Crítica | LJA: Sonhos Americanos

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Depois do interessante início da série LJA Vol.1, com o arco Nova Ordem Mundial, o roteirista Grant Morrison colocou a a Liga da Justiça para enfrentar as “acusações” de clubismo que andou recebendo, quase forçando os Sete Grandes a fazerem um processo de seleção que ocupa toda a primeira revista desse arco (edição #5, Woman of Tomorrow), onde temos citação, breve aparição ou entrevistas de durações diferentes com Ártemis de Bana-Mighdall, Aztek, Detonador, Hitman, Max Mercúrio, Homem-Borracha e mais alguns outros que não agradam ou não conseguem o ingresso no time nesse momento. Até que chega a Mulher do Amanhã (Clara Kendall) e junto com ela, o primeiro problema da Liga neste segundo degrau de sua longa jornada nos anos 90.

Enquanto a edição #5 funciona como um conto separado, discutindo brevemente elementos de inteligência artificial e colocando em cena o Professor Ivo (criador de Amazo em O Caso do Roubo dos Superpoderes) e Thomas Oscar “T.O.” Morrow ou, em bom português, F.U. Turo (criador do segundo Tornado Vermelho), as edições seguintes se dividem em dois momentos de duas revistas cada um, mostrando eventos mais ou menos ligados à inclusão de novos membros e também ao irônico título do arco, Sonhos Americanos, onde o autor opõe a realidade constantemente marcada por ameaças de ordem humana, tecnológica ou espiritual frente ao ideal de “tudo vai dar certo e prosperar“, que parece risível nessas condições.

Nas edições #6 e 7 (Fogo no Céu e Paraíso na Terra, respectivamente), temos a volta dos demônios Ghast e Abnegazar, do Trio Demoníaco (Os Dedos Fantásticos de Félix Fausto), do anjo caído Neron e a aparição de novos personagens alados, uma pirraça de Morrison com a DC Comics que não permitiu o uso do Gavião Negro nessa história e o autor cismara que queria personagens com asas nessas páginas. Ele então criou uma série de anjos já com uma interessantíssima hierarquia, breve história e propósito. Entre problemas no mar, na superfície e na Lua (leia-se na Torre de Vigilância, que voltaria a ser o centro de alguns problemas nos “sonhos americanos” seguintes), vemos os anjos da Pax Dei aparecerem em guerra, o que é uma grande ironia. Criados por Deus (A Presença, no Universo DC), a Pax Dei foi um grupo de Anfitriões Celestiais cujo objetivo era… adivinhem… manter a Paz de Deus no Universo. Formado por hospedeiros chamados Águia, Touro (Asmodel), Ser Humano (Zauriel) e Leão, esse grupo de seres divinos chega à Terra já oferecendo uma ameaça nível 12,  numa escala de 10.

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Imaginem a cara de Mike Carlin, Editor Executivo da DC na época, vendo todos esses alados de Morrison, criados só para substituir o Gavião Negro na história.

Diminuindo um pouco o impacto do enredo pela desconexão das histórias — a grande pedra no sapato de todo este arco, mesmo que o leitor tenha a boa vontade de interpretar o título como indicação metafórica, simbólica ou até crítica para as tramas individuais –, o texto leva a sério a batalha ao lado de Zauriel, que se recusa a entrar na Liga, contra o extremamente poderoso Asmodel, destacando o valor de cada um dos heróis em cena e dando ótimas noções de como o trabalho em equipe deles melhorou em pouco tempo desde que se juntaram pela primeira vez em Pesadelos de Uma Noite de Verão. Infelizmente Howard PorterJohn Dell se afastam do arco neste bloco. Os desenhos do primeiro e a finalização do segundo fornecem uma identidade épica a essas primeiras histórias, especialmente pela noção precisa de ângulos e pelo engrandecimento dos personagens, seja em quadros solo, seja em conjunto.

O arco termia com as edições #8 e 9 (Histórias Imaginárias e Túnel do Tempo, respectivamente), que em termos de roteiro tem ação mais relevante, acenando levemente para uma ideia de ciclo, onde vemos a intenção inicial da equipe se concretizar com a adição do Arqueiro Verde (Connor Hawke) à equipe, depois de uma luta contra o Chave — que só funciona de verdade nesse embate versus o jovem atirador de flechas. Isso porque toda a parte dos sonhos criados pelo vilão para os outros membros da Liga não é nada empolgante, terminando de maneira anticlimática, destoando completamente do restante do bloco — e uma finalização-gancho para o arco seguinte, com a aparição da “Revenge Squad”, que sabemos ser a segunda Gangue da Injustiça disfarçada.

Funcionando mais como uma preparação de terreno para coisas maiores, Sonhos Americanos vai empolgando aos poucos e, mesmo que não traga o enredo no nível de grandes acontecimentos à nível Grant Morrison, consegue ótimos resultados simbólicos com os anjos e um ótimo resultado em cenas de ação na entrada do novo Arqueiro. Um bom conjunto de sonhos que, como muita coisa na América, é um verdadeiro pesadelo.

Liga da Justiça da América: Sonhos Americanos (JLA: American Dreams #5 – 9) — EUA, 1997
No Brasil: 
Liga da Justiça Por Grant Morrison n°1 (Panini, 2008)
Roteiro: Grant Morrison
Arte: Howard Porter (#5 a 7), Oscar Jimenez (#8 e 9)
Arte-final: John Dell (#5 a 7), Ken Branch (#7), Chip Wallace (#8 e 9), Hanibal Rodriguez (#9)
Cores: Pat Garrahy, Heroic Age
Letras: Ken Lopez
Capas: Howard Porter, John Dell, Liquid!
Editoria: Ruben Diaz
24 páginas (cada edição)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.