Crítica | Liga da Justiça Europa: Alguém Lá em Cima nos Odeia (1989)

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estrelas 3,5

Liga da Justiça Europa foi um braço da Liga da Justiça Internacional, criada na LJI #24, em um momento de reorganização das forças heroicas estabelecidas em Nova York em confronto com a necessidade de se ter mais heróis espalhados pelo mundo, a fim de darem conta de problemas locais e impedirem que coisas inicialmente simples se tornassem grandes impasses diplomáticos ou problemas bem maiores do que deveriam. Em abril de 1989, sob comando de J.M. DeMatteis e Keith Giffen (os mesmos que na época roteirizavam as revistas da Liga Internacional), a LJE ganhou sua revista solo, que seria publicada até a edição #50 (maio de 1993).

Para um leitor que não tenha lido ao menos uma história da Liga Internacional, será um pouco difícil encontrar graça ou pegar a essência das piadas e impasses de organização desse ramo heroico com sede em Paris. Os autores criaram uma série que funciona apenas parcialmente independente e isso tem um lado positivo (já que flerta com os leitores que estão familiarizados com o que veio antes) e um grande lado negativo, que é o afastamento parcial do público que está conhecendo o grupo agora ou dos que não se lembram exatamente do que aconteceu antes.

Mas essa dependência do passado só será realmente sentida nas edições #3 (Another Fine Mess!) e #4 (Bialya Burning!), quando a Liga Europa enfrenta o seu verdadeiro primeiro inimigo: a Abelha Rainha, chefe da nação de Bialya que faz nesta aventura a sua primeira aparição completa, não apenas um cameo. No início, porém, o leitor se diverte com o pessimismo do Capitão Átomo — chefe do grupo –, sempre esperando um desastre acontecer e totalmente sem jeito para lidar com os colegas heróis. É até um pouco difícil se conectar com o grupo nas primeiras páginas. Falta a simpatia que sobra nos ótimos Besouro Azul e Gladiador Dourado da Liga Internacional, e nenhum personagem chega perto da diversão e proximidade com o leitor como esses dois. Aos poucos, porém, o texto nos deixa confortáveis com a estranheza do grupo e passamos aproveitar não só o “exotismo” de vermos trabalhando juntos heróis tão aleatórios como Homem Animal, Capitão Átomo, Homem-Elástico, Flash (Wally West), Metamorfo, Poderosa, Soviete Supremo e, apenas como participação de luxo, a Mulher-Maravilha… mas também sentimos certa simpatia por alguns deles, dentro de suas bizarrices.

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Divisão de tarefas na investigação do primeiro caso da Liga da Justiça Europa.

Se olharmos de maneira mais contextualizadora para essa história, notaremos alguns impasses (ainda persistentes na sociedade europeia) em relação aos heróis, corretamente criticados por darem o nome europeu a um grupo sem um único herói europeu, enxovalhados pelo público e pela imprensa como imigrantes (denominados “aqueles que trazem a desordem e os problemas, aqueles que precisam deixar o país, pois estão “tomando o lugar de direito dos heróis da nação e do continente“), discursos que podem ser vistos não só na Europa contemporânea mas em qualquer frase imbecilizante com conteúdo segregador e xenófobo de nossos dias.

Não é de se espantar que viesse a tiracolo elementos de fascismo e neonazismo expostos literalmente no roteiro. Embora parte de uma acusação injusta e vilanesca capitaneada por Queen Bee e levada a cabo por seu peão, Jack O’Lantern, essa má recepção da Liga em Paris ganhará força e será o drama central do arco, resolvido com um acordo diplomático inesperado, mais uma vez provando a sensibilidade política que periodicamente DeMatteis e Giffen imprimiam em seus roteiros. O acordo entre a Liga e Queen Bee pode ser mal visto por muitas pessoas justamente pela maneira como os próprios quadrinhos ajudaram a polarizar as forças do bem versus o mal, obrigando que sempre deve haver uma vencedora e que a vingança da derrota deverá ser preparada e acontecer pouco tempo depois. Aqui, este caminhar fora da cartilha de resoluções está bem mais próximo do nosso mundo, onde nações e organizações PRECISAM aceitar alguns acordos para se manterem, pelo menos por um período, livres de maiores problemas.

As edições finais colocam o Metamorfo em evidência, fazendo com que ele recobre a memória (mais um afetado pela bomba genética de Invasão!) e receba a hilária visita da esposa; colocam os heróis para uma aula de francês com uma professora “à moda antiga” e marcam o definitivo território cômico desse grupo de heróis. Assim como em toda organização, temos alguns comportamentos questionáveis e desnecessários (Wally West é o indesejável aqui) e os heróis que são escanteados pelo roteiro, marcando pontos negativos no contexto geral da história (Soviete Supremo é quem mais sofre com isso, tendo atenção do texto apenas no começo do arco). Todavia, os autores conseguem um resultado final bastante positivo na apresentação da nova equipe, não deixando de lado o elemento cômico que lhes é característico, mas aqui, com os pés sempre banhados por coisas sérias, desde conflitos entre os heróis, passando pela dificuldade do Capitão Átomo em se estabelecer como líder e chegando a uma certa crise de autoestima do próprio grupo.

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Heróis aprendendo francês com uma professora casca grossa.

Incomum e engraçada à sua maneira, cheia de referências à cultura pop e mundo nerd e, para os mais exigentes, com muitas indicações geopolíticas de final dos anos 80 disfarçadas de humor situacional (o que é sempre bom de se ver em um roteiro com esse grupo e nesse tipo de cenário) a Liga da Justiça Europa é uma organização exótica que sempre chama a atenção de quem gosta de pinceladas diferentes no meio dos quadrinhos mainstream. Aqui, isso está elevado a um nível bem alto. Tem seus tropeços mas, sem sombra de dúvida, vale muito a pena ler.

Liga da Justiça Europa #1 a 6 (Justice League Europe: Somebody Up There Hates Us!) — EUA, abril a setembro de 1989
Roteiro: J.M. DeMatteis, Keith Giffen
Arte: Bart Sears (todas), Keith Giffen (#4)
Arte-final: Pablo Marcos (#1 a 4 e 6), Joe Rubinstein (#5)
Cores: Gene D’Angelo
Letras: Bob Lappan (#1 e 2), Albert DeGuzman (#3 a 5)
Capas: Bart Sears, Joe Rubinstein
Editoria: Kevin Dooley, Andrew Helfer
24 páginas (cada edição)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.