Crítica | “Like a Prayer” – Madonna

“Sinceridade”. Creio que esta seja a mais próxima dentre as observações da crítica especializada em relação ao maduro Like a Prayer, quarto álbum de estúdio de Madonna, uma artista ousada, irreverente e destemida em 1989, conhecida por sua garra e crença no potencial das suas ideias e em suas capacitações artísticas, isto é, o seu talento para magnetizar público, mídia, críticos e detratores numa única malha tecida por polêmicas, contradições, mas além desses detalhes, composições dançantes e simbiose entre o entretenimento e a crítica social.  Lançado em março do último ano da década de 1980, o álbum foi produzido por Patrick Leonard, Stephen Bray, Madonna e uma participação especial de Prince.

Como descrevo em Madonna Múltipla – Cinefilia e Videoclipe, primeiro livro da Trilogia do Tempo Crítico, nessa época, Madonna começou a liderar o formato do videoclipe. As produções mais caras e artisticamente mais delineadas eram as suas. Temas como religião, empoderamento feminino, sexo, amor, dentre outros, comuns na carreira da cantora desde os seus primeiros trabalhos ganhavam roupagens por meio de videoclipes fotografados, editados e concebidos por meio de canções ainda mais maduras e coesas que os trabalhos realizados em True Blue. Para Madonna, o álbum era feito de canções sobre a sua mãe, o seu pai e os laços que a interligavam com a família. Para acadêmicos, críticos e fãs, a produção era “o mais próximo que o pop chegou da arte”. Em suma, um sucesso. Comercial e crítico.

Em seus 51 minutos e 13 segundos (a edição padrão), o álbum é conduzido por ritmos diversos. Há presença dos gêneros pop, rock, dance-pop e trechos com o tom cerimonioso do gospel e a ênfase na melodia típica do funk, materiais basilares para os arranjos das composições cheias de ousadia e forte teor reflexivo. O que imaginar de uma canção sobre uma garota apaixonada pelo “divino” de maneira tão plena que só tem a Deus como figura masculina? No mínimo a plateia boquiaberta e a Igreja Católica, numa espécie de retomada ao período medieval, como se diz no popular, “cheia de ódio”. Em Like a Prayer, canção que também nomeia o álbum, Madonna canta acompanhada de sintetizadores e tambores, numa mistura entre o gospel e o funk, tendo ainda adição do coral regido por Andrae Grouch.  Composta por Madonna e Patrick Leonard, a faixa inclui vocábulos litúrgicos e criam duplo sentido entre sexo e religião. Uma obra-prima da cultura pop, sem dúvidas.

Express Yourself é um dos pontos altos do álbum e aborda o empoderamento feminino. A faixa iria se tornar um hino e uma das maiores referências da artista, principalmente por conta do videoclipe, o mais caro até então. E quando exponho valores, quero trazer questões como amplitude no design de produção, maior liberdade artística, dentre outros detalhes, pois creio ser muito redutor ficar apenas no “foi caro”, afinal, temos tanta produção cara e banal pela cultura pop, não é mesmo? A faixa, composta por Madonna e Stephen Bray é guiada por tambores, palmas eletrônicas e refrão com ótimo desempenho do saxofone, dos sintetizadores e da percussão.  A letra da canção, imperativa, foca na defesa de gênero proposta de maneira mais razoável por Madonna em produções anteriores e assim, encoraja o público feminino a buscar respeito e se expressar. “Convocação feminina para a guerra”, tal como afirma Lucy O’Brien na biografia Madonna – 60 Anos, a faixa também é acompanhada por instrumentos de sopro e uma voz cheia de emoção.

Madonna versa sobre o poder de se expressar, veiculando as suas opiniões sobre o empoderamento da mulher, sobre dar o melhor de si, superar os obstáculos que a vida nos impõe e atingir os nossos objetivos. A letra deixa claro que é necessário “pôr o seu amor à prova, fazer o seu homem se expressar adequadamente e dizer o que sente”. Na abertura, Madonna pergunta para os ouvintes se eles acreditam no amor (na verdade para as mulheres, mas com o tempo, a canção ganhou simbologia geral para as pessoas que desejam se expressar), alegando que há algo que ela precisa contar para quem está escutando. Adiante, reforça que as mulheres não precisam de anéis de diamante, nem de carros elegantes, “mas apenas uma mão grande e forte que as ajudem a se erguer, fazendo-as se sentir rainhas”. A canção ainda reforça que, se não for para ser exclusiva, a mulher será mais forte se ficar sozinha, afinal, “lençóis de cetim não são suficientes se a pessoa não estiver na cama sendo amada”. No geral, a mensagem é um conselho para as pessoas se expressarem da melhor maneira possível, dizerem o que sentem e o que desejam

Cherish, supostamente inspirada em Romeu e Julieta, de Shakespeare, ganha destaque por sua sonoridade que mescla bateria eletrônica, saxofone, teclados e percussão, tendo como tema a necessidade de devoção num relacionamento, isto é, a valorização da pessoa amada. Madonna assumiu a composição com Patrick Leonard e investiu no estilo doo-wop para acompanhar o seu desempenho. Na música doo-wop, ligada diretamente a música negra, há vocais de apoio harmoniosos e presença constante de onomatopeias, num estilo inspirado pelo rhytm and blues. Oh Father! versa sobre o suposto relacionamento com o seu pai. Também composta pela dupla de Like a Prayer, a canção expõe a figura de autoridade de seu pai, o casamento com a sua madrasta depois da morte de sua mãe e os conflitos durante a juventude. Acompanhada por cordas, piano, violinos e bateria eletrônica, os acordes progridem equilibradamente.

O álbum ainda conta com Dear Jessie, inspirada na filha do produtor Patrick Leonard, uma espécie de canção de ninar que versa sobre as alegrias e inspirações típicas da infância; Promise To Try e reflexão sobre a morte de sua mãe; Till Death Do Us Part, melancólica canção sobre o fim do casamento com Sean Penn, na época considerado o “amor da sua vida”; Keep It Together, faixa razoável sobre a importância da família; Act of Contriction, faixa que seria emulada pelo single Girl Gone Wild, do álbum MDNA; Love Song e Spanish Eyes, sendo a última, uma balada inspirada nas músicas românticas espanholas. A faixa traz um desempenho intenso de Madonna e vocal de apoio masculino hipnótico. Trechos como “gotas de vela e lágrimas no travesseiro” acompanham a belíssima canção que liricamente trata de temas como saudade, solidão e força da memória, com uma mulher a sentir falta do seu amado.

Promovido pela Blond Ambition Tour, o álbum se tornou uma referência de qualidade e boa música no campo da cultura pop, firmando mais uma vez o contrato de Madonna com o público e com a mídia. Fonte de alimentação para a “sociedade do espetáculo”, a cantora utilizou a cultura da mídia a favor dos seus singles e videoclipes, com resultado favorável. Like a Prayer foi a transição da musa pop dos anos 1980 para a década de 1990, um período de novos experimentações, preâmbulo para um dos seus trabalhos mais escandalosos: Erotica, a trajetória pornográfica de Madonna pela música.

Aumenta: Like a Prayer.
Diminui:  Keep It Together.

Like a Prayer
Artista: Madonna
País: Estados Unidos.
Lançamento: 21 de março de 1989.
Gravadora: Warner Bros, Sire.
Estilo: Pop, dance pop e rock.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.