Crítica | Lilyhammer – 3ª Temporada

estrelas 3,5

Na medida que a 3ª temporada de Lilyhammer progredia, comecei a ficar com a impressão que seria impossível a convergência dos assuntos apresentados. Afinal, começando no Rio de Janeiro, com um quase casamento entre Roar Lien (Steinar Sagen) com a brasileira Alex (Maria Joana Chiappetta, em sua primeira aparição na série), o envolvimento dele com o tráfico de drogas, a introdução de Tommy Mangano (Rhys Coiro), mafioso novaiorquino que vai procurar abrigo com a gangue de Frank Tagliano/Giovanni “Johnny” Henriksen (Steven van Zandt), o novo romance de Torgeir Lien (Steinar Sagen) com Birgitte (Ida Elise Broch), uma segurança da boate Flamingo, os problemas mentais de Torgeir oriundos desse relacionamento, em que passa a ver e agir como o gangster que matou na temporada anterior, uma gangue lituana, a volta do maluco Jan Johansen (Fridtjov Såheim) de seu exílio no Iraque, fraude em seguros, a nova gravidez de Sigrid (Marian Saastad Ottesen), pelo depravado do instrutor de natação de bebês e por aí vai.

É coisa demais para meros oito episódios, não?

No entanto, ainda que não à perfeição, a temporada consegue um fechamento razoavelmente satisfatório para a saga norueguesa do mafioso americano que perverte uma cidade inteira com seu “jeitinho”. Não houve ainda anúncio de renovação da série e a 3ª temporada funciona como um encerramento digno de uma série simpática e nada ambiciosa, que marcou o início da investida pesada da Netflix em produção própria (ainda que essa seja uma co-produção entre a televisão norueguesa NRK1 e a Netflix), conforme deixei claro em meus comentários sobre a 1ª temporada.

Muitos reclamarão de como o Rio de Janeiro é retratado no episódio de abertura da série, que repisa os já cansados estereótipos da cidade: samba, favela, criminalidade, corrupção. Primeiro, isso não é mentira (e sim, sou carioca). Segundo, Lilyhammer é sobre estereótipos. E eles começam com o próprio protagonista e continuam com a impressão dele sobre a Noruega, onde todos são certinhos, o governo é conhecido por sua justiça social e tudo funciona by the book. Assim, é perfeitamente esperado e aceitável que o Rio de Janeiro também seja visto por essa ótica padrão, já cansada até. Mas até que funciona aqui, pois o foco não é exatamente na cidade. A trama envolvendo Roar e Alex é forçada e está lá para dar ares novos à série, mas os roteiristas souberam usar os acontecimentos que vemos logo no início de maneria suficiente orgânica ao longo da temporada, com Alex viajando para a Noruega mais para o final, de maneira que esse aspecto não fica completamente jogado.

Mas as duas melhores sub-tramas são mesmo a chegada de Tommy na cidade e a “dupla personalidade” de Torgeir. Na primeira delas, quando imaginamos que Tommy será um novo braço direito para Johnny, a história dá uma guinada e um concorrente é criado, repetindo-se a guerra por territórios que é tão comum em filmes sobre a máfia. E a presença de mais um americano na história – o ator Rhys Coiro, que trabalhou em Entourage, cria uma nova e crível tensão ao universo nevado de Johnny, com boas repercussões pela temporada. Mas a dupla personalidade de Torgeir é desconcertante e hilária ao mesmo tempo. Ele se imagina como o criminoso britânico que ele matou na temporada anterior e essa característica gera bons momentos para o ator, que tem que lidar com a nova namorada, sua gravidez e a perspectiva de mudança de vida. Nada completamente fora do comum, mas o ator lida muito bem com as variações radicais de personalidade, sem nunca perder aquela cara de bobo que tão bem faz como o braço direito de Johnny. Além disso, seus momentos enlouquecidos também revelam a proximidade de Torgeir e Johnny, muito mais como amigos e irmãos do que como chefe e capanga.

A volta do irritante Jan Johansen, agora como muçulmano, é elemento essencial também à temporada. No entanto, nesse ponto, o que vemos na temporada é a repetição da estrutura de insanidade do personagem que já testemunhamos na 2ª temporada e nada novo é realmente acrescentado, com exceção, talvez, de minha crescente vontade de entrar pela TV para enforcá-lo (talvez a maior prova da eficácia da atuação de Fridtjov Såheim).

A temporada é divertida em seu todo e é fácil vê-la em binge watching (de uma sentada só, ou duas ou três…), apesar da profusão de novos assuntos. Não esperem, porém, resolução definitiva para cada uma das novas sub-tramas levantadas. Cada uma tem seu fim, uns mais satisfatórios que os outros, mas eles não são homogêneos e apenas um deles deixa eventual ponta solta para uma nova temporada (mas que, se não houver, não fará falta). Lilyhammer é divertimento descompromissado garantido.

Lilyhammer – 3ª Temporada (Noruega/Estados Unidos, 2014)
Direção: Simen Alsvik, Øystein Karlsen, Tuva Novotny, Steven Van Zandt
Roteiro: Eilif Skodvin, Anne Bjørnstad, Steven Van Zandt, Jadranko Mehic, Tomas H. Solli
Elenco: Steve Van Zandt, Marian Saastad Ottesen, Trond Fausa Aurvaag, Steinar Sagen, Mikael Aksnes-Pehrson, Fridtjov Saheim, Alan Ford, Paul Kaye, Jakob Oftebro, Maureen van Zandt, Tony Sirico, Bruce Springsteen, Rhys Coiro, Ida Elise Broch, Maria Joana Chiappetta, Michael Badalucco
Duração: 43 minutos (os sete primeiros episódios), 58 minutos (o oitavo episódio)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.