Crítica | Liga da Justiça

  • Leiam, aqui, nossa crítica com spoilers.

Longa e árdua foi a jornada da DC Comics, em parceria com a Warner, até o lançamento de Liga da Justiça. A mista recepção de Batman vs. Superman levantou dúvidas sobre o futuro dessa empreitada das duas empresas, questão que apenas se tornou mais complexa diante das inúmeras polêmicas, perdas de diretor em razão de tragédia pessoal, mudanças de rumo, refilmagens, dentre outros acontecimentos. O filme solo da Mulher-Maravilha, todavia, criou um raio de esperança, que espantou um pouco os traumas gerados pelo trágico Esquadrão Suicida, mostrando que, em boas mãos, as obras desse extenso universo pode, sim, gerar boas histórias. Afinal, por mais que o longa da amazona não seja perfeito, ele certamente é um passo na direção certa.

Colocar o super-grupo da DC nas telonas, porém, requer mais do que simplesmente entregar um bom entretenimento – trata-se de um longa-metragem histórico, a primeira vez que todos veremos tais heróis juntos em tela – ainda que relances tenham sido oferecidos em BvS. Maior responsabilidade ainda é a de introduzir emblemáticos personagens como Flash e Aquaman, após suas breves pontas no outro filme, isso sem falar no um pouco menos conhecido Ciborgue, que apenas ganhou seu espaço no imaginário popular mais recentemente. Muito cai no colo de Chris Terrio e Joss Whedon (que assumiu o projeto tardiamente, com a saída de Zack Snyder já depois da fotografia principal encerrada), portanto, que  tiveram que comprimir tudo isso em aproximadamente duas horas, visto que a Warner bateu o martelo em relação à duração do longa-metragem.

Como esperado, a obra tem início nos levando de volta aos eventos de Batman vs. Superman, lembrando o espectador da morte do Superman, evidenciando que o mundo não perdera apenas seu protetor, mas um ícone, um farol que ilumina o caminho da humanidade. É nesse cenário de instabilidade que encontramos no início da projeção, situação agravada pela chegada do Lobo da Estepe (voz de Ciarán Hinds), que, naturalmente, objetiva destruir o planeta. A fim de evitar tal catástrofe, Bruce Wayne (Ben Affleck) decide reunir os possíveis defensores da Terra, formando uma equipe composta pela Mulher-Maravilha (Gal Gadot), Flash (Ezra Miller), Aquaman (Jason Momoa) e Ciborgue (Ray Fisher). Juntos eles precisam impedir a invasão alienígena antes que seja tarde.

A narrativa de Liga da Justiça chama a atenção pela maneira como ela é construída – de imediato encontramos um tom mais melancólico, que reflete a perda do Superman, no entanto, conforme a projeção progride, essa melancolia vai sendo substituída pelo senso de aventura, marcado por doses perceptíveis de humor, que aliviam um pouco da tensão, sem, porém, soarem mal-inseridas. De fato, o elemento comédia da obra, certamente mais presente que em BvS ou Mulher-Maravilha, é utilizado de forma a aprofundar a relação entre os heróis, trazendo momentos de descontração que nos fazem percebê-los como (super) amigos e não meros companheiros de trabalho. Digno de nota é a escalação de Ezra Miller como Barry Allen, definitivamente o alívio cômico da obra, retratando o velocista como hiperativo, ganhando a atenção através de sua personalidade sem toda a pompa de herói.

Não chamando tanto a atenção, temos a interpretação de Ben Affleck como Wayne/Batman e não falo do personagem em si, mas sim do ator que não parece 100% focado no projeto, o que não chega a ser grande surpresa, considerando todas as polêmicas envolvendo o filme solo do Morcego. Fica nítido que ele não se entregou tanto quanto anteriormente, chegando a transparecer certa tristeza ou cansaço, ainda que seu personagem mantenha a presença marcante simplesmente por ele ser o Batman, claro. Não muito distante disso temos a Mulher-Maravilha de Gal Gadot, evidenciando a profunda limitação da atriz, que basicamente serve para demonstrar o abismo existente entre a maior parte do elenco e nomes como Ezra Miller, Amy Adams e J.K. Simmons, ainda que sua participação como James Gordon seja muitíssimo breve.

Claro que parte dessa percepção negativa em relação ao trabalho de grande parte do elenco se dá em razão da falha construção de certos personagens. Bons exemplos disso são Ciborgue e Aquaman, ambos extremamente rasos, quase que totalmente ausentes de histórias pessoais – apenas pequenas informações são oferecidas aqui e lá, mas nada que efetivamente permita que o espectador entenda plenamente esses indivíduos. Por mais que o Aquaman de Momoa divirta com seu jeito “surfista”, mais descolado, muito é deixado para o imaginário popular e o conhecimento prévio graças aos quadrinhos e animações da DC Comics, aspecto que enfraquece a narrativa do longa-metragem, deixando aquela impressão de que algo está faltando. Curiosamente, certos trechos desnecessários ocupam o lugar de sequências que poderiam explorar mais a fundo certos membros do grupo – com um montador de mão mais firme, a obra definitivamente funcionaria de maneira mais fluida e orgânica.

Outro ponto que certamente requer conhecimento prévio do espectador são as caixas maternas, objetos procurados pelo principal antagonista. Por mais que alguns dados sejam oferecidos em certos pontos da história, sentimos como se tudo fosse jogado em tela, claros macguffins, que sequer entendemos plenamente para que servem. Considerando que a jornada do vilão praticamente gira em torno disso, sua construção torna-se profundamente falha – por que ele quer destruir o mundo, especificamente a Terra? Porque sim e temos que aceitar isso. Não ajuda, também, a total falta de carisma do Lobo, cujo CGI é artificial e nem mesmo o talentoso Ciarán Hinds consegue salvá-lo de ser totalmente genérico e inexpressivo.

Com tais elementos em mente fica fácil discernir, pois, no que Liga da Justiça foca todos os seus esforços: nas sequências de ação. Não que isso venha como grande surpresa, já que em uma obra de mais ou menos duas horas, com cinco (ou serão seis?) heróis em tela e trailers repletos de pancadaria, não poderíamos pedir muito mais. Nesse quesito, o longa não decepciona, com os clássicos slow-motions de Snyder aparecendo constantemente, especialmente quando Diana ou Barry estão em combate (o segundo por motivos óbvios), com o 3D, felizmente, não interferindo negativamente, mas, também, não trazendo qualquer melhoria. Nem mesmo o muitas vezes descartado pela opinião pública Aquaman soa fora do lugar nesses trechos, roubando a cena com algumas divertidas peripécias.

Não podemos deixar de notar, todavia, a presença de uma característica que assola grande parte dos filmes de herói: a ausência de qualquer sensação de risco. Em momento algum sentimos como se os personagens centrais estivessem em perigos, fator que prejudica nosso envolvimento com a obra em linhas gerais. Outro aspecto que incomoda é o excesso de CGI, bastante notável e artificial em certos trechos, prejudicando nossa imersão consideravelmente. Voltando para a direção, vale notar como a mão de Whedon, que tomou conta do projeto após a saída de Snyder, parece transparecer na narrativa, mas sem causar estranhamento por diferenças substanciais de tom. O resultado final, portanto, segue a cartilha de Zack Snyder, o que é definitivamente justo com o diretor que deu início a esse universo compartilhado. Whedon parece apenas trabalhar em cima, aplicando sua visão muito cirurgicamente, sem efetivamente parecer que ele impôs seu estilo por sobre o de Snyder.

Outro ponto que definitivamente salta aos olhos é a utilização da computação gráfica para apagar o famigerado bigode de Henry Cavill nas refilmagens. Tal alteração é nítida e não há como segurar a risada quando aparece. Felizmene, porém, isso só acontece pontualmente e de forma alguma afetar o resultado final. Mesmo esse elemento ridículo não esconde o maior otimismo envolto da figura do Homem de Aço, que, como já dito, funciona como o símbolo, servindo, inclusive, como exemplo para o próprio Morcego de Gotham. A direção deixa isso transparecer através dos raios de sol que brilham em tela quando há menção ao herói falecido, similarmente ao que já vimos em BvS.

Dito isso, é seguro dizer que Liga da Justiça é uma obra que, sem muito esforço, diverte o espectador, mas que o faz de maneira rasa, com notáveis problemas que impedem a obra de alcançar o digno patamar almejado para o primeiro longa-metragem a colocar esse emblemático grupo nas telonas. A boa química entre os personagens centrais e as satisfatórias sequências de ação certamente não escondem a dependência do roteiro em conhecimento prévio, ou a superficialidade do vilão, mas evitam que a obra seja enxergada como uma decepção.

Ps.: O filme conta com duas cenas pós-créditos, a primeira é apenas divertida e a segunda traz impactos diretos para o futuro do universo DC nos cinemas.

Liga da Justiça (Justice League) — EUA, 2017
Direção:
 Zack Snyder
Roteiro: Chris Terrio, Joss Whedon
Elenco: Gal Gadot, Ezra Miller, Ben Affleck, Jason Momoa, Henry Cavill, Amy Adams, Ray Fisher, Jeremy Irons, Ciarán Hinds, J.K. Simmons, Billy Crudup, Diane Lane, Amber Heard, Jesse Eisenberg,  Connie Nielsen
Duração: 121 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.