principal que remontam à estrutura tão comum dos buddy cops sem descambar para o óbvio. Uma pequena joia da BBC que merece a atenção de todos (e que foi refilmada com Harvey Keitel nos EUA e que ganhou uma “continuação” no Reino Unido, Ashes to Ashes).

Uma palavrinha sobre o final – SEGUEM SPOILERS

A pergunta que Sam Tyler faz na abertura de cada episódio – “estou louco, em coma ou voltei no tempo?” – é finalmente respondida no 16º e último episódio. Mas a verdadeira pergunta é: a resposta satisfaz?

Confesso que, pelo fato de a série manter uma interessantíssima dubiedade ao longo de toda a narrativa, realmente fazendo os espectadores duvidarem da sanidade de Sam, ao mesmo tempo que dando a entender que ele está mesmo em coma em 2006 e que tudo que vive em 1973 é um sonho ou delírio, preferiria que não houvesse uma resposta tão definitiva. Teria gostado mais de um final completamente aberto e que gerasse dúvidas e discussões. Por exemplo, quando Sam percebe que está deslocado em 2006 e que seu lugar é mesmo no passado, ele decide se suicidar para voltar para seus amigos. A série poderia ter acabado com a tela preta logo depois de ele pular do prédio, sem que precisássemos vê-lo salvando Gene, Annie e os demais no túnel do trem.

Do jeito que ficou, com uma clara definição que Sam estava mesmo em coma em 2006, senti que os showrunners não quiseram arriscar, não quiseram gerar discussões e, talvez, reclamações dos fãs. Havia a necessidade de um fechamento e até entendo essa questão, mas Life on Mars, apesar de tematicamente muito distante, está filosoficamente muito mais próximo de Twin Peaks do que de Arquivo X e seria desejável um final no mínimo carregado de ambiguidade.

Mas então como você deu cinco estrelas, alguns perguntarão. Bem, a resposta é muito simples e está no texto da crítica, além de ser um clichê: a jornada, nesse caso, é muito, mas muito mais importante do que a revelação. Life on Mars não é seu final, como muitos filmes e séries que vivem da reviravolta barata. Life on Mars é construção de personagens e crítica social. O caminho de Sam Tyler não é simples e nem gratuito. Muito ao contrário, na verdade. Quando a jornada é irretocável, se o final for menos do que isso por razões que possivelmente fugiram do controle completo dos showrunners, ainda que longe de ser ruim, porque não laurear a impressão de conjunto que fica quando a menina do Test Card F quebra a quarta parede para encerrar a série?

Life on Mars – Série Britânica Completa (Reino Unido, 2006-2007)
Criadores/showrunners: Matthew Graham, Tony Jordan, Ashley Pharoah
Direção: vários
Roteiro: vários
Elenco: John Simm, Philip Glenister, Liz White, Dean Andrews, Noreen Kershaw, Marshall Lancaster, Tony Marshall, Rafaella Hutchinson, Harriet Rogers, Archie Panjabi, Ralph Brown
Duração: 60 minutos (por episódio: oito episódios em cada uma das duas temporadas)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.