Crítica | Lilo & Stitch (2002)

Primeiro dos dois lançamentos dos Estúdios Disney em 2002, Lilo & Stitch teve um histórico de produção típico dos filmes de “segundo escalão” do estúdio. O modelo, inaugurado por Dumbo, versa a completeza de um projeto pendente com recursos mais limitados do que o das tradicionais superproduções, partindo da filosofia da companhia de não desperdiçar trabalho e manter a presença de mercado, ainda que ao custo do pioneirismo técnico. Com o fim do Renascimento Disney e após amargar resultados financeiros tímidos para as primeiras empreitadas dos anos 2000, a produtora no momento atual investia pesado em Planeta do Tesouro, menina dos olhos da dupla de sucesso Ron Clements e John Musker, que demorou quase duas décadas para finalmente entrar em produção.

Sem ter que lidar com as altíssimas expectativas (e com toda a cobrança e interferências externas que delas advém) concentradas no “irmão mais velho”, Lilo & Stitch conseguiu não apenas um melhor retorno financeiro em comparação ao evento principal do ano, mas também se tornou provavelmente a produção mais memorável do estúdio ao longo da década em questão. Produzido inteiramente pelos estúdios de Orlando, responsáveis anteriormente por Mulan, a animação tem um de seus principais pontos fortes em comum com a adaptação do conto chinês: a liberdade criativa em relação aos parâmetros de produção da casa, resultando em uma identidade própria que o torna merecedor de seu destaque.

Fruto de uma ideia anteriormente engavetada do roteirista Chris Sanders para um livro infantil, a trama do filme traz um elenco de personagens adoráveis estrelando uma fusão inspirada entre comédia e ficção científica. Crédito para a Disney em ter bancado a aproximação com o sci-fi (nas duas produções de 2002!), apesar da recepção morna de Atlantis. Mesmo dando um tempo à ambientação fantasiosa e adotando uma estrutura incomum no panorama disneyiano até então, o núcleo narrativo de Lilo & Stitch traz muito bem costurados os pontos principais de qualquer conto de fadas de respeito: temas dramáticos universais, riqueza imagética e uma boa dose de heroísmo e redenção.

Se é verdade que o tema da família se faz presente desde Branca de Neve e os Sete Anões, a sensibilidade com que ele é abordado aqui é certamente menos comum. A relação conflituosa entre Lilo e Nani forma o coração dramático do filme, e prepara toda a abordagem de seus temas centrais sob ângulos precisos. Abordando de forma muito mais nuançada do que o que seria visto anos mais tarde no sucesso estrondoroso Frozen, o tema da irmandade ganha aqui centralidade na exploração das problemáticas familiares.

Após a perda dos pais em um desastre natural, Nani se vê forçada muito cedo e sob condições difíceis a assumir o papel de mãe de uma Lilo fragilizada pela perda. As discussões das duas, sempre realizadas de forma realística e envolvente, são sempre permeadas por momentos de amor sincero e estabelecem paralelos interessantes a respeito de suas personalidades. Nani falha como irmã-mãe na mesma medida em que Lilo falha como irmã-filha, e fica claro o quanto ambas se entendem por serem bastante parecidas. O problema é que Nani se vê em uma posição de maior responsabilidade, na qual não encontra espaço para ajudar Lilo com seus próprios desafios do momento, que envolvem lidar com a rejeição e com a própria agressividade.

Com a chegada de Stitch, a relação se encontra redobrada. Lilo nutre de cara muito carinho e sente-se motivada a proteger o estranho ser que caiu do céu, mas logo percebe que isso não é o bastante. É vendo no lado destruidor do “irmãozinho” Stitch um pouco da própria “maldade” que Lilo vai conseguindo compreender melhor o lado de Nani, e assim lidar melhor com seu próprio lado “monstruoso”. Esse núcleo temático é explorado de maneira sólida através de cenas muito bem montadas — a animação não aposta apenas no carisma óbvio e na adorabilidade estratosférica da dupla de protagonistas para sustentar a narrativa, garantindo excelentes diálogos e situações hilárias e dramáticas muito bem balanceadas e montadas ao longo de todo o filme.

Assim, temos aqui um exemplo em que o tema da família — ou ohana, pra ser mais preciso — surge de forma totalmente orgânica em relação ao desenvolvimento dos personagens e de seu enredo. É interessante pensarmos que, em comparação com outras animações Disney estreladas por personagens infantis, a “lição de moral” deste filme apareça mais como temática experienciada de forma espontânea do que na perspectiva um tanto maniqueísta das literais lições recebidas por Arthur e Mogli, por exemplo. A força da união “fora das normas” da nova família de Lilo exemplifica, sem recorrer à exposição, o significado do mote “ninguém é deixado para trás, ou esquecido”.

Essa exploração temática rica se dá sobre um pano de fundo bastante único, que garante à trama uma identidade audiovisual própria. Iniciando-se com uma sequência espacial de pura comédia sci-fi (pontuada com ótimas piadas à la Robert Holmes), somos levados diretamente ao Havaí — local improvável de queda do experimento 626. A ambientação havaiana é bem utilizada visualmente, com belos backgrounds ao estilo aquarelado (técnica rara nesse ponto da história do estúdio), além de pequenos detalhes a respeito da vida no local servindo à trama e nos informando mais sobre nossos personagens centrais.

Complementando a localidade inspirada está o uso das canções do grande ídolo de Lilo, Elvis Presley. Inseridas sempre em um contexto significativo, as canções fazem as vezes dos números musicais de forma divertida e inspirada, sendo que trazem inclusive faixas menos comuns do repertório faraônico do Rei para ilustrar de forma irreverente certos desenvolvimentos do roteiro. Chama atenção ainda o uso gratuito e pontual de vídeos em live-action e fotos reais contrapostas à animação, que ajudam a complementar os ares experimentais da película ao lado dos traços pouco convencionais e mais cartunescos, lembrando o êxito da produção anterior dos estúdios de Orlando.

Sucesso um tanto inusitado, Lilo & Stitch conseguiu deixar sua marca como talvez nenhum outro filme da Disney dos inconstantes anos 2000. Conquistando uma identidade própria através de pequenas experimentações bem acertadas, sem deixar jamais de evocar o “charme Disney”, trata-se de uma animação que tem excelência em todos os aspectos. Drama contundente, comédia hilária, sci-fi inspiradoa película traz de tudo um pouco e consegue, com isso, atingir um nível de apelo universal que faltou aos seus (ótimos e injustiçados) antecessores.

Lilo & Stitch (Idem, EUA – 2002)
Direção: Dean DeBlois, Chris Sanders
Roteiro: Chris Sanders, Dean DeBlois
Elenco (vozes originais): Daveigh Chase, Chris Sanders, Tia Carrere, David Ogden Stiers, Kevin McDonald, Ving Rhames, Zoe Caldwell, Jason Scott Lee, Kevin Michael Richardson, Susan Hegarty, Amy Hill
Duração: 85 min.

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.