Crítica | Liga da Justiça: Pesadelos de Uma Noite de Verão

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Servindo como prólogo para o run de Grant Morrison à frente da Liga da Justiça, esta minissérie se apropria de um elemento shakespeariano básico (as sugestões vindas da peça Sonho de uma Noite de Verão) para explicar como se deu a junção dos Sete Magníficos (referência utilizada no próprio roteiro) que formariam a base da jornada morrisonista.

Nesta aventura, temos um inteligente modo de apresentar uma “história de origem”. Escrito por Fabian Nicieza e Mark Waid, o texto começa em um mundo onde os membros da Liga da Justiça são apenas pessoas comuns cercadas por “centelhas genéticas“, pessoas que do dia para a noite foram agraciadas com super-poderes. Em paralelo, temos o surgimento de um novo vilão, o Conhecedor (Know Man) e a ideia de que tudo o que está em andamento neste Universo foi feito para ajudar o planeta Terra “para algo terrivelmente grande que está por vir“. A história funciona bem dentro da proposta de um prólogo, não só pela explicação de como esta versão do grupo se uniu, mas também pelo mote de ameaças grandiosas (em oposição ao elemento mais leve e divertido da Liga cômica) que tomariam conta da série LJA, cuja estreia se daria no ano seguinte.

Utilizando de um bem humorado e sempre fascinante gancho metalinguístico, colocando Kyle Rayner desenhando um quadrinho sobre as coisas que estavam acontecendo neste “mundo errado”, os autores estabeleceram um cotidiano de estranhezas e buracos na percepção da vida atual de Clark Kent (que tem muitas dúvidas, medos inexplicáveis e sensação de incompletude em um dia corrido no jornal); Bruce Wayne (confrontado com a estranha visita de seus pais, achando estranho ter o impulso de procurar por uma passagem secreta na parede da sala); Diana Prince (professora do Colégio Themyscira Para Garotas, que detém os estragos causados por uma aluna nervosa com a terrível transformação de seu corpo) e para Arthur Curry (membro-fantoche do conselho diretor da Red Tide Tuna Company, que o colocou nesta posição para evitar que ele processasse a empresa por ter perdido a mão em um acidente na fábrica).

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Quando os bandidos também recebem super-poderes. E quando ninguém mais se lembra dos maiores super-heróis da Terra.

Aos poucos, porém, o texto desmistifica este mundo de fantasias e o grande culpado de toda a ilusão, o Doutor Destino (John Dee) se torna o alvo dos já despertos para a realidade membros da Liga da Justiça. É importante destacar aqui que esses heróis (exceto pelo novo Lanterna) já estiveram em formações anteriores da famosa equipe e se conhecem há algum tempo, tendo trabalhado juntos e tido muitas situações para se conhecerem melhor, salvarem a Terra e confraternizarem um pouco. A questão é que eles estiveram afastados dos holofotes de grupo nos últimos anos, trabalhando mais em aventuras individuais, o que justifica toda a estranheza que vemos pairar nos primeiros diálogos, especialmente com a presença de Kyle, o novato que é olhado com bastante desconfiança por Wally e tratado como um moleque bobo por Orin.

Infelizmente J’onn J’onzz fica muito tempo afastado da trama principal, tendo uma terna mas demasiadamente estendida “vida em Marte”, ao lado da família… tudo uma ilusão bem elaborada por Dee. Quando ele enfim é acordado, sua raiva é canalizada para derrubar quem o tirou de seu Paraíso e o roteiro ganha ares de luta de equipe pela primeira vez. Até este ponto, os impasses narrativos eram poucos e estavam ligados exclusivamente à passagem de ambientes de um herói para outro e, deles, para pequenas cenas com Destino e o Conhecedor. No último volume da minissérie, todavia, essa confusão se amplia para a estranha e insossa batalha (que termina em empate, por assim dizer) da Liga contra o Conhecedor, sendo Destino apenas um peão situacional de luxo.

Com um projeto artístico pouco chamativo (são poucos os quadros e páginas que realmente despertam impacto visual no leitor) e com um desfecho amargo e resignado, especialmente pelo pelo dilema heroico e discurso um tanto chateante do Superman, Pesadelos de Uma Noite de Verão funciona muito mais em seu começo do que em seu final. A história é divertida até certo ponto e mantém uma série de boas dúvidas para o público. À medida que as respostas vão sendo dadas, estranha-se imensamente a mudança de tom e as decisões de encerramento dos autores. No todo, trata-se de um prólogo de novo título acima da média. Mas ainda assim ficamos desapontados porque diante de um bom início e da grande promessa em jogo, a finalização termina não fazendo jus ao projeto.

Liga da Justiça: Pesadelos de Uma Noite de Verão (Justice League: A Midsummer’s Nightmare) — EUA, 1996
DC Comics
No Brasil: Os Melhores do Mundo #1 e 2 (Editora Abril, 1997).
Roteiro: Fabian Nicieza, Mark Waid
Arte: Jeff Johnson, Darick Robertson
Arte-final: Jonathan Holdredge, Anibal Rodriguez
Cores: Pat Garrahy (#1 e 2), John Kalisz (#3)
Letras: Ken Lopez
Capas: Kevin Maguire
Editoria: Ruben Diaz
45 páginas (cada edição)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.