Crítica | Liga da Justiça Sombria (2017)

estrelas 2,5

DC Comics definitivamente ainda não conseguiu se encontrar no cinema. Embora conte com obras magistrais como Superman: O FilmeBatman BeginsO Cavaleiro das Trevas, a editora continua dando seus grandes tropeços, seja através do controverso Batman vs Superman ou do simplesmente terrível Esquadrão Suicida, que anda de mãos dadas com outra pérola, Lanterna Verde. No território da animação, contudo, a editora encontrou um ótimo espaço para se estabelecer, nos entregando marcantes desenhos como Batman: The Animated Series, Batman: A Máscara do Fantasma, ambos encabeçados por Bruce Timm, e Batman do Futuro: O Retorno do Coringa.

Essas produções, que contavam com um traço bastante autoral, naturalmente abriram caminho para a Warner realizar ainda mais projetos, começando pela televisão por meio do aclamado Liga da JustiçaLiga da Justiça Sem Limites. Foi apenas mais recentemente que as duas empresas em conjunto decidiram investir pesado nas animações em longa-metragem, criando o DC Universe Animated Original Movies, uma linha de filmes miradas em um público mais adulto, que começou com A Morte do Superman de 2007. Desde então, inúmeros arcos dos quadrinhos foram adaptados para as telinhas, sendo lançados diretamente para o vídeo, como Ponto de Ignição A Piada Mortal.

Liga da Justiça Sombria faz parte desse projeto, levando, enfim, para um longa-metragem a equipe formada por Zatanna, John Constantine, Desafiador e, ocasionalmente, o Monstro do Pântano – projeto que chegou a ser cogitado para o cinema pelas mãos de Guillermo del Toro e que, desde então, se tornou praticamente uma lenda. A trama do desenho tem início quando cidadãos comuns começam a cometer crimes, acreditando que todos à sua volta são demônios ao invés de pessoas. Após algumas ocorrências, a Liga da Justiça acaba suspeitando que existe algum tipo de magia por trás disso, teoria que é logo descartada pelo cético Batman. Isso, contudo, acaba mudando quando o Desafiador contacta o vigilante de Gotham e o faz entrar em contato com Constantine, com a ajuda de Zatanna. Os quatro juntos, então, partem para descobrir a origem desses eventos.

O que nos chama a atenção de imediato na obra é a pasteurização de seu traço. Não temos mais algo com um visual próprio como nos clássicos dos anos 1990. O que temos aqui são personagens quase sem expressão, cujos semblantes simplesmente não se encaixam com as vozes que escutamos, tornando a animação uma aventura bastante fria que não chega a envolver o espectador. Estamos falando do equivalente na animação de uma péssima atuação e, infelizmente, isso não se resume apenas às expressões faciais, já que a movimentação deles também é travada, exceto nos momentos que vemos um combate mais grandioso, que exige uma maior fluidez.

São nessas ocasiões que Liga da Justiça Sombria se sustenta. Embora demore a, de fato, nos proporcionar uma sequência de ação engajante, o desenho acaba nos entregando um ótimo combate com os heróis em sua segunda metade, fazendo bom uso do arsenal mágico de seus integrantes de tal forma que nenhum acaba sendo deixado de lado. A presença do Morcego é, sim, desnecessária e o herói está presente, claramente, apenas para atingir uma audiência maior, mas nada que atrapalhe muito o caminhar de sua narrativa. Isso já é feito pelo próprio roteiro que acaba se perdendo e se tornando um tanto confuso em seus eternos vai e vem.

Felizmente, o trabalho de dublagem consegue resgatar o espectador, especialmente Matt Ryan, que nos entregara um ótimo Constantine (o personagem, não a série em si) no seriado cancelado em 2015, ainda que a emissora tenha tentado ao máximo estragar sua persona. Temos nele um personagem que consegue se destacar mesmo com o traço sem vida e o texto confuso de Ernie Altbacker, que também insiste em tirar o cigarro da boca de John, mesmo esta sendo uma animação mirada em um público mais adulto – evidente que o politicamente correto vence mais uma luta, destruindo um dos elementos que mais definem o ocultista.

No fim, Liga da Justiça Sombria acaba sendo uma mistura de verdadeiros desastres com algumas cenas que conseguem nos envolver. Embora faça um desserviço com alguns personagens, especialmente com Batman, colocando-o como um mero figurante desnecessário, é uma animação que diverte, mas não vai além disso. Dito isso, não há como não sentir falta da qualidade dos desenhos da DC de outrora, quando não liberava longas uma, duas ou até três vezes por ano e, portanto, permitia uma liberdade criativa maior de seus criadores. Nosso consolo é sempre poder retornar para Batman: The Animated SeriesA Máscara do Fantasma e outros que faziam jus aos heróis das páginas ilustradas.

Liga da Justiça Sombria (Justice League Dark) — EUA, 2017
Direção:
 Jay Oliva
Roteiro: Ernie Altbacker
Vozes originais: Rosario Dawson, Camilla Luddington, Jeremy Davies,  Jerry O’Connell, Jason O’Mara, Alfred Molina, Matt Ryan, Dee Bradley Baker
Duração: 75 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.