Crítica | Limbo

estrelas 4,5

Um dos jogos independentes mais famosos dos últimos tempos, Limbo é uma experiência simples em praticamente todos os seus aspectos. É nessa crueza do game que é possível enxergar seu grande mérito, sem qualquer algo a mais que tire do jogador o foco de seu cenário misterioso e história ainda mais sutil.

Controlando um garoto recém-acordado em uma floresta preta e branca com tons de cinza, o jogador não terá upgrades, grandes habilidades ou uma superinteligência para passar de cada obstáculo nessa atmosfera pesada e fria, característica do mundo apresentado. Descobrindo pouco a pouco os perigos do jogo, que vão desde aranhas gigantes às tentativas de assassinato boladas por outras crianças que rapidamente dão as caras, cabe somente ao controlador escapar da morte usando a esperteza em cada situação, o que consiste no desafio e diversão de Limbo: brincar com a física dos objetos em um game de plataforma.

Mas o quebra-cabeça desenvolvido calmamente durante o progresso do jogo não seria tão especial se não fosse sua combinação com a ambientação solitária do game, dando uma sensação de fragilidade ao protagonista ressaltada ainda mais por cada morte ocorrida nas diversas tentativas e erros que o jogador tem de passar. Afogado, trespassado, decapitado, Limbo não vem para dar explicações. Não busca, também, dar qualquer sentimento de urgência para o gamer, posto que cada passo pode resultar em uma armadilha mortal.

limbooo

A trilha sonora é quase inexistente, o que corrobora o aspecto de pesadelo do game – não em um sentido survival horror, mas mais como um sonho de abandono. A diversão é exatamente ouvir o som ambiente para olhar com cuidado e desconfiança de cada desafio que aparece ao pequeno garoto. Até por isso o game te dá poucas opções no controle, o que resulta em uma maior satisfação a cada situação superada.

Desafiador e direto, o poder de imersão vem naturalmente uma vez que os puzzles são acessíveis do começo ao fim, por mais que a segunda parte do game, com caráter mais industrial, complique um pouco mais o jogador e canse pela repetição dos objetos em cena. Caso se consiga passar de tal parte, o final é extremamente recompensador e abre uma brecha para interpretações das mais diversas, valendo um novo gameplay para melhor apreço dos detalhes colocados no plano de fundo e do fluxo de fases cuidadosamente e simbolicamente colocados.

A sensação intimista passada lembra Journey e Shadow Of The Colossus, mas aqui vem ao encontro de um caráter de torpor, constante assim como a fraqueza do garoto que personifica a sensação de perdição passada ao jogador. Apostando na sagacidade do jogador, em uma história não pronunciada e em uma estética peculiar, que lembra o noir, a Playdead acertou em cheio ao jogar o jogador no meio de um limbo, seja como morada das almas pagãs, para os cristãos, seja um mero estado de indecisão ou esquecimento.

Limbo
Desenvolvedor: Playdead
Lançamento: 21 de julho de 2010
Gênero: Plataforma, quebra-cabeça
Disponível para: Xbox 360, Xbox One, Ps3, Ps4, WiiU, PC, Android e iOS

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.