Crítica | Liga da Justiça: Um Novo Começo (1987)

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estrelas 3

Reformular um grupo como a Liga da Justiça não é uma tarefa fácil e para chegar a esta conclusão não é preciso ser um gênio ou ter um profundo conhecimento do que aconteceu na DC Comics entre a Crise nas Infinitas Terras e o momento em que a editora bateu o martelo para a criação da nova da mega-equipe, com novos heróis e tom de roteiro completamente diferente do que havia antes, adaptando-se às “necessidades do mercado”. A tarefa desta empreitada ficou nas mãos de Keith Giffen e J.M. DeMatteis, que juntos, escreveram o roteiro; e de Kevin Maguire, responsável pela arte.

Com um tom cômico, mesmo ao falar de coisas sérias, os autores iniciaram esta nova jornada da Liga com brigas e disputas para ver quem ia falar; quem mandava em quem; sobre o que iriam falar ou o quê iam fazer. Iniciada pelo pouco amado Lanterna Guy Gardner, a primeira briga só é interrompida com a chegada de Batman ao lado do Senhor Destino, que diz que pode colocar fim à balbúrdia e é interrompido com um simpático “permita-me…“, do Morcegão, que coloca fim à contenda de maneira rápida e com uma demonstração de moral como poucos heróis da DC Comics possuem (aliás, só consigo ver tamanho moral e respeito geral de quem quer que esteja perto em mais outros dois: Superman e Mulher-Maravilha).

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Moral: ou você tem ou você não tem. E só para constar, a participação do Batman nesta versão da Liga só vale por esta cena e pelo histórico nocaute.

Por mais que tudo seja estranho e difícil de processar, esta formação inicial da Liga até que chama a atenção nas duas primeiras revistas, conquistando alguma simpatia do leitor, se ele está aberto à nova experiência. Claro que o desenvolvimento desta história, que se estende até a edição #7: Justice League… International!, não se mantém tão vigorosa como no início, tendo inclusive partes bem ruins no desenvolvimento. Contudo, o mistério em torno do estreante Maxwell Lord e seu acesso inexplicável ao Santuário Secreto + o fato de ele “empurrar” alguns heróis para a Liga nesse começo — e torná-la internacional no fim do arco — é o bastante para despertar a curiosidade. Mesmo depois de algumas campanhas um pouco sem sentido, chega-se a um final positivo.

Existem duas versões e dois nomes para a Liga neste momento. As edições #1 a 6 recebem apenas o nome de Liga da Justiça, enquanto a edição #7 tem o “Internacional” acrescentado ao título, mudando, inclusive, a nomenclatura da revista, embora a editora tenha mantido a sequência de numeração. Quanto à equipe, existem dois times iniciais. O primeiro, tem essa configuração:

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Cena histórica: Batman socando Guy. E a reação do Besouro Azul não tem preço.

No final da saga, com as movimentações suspeitas, mas ditas “de boa vontade”, feitas por Maxwell Lord, temos a adição de mais dois membros na equipe, o Capitão Átomo (Nathaniel Adam) e o Soviete Supremo N°4 (Dmitri Pushkin), seguido da saída do Senhor Destino e do Capitão Marvel e da passagem da chefia do Batman para o Caçador de Marte. Como disse antes, mesmo tropeçando, o roteiro consegue ajustar as coisas para gerar curiosidade no leitor, conseguindo isso mesmo que tire de cena um ótimo personagem como o Capitão Marvel, com seu lado inocente, cômico sutil e eficiente… a única saída que realmente lamentamos. Em compensação, permanecem os interessantes Besouro Azul (sempre com boas tiradas, um dos poucos personagens, junto com Batman e Caçador de Marte, a não sofrer com as forçadas cômicas do roteiro) e Gladiador Dourado, que mesmo não sendo uma criança no corpo de um super-herói, apresenta o mesmo nível de sutileza e… digamos… fofura que o Capitão Marvel apresenta, guardadas as devidas proporções de comportamento vinda de cada idade, claro.

O maior impasse deste arco é que o caminho trilhado para a junção desta equipe parece, em sua maioria, forçado, com um tom épico repentino, sem muita atenção à construção narrativa e com dois momentos bem ruins vindo da caracterização de Guy Gardner na trama (e aqui falo completamente à parte à minha colossal antipatia por ele, analisando apenas a sua funcionalidade como herói na história). Primeiro, ele se porta de maneira que de fato atrapalha o grupo e chega a não fazer muito sentido a sua presença ali após a primeira luta contra os terroristas de discurso moralmente instigante da edição #1 — e um pouco, só devido ao histórico do personagem contra os soviéticos, na luta contra os Avanteadores / Campeões de Angor / Meta Milícia / Justifiers (cópia descarada dos Vingadores da Marvel), formado por Gaio (Blue Jay), Feiticeira de Prata (Silver Sorceress) e Wandjina, que acontece no país de Gorbachev. Já nas últimas duas edições, após um cameo de Hal Jordan, Guy muda abrupta e incomodamente de comportamento. Toda a graça que poderia vir de algo escondido por ele se perde pelo exagero e pela forma extremamente caricata como o roteiro o representa sendo bonzinho com todo mundo. Faltou um meio termo.

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Com caráter de “Internacional”, a Liga da Justiça termina este arco praticamente comendo na mão de Maxwell Lord, mantida unida por interesses privados e de Estado.

A diagramação e todo o projeto artístico destaca bem os reportes de imprensa questionando a nova Liga (elemento metalinguístico, fazendo do repórter a possível voz negativa do leitor), bloco encabeçado por Jack Ryder, que também tem uma ótima participação como Rastejante na luta sem graça do grupo contra o Homem Cinza.

Há algumas poucas boas piadas e situações na história como a primeira brincadeira do Besouro com o Batman sobre Star Trek (devidamente respondida pelo Morcegão, o que é uma surpresa) e há alguns bons conceitos típicos dos anos 80, como as generalizações e polaridade típicas da Guerra Fria (Ronald Reagan e Mikhail Gorbachev aparecem na história); discursos de paz aliados ao medo dos programas nucleares (este arco começa a ser publicado praticamente um ano depois do acidente nuclear de Chernobyl); desfaçatez e ridicularização dos “inimigos da América”, como no caso da soviética Rocket Red Brigade e da ridícula Gangue de Espadas (Gangue Royal Flush) ou colocação de militares loucos pela dominação mundial, como o Coronel incitador da guerra Rumaan Harjavti, da fictícia nação de Bialya.

Se olharmos com atenção para a ideia por trás desta nova Liga e para o tempo em que ela apareceu, entendemos muita coisa sobre as escolhas dos autores e o por quê de determinados assuntos serem tratados aqui com muita ênfase, mesmo que eles não funcionem muito bem na história. Para todos os efeitos, este é um arco que vale a pena conhecer, nem que seja para torcer o nariz, ver o começo de estranhas mudanças em grupos icônicos dos quadrinhos e, pelo menos para uma boa parte do público, odiar Guy Gardner um pouco mais.

LJ Anual #1: Germ Warfare

Segundo notas do editor Andrew Helfer, este Annual #1, intitulado Germ Warfare, se passa logo depois da edição #4 desta nova fase, o que parece ter alguns problemas cronológicos, ficando ainda pior se tentarmos consertar e localizar a história em qualquer outro momento, antes ou depois. O que não se cala nesse processo é a pergunta: por quê diabos o Capitão Marvel não aparece aqui?

Escrita pela dupla titular da revista no momento e com arte de Bill Willingham tendo um time grande de arte-finalistas para uma única edição (disponho todos na ficha técnica dentro do toggle abaixo), esta edição fala de um esporo senciente que foi criado, de alguma maneira nas indústrias de Kord (Besouro Azul) e de alguma maneira se espalhou pela ilha onde certa instalação experimental se encontrava.

PLANO CRITICO LIGA DA JUSTICA ANNUAL 1987A história é, no todo, ruim. E o que faz ela ser ruim é a irresponsabilidade dos autores, que deixaram muita coisa sobre o esporo sem ser explicada, terminando a aventura com um sacrifício notável do Caçador de Marte (que vira uma prisão viva para a doença que estava tornando todo mundo zumbi), mas não há maiores detalhes sobre o início. Na verdade, toda a investigação que o grupo começa acaba não dando em nada, porque eles são contaminados. Todos eles! É como se esta não fosse uma aventura da nova Liga e sim do Caçador de Marte. Bem, pelo menos como consolo, o início da história mostra uma boa interação do grupo — incluindo Guy Gardner, o que é impressionante — e, do meio para o final, destaca o Caçador de Marte colocando o elmo do Senhor Destino. Pena que ele fique tão pouco tempo com o objeto, já que esta é, definitivamente, uma história dele, tanto que daria base para a excelente aventura Sonho Febril, contando a origem do personagem no pós Crise.

Liga da Justiça (1987) - Annual #1

Justice League Annual #1: Germ Warfare (EUA, setembro de 1987)
Roteiro: Keith Giffen, J.M. DeMatteis
Arte: Bill Willingham
Arte-final: Robert Campanella, Dick Giordano, Dennis Janke, Bruce D. Patterson, P. Craig Russell, Bill Wray
Cores: Gene D’Angelo
Letras: Bob Lappan
Capa: Bill Willingham
Editoria: Andrew Helfer
40 páginas

Liga da Justiça: Um Novo Começo – Edições #1 a 7 (Justice League: A New Beginning #1 – 7) — EUA, maio a novembro de 1987)
Nota:
Depois da edição #6, o título é renomeado para Liga da Justiça Internacional, seguindo o cumulativo de numeração.
Roteiro: Keith Giffen, J.M. DeMatteis
Arte: Kevin Maguire
Arte-final: Terry Austin (#1), Al Gordon (#2)
Cores: Gene D’Angelo
Letras: Bob Lappan
Capas: Kevin Maguire, Terry Austin, Al Gordon
Editoria: Andrew Helfer
24 páginas (cada edição)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.