Crítica | Liga da Justiça Internacional: Compre… ou Morra (1988 – 1989)

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estrelas 3,5

Depois do ridículo arco Quem é Maxwell Lord?, a dupla de engraçadinhos Keith Giffen e J.M. DeMatteis conseguiram encontrar um caminho bem mais interessante para escalar os heróis da Liga da Justiça Internacional. Com uma premissa inesperada — alguns até podem ver aqui uma crítica ao consumismo, mas eu acho que a intenção dos autores era mesmo fazer graça com um vilão comerciante — e diferentes frentes de luta (bem desenvolvidas a maior parte do tempo), chegamos, depois de 14 edições da Nova Liga, a uma história que realmente vale a pena. Uma história onde os erros incomodam menos e é possível se divertir e rir muito mais.

Logo no início vemos o roteiro se destacar pela apresentação orgânica de um problema para a LJI, desta vez, representado pelo Lord Manga Khan, um mercador intergalático com poderes telepáticos e capacidade de mudar seu estado de matéria para gasoso (!), que dá um ultimato de comércio à Terra, colocando novamente as nações em conflito, discutindo se deveriam ou não aceitar a proposta. Em paralelo, ocorre a adição de mais duas heroínas na Liga, ambas do decadente Guardiões Globais: a brasileira Beatriz Bonilla da Costa (cujo nome heroico mudou através das edições, de Flama Verde/Fúria Verde para Fogo) e a norueguesa Tora Olafsdotter (que mudou de Dama de Gelo para Gelo), uma dupla nos chama atenção pela amizade e pela dicotomia vista na parte emotiva, aliada aos elementos que cada uma manipula.

G’Nort, que apareceu no arco passado, surge aqui com um tipo crescente de importância, algo que o destacaria na Liga, caindo rapidamente nas graças do público pelo seu tipo pateta (e confesso que não desgosto dele, embora o roteiro exagere aqui e ali em suas trapalhadas e estupidez). Os ânimos se agitam na batalha contra as tropas comerciais de Manga Khan, um dos pontos altos dessa versão da Liga desde a estreia, em Um Novo Começo. Pela primeira vez, o texto de Giffen e DeMatteis consegue criar uma sequência fluída de eventos em dois lugares e este acerto veio em um momento difícil, com uma parte do grupo no espaço (Caçador de Marte, Soviete Supremo e Capitão Átomo mais a surpresa de G’Nort, que aparece do nada para ajudar) e outra parte lutando na Austrália (Gladiador Dourado, Besouro Azul, Senhor Milagre, Fogo e Gelo — as duas últimas tendo que provar para os homens que são úteis e capazes de fazer parte da Liga).

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Belíssimo painel do Cluster, o QG de comércio intergalático de Lord Manga Khan.

Ao longos das edições, esse tipo de discussão social volta a aparecer no meio dos eventos grandiosos e do humor que marcou esta era da Liga da Justiça. Vemos um ou outro herói ser acusado de sexismo; vemos uma boa reflexão sobre a guerra, no crossover (este sim, representado de maneira orgânica!) com a saga Invasão! e um interessantíssimo conflito de gerações, com a adição do Gavião Negro à equipe. Sua relação com os jovens, suas lembranças do passado, a impaciência do Batman, que volta bem representado, após os autores estragarem completamente com ele no último arco… todos esses pequenos detalhes vão tornando a história mais interessante e divertida, tanto que aceitamos passar por cima da intragável presença de Maxwell Lord (ainda não entendo como este homem tem acesso, relação e poder sobre o grupo) e o desaparecimento de alguns personagens, mais a tentativa dos escritores em remendar isso, como no caso da Canário Negro.

Nessa esteira, não dá para deixar passar a péssima explicação do “desaparecimento” de Guy Gardner na edição #15, seu contato com Batman e a abruta ação em elipse que empurra o Morcegão e alguns membros da Liga para investigar o ditador Rumaan Harjavti, da nação de Bialya (esta parte da saga se passa logo depois do péssimo e deplorável Anual #2, cuja crítica vocês podem ver logo abaixo). De todo modo, é interessante ver os heróis disfarçados, especialmente Gladiador Dourado e Besouro Azul, e notar que o roteiro faz com que os acontecimentos em Bialya sigam de maneira simples, mas com eventos bem arquitetados. O problema é mesmo a premissa para a chegada, pois essa viagem brotou do nada. Mas o que acontece ali é bastante interessante. Se aceitarmos bem isso, é possível apreciar a mistura de James Bond e, pasme, todos os ingredientes estereotipados de missões americanas em nações orientais.

A finalização do incidente em Bialya se destaca pela mudança política envolvida e pelo elemento 007, quando o leitor lembra das mudanças de regime e alterações de líderes em governos das republiquetas de bananas ou de lugares onde golpes de Estado e manipulação da população para uma adequação política viciosa são comuns. A golpista assassina Queen Bee (lá de Os Zangões da Abelha Rainha, de 1963), assume o governo como uma benfeitora para o seu povo. Ela é uma personagem curiosíssima e tem algumas cartas na manga, tanto no domínio da geopolítica mundial quanto no campo de pesquisas científicas e trato com super-heróis. Infelizmente ainda é difícil engolir a presença de Fogo Fátuo em toda essa jogada. A “raiva” pelos Guardiões Globais terem sido dispersos não justifica essa transformação do ex-herói em um vilão ideologicamente manipulado. A não ser que ele esteja fingindo.

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Batalha em Apokolips: um dos melhores momentos da LJI.

Ainda melhor do que este bloco, temos a missão espacial com Barda a bordo da nave da Liga para salvar seu esposo, o Senhor Milagre. A arte e a finalização alcançam nessa fase espacial toda a sua glória. Aliás, é a primeira vez que os desenhos dessa versão da Liga impressionam e a grandeza de naves, planetas e batalhas são bem utilizadas e entretém o leitor, algo bem distante da tenebrosa fase espacial no crossover desse grupo com a saga Millennium. A cereja do bolo vem com a inserção de Lobo na história.

É muito bom ver que paralelo ao sequestro de um membro da LJI, temos uma tentativa de reestrutura do grupo e uma nova forma de os autores fazerem as coisas andar. Mesmo com a presença forte de Max e a não-explicação do por quê Guy Gardner ficou com o “cérebro de tapioca“, como diz o Besouro Azul (e sim, a mudança para o “Bad Guy” não é nem um pouco bem-vinda. O personagem deveria ficar com o cérebro de tapioca para sempre… mas o que falta aqui é contexto), a trama consegue fazer com que nosso olhar tenha maior peso para as coisas boas, algo inédito até agora. No final, o humor se redireciona para uma tentativa de aumentar o poder de luta da Liga. Gladiador e Besouro tentam o Flash (Wally) e Batman tenta o casal Gavião, que aceita juntar-se ao time.

A ótima luta em Apokolips para salvar Scott Free e o encerramento do arco com a Liga de Comércio de Khan vem junto com personagens icônicos do planeta de Darkseid, como os Parademônios, Vovó Bondade, Virman Vundabar e Kanto, todos fazendo por merecer seus momentos nas páginas. E para quem leu o arco O Chamado do Destino + a sequência Invasão! na revista da Mulher-Maravilha escrita por George Pérez, ficará muito feliz em ver aqui o outro ponto de vista, com um prequel e sequel daqueles eventos. Até Oberon tem destaque merecido e bem executado na edição #22! Pela primeira vez desde que começaram a fase cômica em uma Nova Liga, Keith Giffen e J.M. DeMatteis escrevem algo que deixa o leitor realmente animado para continuar acompanhando a série.

LJI Anual #2: Hit or Miss!

Os problemas desta horrorosa revista anual da LJI começam com o desleixo de Keith Giffen e J.M. DeMatteis em criarem um ambiente decente de continuação para ela acontecer. Mas nem para isso os autores se deram o trabalho. Como temos a participação das ex-Guardiãs Globais Fogo e Gelo, nosso primeiro impulso é localizar os eventos aqui depois da edição #15 (a primeira missão oficial delas na Liga), mas como a trama elenca o Senhor Milagre (sequestrado pela nave do Cluster — a organização de comércio intergalático de Lorde Mang Khan — entre as edições #15 a 21) e o ditador Rumaan Harjavti (assassinado na edição #16) essa classificação se torna impossível. O leitor então é obrigado a colocar a história em qualquer lugar entre as edições #12 e #14, mesmo com um impacto ou outro na continuidade.

hit or miss liga da justiça internacional plano criticoE a história deste anual não poderia ser mais confusa do que sua [des]organização editorial. O ditador de Bialya aparece em Nova York sem mais nem menos… e é encontrado pelo Coringa sem mais nem menos… terminando por fazer um acordo… sem mais nem menos. Esse acordo coloca o Coringa para matar os membros da Liga e ele falha miseravelmente em todas as funções. Sem contar que chega a ser desrespeitosa a maneira como os autores escrevem o vilão aqui, um palhaço totalmente descaracterizado.

A edição tem alguns mínimos pontos positivos que é o clima de confraternização entre os membros da Liga, em uma espécie de “dia de folga”, com churrasco na casa do Senhor Milagre (e com sacanas piadas sexuais), para irritação de Barda. Ainda podemos apontar como algo positivo a boa a interação entre Dimitri e J’onn; a festa no restaurante russo e algumas piadinhas boas com o cineasta Ingmar Bergman ou as paqueras do Gladiador Dourado e do Besouro Azul. Mas não, definitivamente este anual não é algo interessante de se ler. Está mais para “verdadeiramente vergonhoso”.

Liga da Justiça Internacional (1988) - Annual #2

Justice League International Annual #2 (EUA, 1988)
Roteiro: Keith Giffen, J.M. DeMatteis
Arte: Bill Willingham
Arte-final: Joe Rubinstein
Cores: Gene D’Angelo
Letras: John Costanza
Capa: Kevin Maguire
Editoria: Andrew Helfer, Kevin Dooley
40 páginas

Liga da Justiça Internacional #14 a 22 (Justice League International Vol.1) — EUA, junho de 1988 a janeiro de 1989
Roteiro: Keith Giffen, J.M. DeMatteis
Arte: Steve Leialoha (#14 e 15), Kevin Maguire (#16 a 19,22), Keith Giffen (#18), Ty Templeton (#20 e 21)
Arte-final: Al Gordon (#14 a 19), Joe Rubinstein (#20 a 22)
Cores: Gene D’Angelo
Letras: Bob Lappan
Capas: Steve Leialoha, Al Gordon, Kevin Maguire, Ty Templeton
Editoria: Andrew Helfer
24 páginas (cada edição mensal) / 50 páginas (anual)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.