Crítica | Lili Marlene (1981)

hannaschygulla lili marlene fassbinder

estrelas 4

Filmado em inglês para atender à demanda de distribuição nos Estados Unidos (o longa chegou a ser submetido à Academia, mas não foi indicado ao Oscar) e posteriormente dublado em alemão, Lili Marlene (1981) é considerado o mais “frio e impessoal” olhar de Fassbinder para a Alemanha no período da II Guerra Mundial. Por focar-se basicamente no andamento da guerra, a película é apartada, em conceito narrativo, da Trilogia da Alemanha Ocidental, com quem possui grandiosas semelhanças, apesar de se passar no período histórico anterior.

Baseado na autobiografia de Lale Andersen, a verdadeira Lili Marlene, o filme tem as características centrais das mulheres retratadas por Fassbinder em Maria Braun, Lola e Veronika Voss e traz uma grande mudança estética, vinda com a entrada de Xaver Schwarzenberger para o time do diretor, realizando a direção de fotografia com suas características principais: pontos de luz que cintilam, forte contraste de cores, diversidade emocional para as paletas predominantes — padrão oposto à diversidade dramática de Michael Ballhaus, o fotógrafo anterior e recorrente de Fassbinder, que até chegou trabalhar em algumas cenas de Lili Marlene — e filtros de suavização.

Juntas, essas similaridades de Lili Marlene com os filmes da Trilogia BRD* mais a série Berlin Alexanderplatz (1980) e um “novo modelo” visual transformam a obra em um ponto de ruptura dentro da própria Fase Histórica do cineasta. Percebam que a abordagem para a sociedade germânica e a representação da Alemanha na pele de uma mulher — Hanna Schygulla, mais uma vez excelente — é pontuada por um afastamento emocional do diretor no roteiro, a despeito de toda a carga emotiva vinda com o romance entre Lili “Willie” Marlene e o judeu-suíço Robert Mendelsson (Giancarlo Giannini). O tema é denso, recorrente na cinematografia do diretor desde Bolwieser – A Mulher do Chefe de Estação (1977), mas o tratamento é outro.

Há aqui algumas falhas no roteiro, mas isso não se aplica necessariamente à abordagem para o tema da guerra. O filme não é “menor” por ser frio. Fica clara a intenção de Fassbinder em se colocar à distância dos acontecimentos, algo que ele não faz na BRD. A ação dos judeus e até mesmo uma parte do tratamento dado ao sistema cultural nazista apresenta falhas de construção, mas nada muito absurdo. O que realmente incomoda no filme é a direção e montagem (em conjunto) da a sequência do front polonês, onde os soldados estão festejando em um cabaré após uma apresentação de Lili. A repetição anárquica dos planos, a não alteração do ângulo da câmera para além de um pseudo-plano/contra-plano e, para piorar, o fato da sequência ser demasiadamente longa são os principais erros de Fassbinder e os principais motivos para o filme não ser bem fechado.

Diante dos pontos apresentados, a ideia de que Lili Marlene é um “filme menor” até pode ser legítima para uma parte do público. E isso não é problema algum, afinal de contas, é uma interpretação da obra, mas o que não deve acontecer é dar máxima atenção esse aspecto pontual e se esquecer da elegância no recurso de ‘música-luxo-destruição’; da abordagem do romance em meio à guerra e os momentos anteriores e posteriores a ela; da forma como a mulher-Alemanha é representada e, principalmente, da exploração do domínio ideológico totalitarista que em termos culturais não era exatamente coeso, mas tinha uma colossal dominação sobre os cidadãos, tanto em vigilância quanto em controle e arregimentação. A ideia de que “não fazer parte não era uma opção” é marcante no texto.

Lili Marlene é o “elo perdido” entre Berlin Alexanderplatz e os filmes finais da Trilogia da Alemanha Ocidental. É um longa de bastidores, um olhar para a cultura de espetáculos nazista sem ter Goebbels em cena; um filme que mostra que uma música pode ser utilizada como enlevo de um regime e, ao mesmo tempo, ser considerada degradante pelo mesmo grupo; ou como uma mesma canção pode ser ouvida como memória positiva de um amor e também objeto de tortura. Duvido que alguém termine a sessão sem cantarolar os versos de Lili Marlene mentalmente.

* BRD: Bundesrepublik Deutschland (Alemanha Ocidental).

Lili Marlene (Lili Marleen) — Alemanha Ocidental, 1981
Direção: Rainer Werner Fassbinder
Roteiro: Rainer Werner Fassbinder, Manfred Purzer, Joshua Sinclair (baseado na obra de Lale Andersen).
Elenco: Hanna Schygulla, Giancarlo Giannini, Mel Ferrer, Karl-Heinz von Hassel, Erik Schumann, Hark Bohm, Gottfried John, Karin Baal, Christine Kaufmann, Udo Kier, Roger Fritz, Rainer Will, Raúl Gimenez, Adrian Hoven, Willy Harlander
Duração: 111 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.