Crítica | Liga da Justiça América & Europa: Ódio

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Ódio é o título-umbrella e não-oficial (como a maioria dos títulos de arco da “fase cômica” da Liga da Justiça) que abrange um momento de mudanças nos dois principais ramos da equipe naquele momento: o americano e o europeu. Dentro desse pacote, temos duas edições da revista Liga da Justiça Europa Vol.1 (sobre as quais falarei neste bloco da crítica), o primeiro anual da mesma revista, uma edição especial da Liga Internacional e o bojo do arco, as edições da Liga da Justiça América. Como os diversos títulos de grupos heroicos com a tag “Liga” (ou algo parecido) se tornaram uma febre nos anos 90 — muito por conta do sucesso da abordagem cômica de Keith Giffen e J.M. DeMatteis –, é muito comum que os arcos desta fase tragam em sua constituição títulos com formações diferentes dos times, já que havia uma conexão entre os acontecimentos de uma para outra revista e os personagens do “escritório principal” viviam fazendo participação nos outros títulos.

Nessas duas edições da LJE temos os antecedentes de uma tragédia anunciada. São duas revistas que pavimentam o contexto meio trágico e meio atrapalhado envolvendo a Liga na França e em que pé estavam as relações entre eles neste momento, algo muito importante para os acontecimentos posteriores. Chamadas aqui no Brasil de Eu Acho que vi um Gatinho II: A missão (Furballs II) e A Vida Imita o Cinema (You Oughtta Be In Pictures) essas duas revistas são genuinamente engraçadas, a primeira muito mais que a segunda, e lançam uma importante semente, a partir do Capitão Átomo, que posteriormente deverá se revelar um problema, quando as separações começarem a acontecer.

Na primeira edição, o roteiro faz uma aplaudível brincadeira com um assalto à Base (então em reforma) da Liga na França, um roubo do Sr. Jean-Jean De Jean que passa batido pelos heróis, ocupados com uma apresentação do QG para um grupo de crianças, mas não pelo gato da Poderosa, que aparece ali e revira quase tudo de pernas pro ar. É o tipo de edição que nos faz rir do começo ao fim, com o texto funcionando com piadas no momento certo e a arte capturando bem os momentos de ação em contraste com as interações mais sérias, como as do Capitão Átomo com o Caçador de Marte ou a briguinha entre o chefe daquela divisão e Sue Dibny, que deixa o seu posto de monitoramento para acompanhar o tour das crianças. Eu ainda tenho alguns problemas com a diagramação das revistas da Liga Europa, mas mesmo com um ritmo cheio de complicações, não é nada que impeça que a leitura seja divertida.

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A visita de um grupo de crianças ao QG (em reforma!) da Liga da Justiça Europa. O que poderia dar errado, não é mesmo?

A segunda edição é menos engraçada e a comédia menos física. Mas há um sabor todo especial nela, porque coloca Kara, Wally, Sue e Ralph Dibny em visita ao Festival de Cannes, em uma história que aborda o cinema como meio narrativo, com referências a …E o Vento Levou, Godzilla, Manhattan, Zelig, O Massacre da Serra Elétrica, Indiana Jones e por aí vai. O passeio serve apenas como um passa-tempo, uma visão fora do ambiente comum da revista e algo mais casual por parte dos heróis. Mesmo que exista uma ameaça, não é nada absurdo e incontrolável, até porque o vilão aqui não é, necessariamente, alguém mau. Uma das coisas boas dessa edição é o retorno da piada “UM SOCO!”, referindo-se a um dos melhores momentos cômicos dos quadrinhos dos anos 90, quando Batman nocauteia Guy Gardner em Um Novo Começo. Embora tenha gostado bastante da edição #14, percebo que ela está consideravelmente desligada dos eventos centrais envolvendo a Liga naquele momento, por isso vejo o roteiro um pouco descompromissado com a organicidade, o que não tira dele a capacidade de, mais uma vez, nos fazer rir em uma boa e não-ambiciosa história de super-heróis.

Hate
Justice League Europe Vol.1 #13 e 14 (EUA, abril e maio de 1990)
No Brasil:
Editora Abril, 1992
Roteiro: Keith Giffen, J.M. DeMatteis, Gerard Jones
Arte: Chris Sprouse, Linda Medley
Arte-final: Keith Wilson, José Marzan Jr.
Cores: Gene D’Angelo
Letras: Bob Lappan, Albert DeGuzman
Capas: Bart Sears
Editoria: Andrew Helfer, Kevin Dooley
24 páginas (cada edição)

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Bialya Blues

Justice League Europe — Annual #1

Esta edição é bastante estranha. Ela faz uma passagem rápida entre eventos de equipes como os Guardiões Globais (modificados e controlados pela Queen Bee), a Liga da Justiça da Europa (em sua embaixada em Paris) + cameos da Liga América (EUA) e Internacional (com suas bases no Japão e na Austrália). Eles estão lá para “recuperar” os antigos membros do time, Sol Nascente, Tuatara e Olimpiano. Coincidentemente, esses três acordam de seus comas e escapam. Não contente em trabalhar com diversas coincidências, o texto ainda nos traz um robô baseado em tecnologia dos Dominators para atacar a Embaixada da LJE, o que dá a abertura para uma união inesperada entre heróis e a colocação em andamento de um plano que não se finaliza nessa edição, mas prepara o ambiente para algo a mais no futuro.

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Confesso que preferiria uma aventura de caráter mais contido, não necessariamente a origem do ódio que o título do arco-umbrella nos traz. Vindo da Queen Bee, no entanto, é de se esperar qualquer coisa. Nesse Anual, porém, o texto é absurdamente verborrágico no início e não da forma como a gente gosta de ver muito texto em quadrinho: a maioria das conversas estão em cenas com personagens onde não existe conexão alguma com o leitor, o que torna a leitura muitíssimo arrastada. Pena que é uma edição que não dá para pular, porque tem muitas coisas importantes para o futuro das equipes envolvidas.

Justice League Europe Annual Vol.1 #1 (EUA, novembro de 1990)
Roteiro: Keith Giffen, J.M. DeMatteis
Arte: Linda Medley
Arte-final: José Marzan Jr.
Cores: Gene D’Angelo
Letras: Albert DeGuzman
Editoria: Andrew Helfer
Capa: Linda Medley, José Marzan Jr.
50 páginas

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The Show Must Go On…and on…and on…and on…

Justice League International Special #1

Aqui estamos diante de algo muito mais interessante e muito mais divertido do que o que tivemos na narrativa de Bialya Blues, sem todos aqueles discursos chatos e intermináveis que não levavam a lugar nenhum. Ao contrário. Este Especial tem uma narrativa sólida, ágil e que elenca personagens com os quais o leitor se importa e tem interesse de ver o seu desenvolvimento na saga. O plot, como não poderia deixar de ser, traz toda a sorte de trapalhadas envolvendo a Liga da Justiça Internacional (versões americana e europeia), colocando em cena Manga Khan e seu hilário robozinho-lacaio L-Ron, lá de Compre… ou Morra, além do empresário Funky Flashman, que está organizando a turnê do Senhor Milagre pelo país. Não é novidade, a esta altura do campeonato, que membros da Liga sigam carreiras ou atividades paralelas, vide o que tivemos, até aqui, de Besouro Azul e Gladiador Dourado (a memória dos terríveis eventos de Clube LJI ainda assombram os dois, no “pagamento de dívidas” que eles precisam fazer, postos na “casinha do cachorro” do time).

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O curioso é que no roteiro de Keith Giffen e Len Wein a ameaça aparece de maneira simples, e o melhor de tudo é que não se trata, exatamente, de uma ameaça. Por mais críticas que uma parcela de nós, leitores, tenhamos em relação à Era de “Liga Cômica”, uma coisa é certa: os autores podiam se dar a liberdade de contar uma história, uma crônica meio boba, engraçada, que servisse para passar o tempo e ainda assim, seguisse estruturando bem eventos para o arco ou série em questão. Como consequências desses acontecimentos, temos a ida de Scott Free para o Espaço, para uma turnê intergalática, e a sua substituição por um robô na Liga. Sem se esforçar muito, os roteiristas conseguiram inserir um importante ingrediente para o desenvolvimento de algo que culmina nas edições #37 a 40 da Liga América.

Justice League International Special Vol.1 #1 (EUA, 1990)
Roteiro: Keith Giffen, Len Wein
Arte: Joe Phillips
Arte-final: Bruce D. Patterson
Cores: Gene D’Angelo
Letras: John Costanza
Capa: Joe Phillips, Bruce D. Patterson
Editoria: Andrew Helfer, Kevin Dooley
40 páginas

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Ódio

Se o leitor chega para ler o arco Ódio após passar pelo Especial The Show Must Go On…, certamente terá um pouquinho de “resistência” em relação aos efeitos que o resultado principal da disputa contra Despero causa na Liga da Justiça América, algo que afeta todos os outros ramos da equipe ao redor do mundo. Um ponto fixo inicial é o comportamento cada vez mais estranho de Scott Free, algo inexplicável para seus amigos, mas já conhecido pelo leitor que conferiu o Especial, funcionando, portanto, como um flerte metalinguístico e, em certa medida, como uma diminuição ou até questionamento do luto aplicado ao robô do Senhor Milagre. Não é nada absurdamente grave, mas o incômodo existe. Vendo pelo lado positivo, porém, a tal morte colocou em andamento mudanças que a Liga precisava já há algum tempo, e que Max Lord — agindo de maneira verdadeiramente humana aqui — assume como prioridade, após uma longa conversa com Batman, sendo este influenciado por uma conversa um tanto hostil (por parte do Morcego, claro) com o Superman.

A chegada de Despero à Terra e o que ele pretende fazer se encaixa bem com o tipo de narrativa que esta Liga cômica vinha tendo até o momento. Particularmente, gostaria que o tom mais bem pesado adotado em The Show Must Go On… aparecesse aqui, mas sem Len Wein para dar o tempero adicional, não foi possível. De todo modo, Giffen e DeMatteis conseguiram entregar um forte elemento dramático, o que para desavisados pode parecer entranho: “mas não era a Liga cômica?“. Pois é. O efeito desse tipo de abordagem mais cruel e um tanto inesperada acaba tendo um ótimo resultado na saga, e não é de se espantar que, mesmo falando de uma morte fake do Senhor Milagre, podemos dizer que os ajustes que ela causou só foram adiantados. Mais dia menos dia, eles iriam acontecer.

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A vinda de Despero.

O enfrentamento do vilão com o Caçador de Marte, as ações individuais de Fogo e Gelo e até mesmo o papel de Guy Gardner chamam a nossa atenção. Também gosto da presença de Cigana (Cynthia “Cindy” Reynolds) nessa aventura e de como sua dor se torna um caminho de passagem para os dissabores da Liga, mesmo que consideremos o truque mental de J’onn. Uma diagramação de páginas mais bem pensada nas edições iniciais faria bem ao equilíbrio de ritmo do arco, embora esse não seja um problema colossal aqui, especialmente porque nossa atenção está bastante focada na dinâmica disfuncional dos heróis contra um de seus principais inimigos, desde que se reuniram nesta nova Era. Agora as peças do jogo foram definitivamente movimentadas para mudanças de peso. O puro ódio de um vilão forçando os mocinhos a se organizarem melhor. Quem diria…

Hate
Justice League America Vol.1 #37 a 40 (EUA, abril a julho de 1990)
Roteiro: Keith Giffen, J.M. DeMatteis
Arte: Adam Hughes
Arte-final: Art Nichols, Joe Rubinstein
Cores: Gene D’Angelo
Letras: Albert DeGuzman, Bob Lappan
Capas: Adam Hughes
Editoria: Kevin Dooley, Andrew Helfer
24 páginas (cada edição)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.