Crítica | “Like a Virgin” – Madonna

Madonna: artista feminina revolucionária ou apenas uma garota materialista? Para alguns é as duas coisas, afinal, como aponta a sua canção Material Girl, “vivemos num mundo materialista, por isso, sou uma garota materialista”. Tema de discussões jornalísticas, acadêmicas, no bojo do senso comum e até em citações cinematográficas de Tarantino, o álbum Like a Virgin revelou o lado feminino de uma artista que precisava gritar para o mundo a necessidade de espaço para as mulheres firmes na cultura pop, em constante negociação com os homens, sem precisar ser apenas espectros de suas existências.

Conforme Madonna expôs em algumas entrevistas, “a Warner é uma hierarquia de homens velhos e é um ambiente machista para trabalhar”, além de afirmar que “uma mulher no controle de sua vida sexual e sua carreira é uma ideia pouco comum para a época”. Esse mix de ideias fermentou a força de Like a Virgin como um álbum polêmico, repleto de discussões midiáticas que se espalharam como rizoma pela sociedade e ditaram comportamento.

Sem esconder a sua força comercial, o álbum é o primeiro grande sucesso de vendas da cantora, tendo também material substancial que o torna uma realização musical de relevância artística. Segundo álbum de estúdio, Like a Virgin tratou vários temas: amor, emancipação feminina, liberdade de expressão, etc. A concepção artística do álbum lançado em novembro de 1984 foi realizada por Jeri McManus e Jeffrey Jent Ayer, com apoio nas fotografias de Steven Meisel. O figurino, icônico, trouxe Madonna vestida como uma noiva sensual, no jogo ambíguo entre a “santa” e a “vadia”.

Com a crítica cultural dividida, Madonna empolgou o público da Era Reagan, um período de castidade, tradicionalismo e postura contrária em relação a qualquer coisa que estivesse de fora dos padrões puritanos socialmente determinados.  Em seus 43 minutos e 10 segundos (a edição padrão), o álbum produzido por Madonna, em parceria com Stephen Bray e Nile Rodgers, tratou dos temas apontados através da sonoridade new-wave (começou nos Estados Unidos e Inglaterra no final dos anos 1970 e predominou nos anos 1980) e o dance-pop (gênero que incorpora elementos de outros estilos, com intenção ênfase na melodia, ritmo acelerado e proposta de ser dançante).

Like a Virgin foi o primeiro single do álbum. A ideia de Madonna era a dualidade da virgem e da prostituta. Para a cantora, a mulher podia ser as duas coisas. Basta ter o direito de escolher. Composta por Tony Kelly e Billy Steinberg, a faixa que mexeu com os conservadores trouxe uma mulher expondo a sua sexualidade, numa postura comum apenas aos grandes astros do rock, numa postura que dividiu opiniões. Alguns a achavam uma louca, outros acreditavam que a postura necessária sacudiu o movimento feminista. Com letra sobre autoconfiança e comportamento indomável, a canção dance-pop com tambores e baixo que emula Billie Jean, de Michael Jackson e I Can’t Help Myself, do grupo Four Tops, trouxe Madonna em suas primeiras incursões vocais, algo que seria trabalhado melhor posteriormente. Empolgante, Like a Virgin é tida como um “hino” por muitos fãs e críticos musicais.

Material Girl é uma daquelas canções que dispensa apresentação. Composta por Peter Brown e Robert Rans, a faixa durante décadas é uma referência da mídia para citar a cantora em alguma matéria, documentário, etc. Com presença de sintetizadores e vozes robóticas que acompanham o gancho musical, a canção trata de uma jovem que propõe a seu amante uma vida de riqueza e luxo, adornada por joias para complementar o “amor”. Com linha de baixo que revela algumas doses do pós-disco, a crítica especializada apontou que há reminiscências de Can You Fell It, do The Jackson 5. Em suma: como todo bom produto da cultura pop, a canção alimenta-se de materiais já produzidos e entrega algo novo, mas repleto de metalinguagem.

Dress You Up, composição de Andrea La Russo e Peggy Stanziaele, é uma canção bastante polêmica e por conta das insinuações sexuais, foi alvo de protesto do público mais ortodoxo. Metáfora que mescla moda, sexo e desejo, a faixa é bastante dançante e empolgante, tendo força nos vocais de apoio e guitarras. Angel, composição de Madonna e Stephen Bray, traz uma letra sobre uma mulher que se apaixona pelo anjo que a salvou em determinada situação.

Love Don’t Live Here Anymore é a faixa romântica cover da canção de 1978, de Rose Ryce, adornada por guitarras acústicas e cordas synth (correntes que causam vibrações no diafragma de caixas de som).  Into The Groove, grande sucesso por conta do filme Procura-se Susan Desesperadamente entrou no álbum em edições posteriores, como faixa bônus, hit típico para as pistas de dança. O álbum ainda tem Over and Over, Stay e Pretender, menos conhecidas, bem como menos interessantes que as citadas faixas anteriormente, as principais responsáveis pelo sucesso de Like a Virgin.

Controverso como todos os trabalhos da artista, o álbum é uma referência da cultura dos anos 1980, tendo atravessado tranquilamente as gerações e mantido a sua relevância depois de três décadas de seu lançamento. Era o surgimento da Madonna questionadora e ambígua que habitaria outras produções igualmente importantes não só por questões musicais e industriais, mas também pelos debates sobre a presença feminina na cultura pop, um terreno que sabemos, sempre foi da supremacia masculina.

Aumenta: Like a Virgin.
Diminui: Stay.

Like a Virgin
Artista: Madonna
País: Estados Unidos.
Elenco: 12 de novembro de 1984.
Gravadora: Warner Bros.
Estilo: Pop, dance popnew wave.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.