Crítica | Limite (1931)

estrelas 4

Lançado no dia 17 de maio de 1931, Limite foi o único filme dirigido e escrito por Mário Peixoto, cineasta que também tentou enveredar pelo campo da crítica de cinema brasileira. Com abordagem densa e imagens repletas de símbolos capazes de deixar os especialistas em semiótica diante de horas de interpretação, a obra é um dos maiores clássicos do cinema brasileiro, não apenas por seus aspectos formais, mas por sua trajetória singular no bojo da história do nosso cinema, uma indústria que durante muito tempo foi espelho dos anseios da produção hollywoodiana.

No filme, três pessoas (duas mulheres e um homem) estão à deriva em um barco, perplexos diante das suas complexas existências.  Eles recordam constantemente, através de recursos como o flashback, situações marcantes oriundas de suas respectivas memórias recentes, recordações que os levam a parar de remar e aceitar o provável destino, haja vista que os três haviam atingido o limite de suas existências.

Enquanto uma das mulheres do barco havia abandonado o casamento e o marido opressor, a outra havia escapado da prisão graças ao apoio de um carcereiro, mas encontra-se numa falta de liberdade simbólica, afinal, o vicioso ciclo de seu cotidiano profissional com costura é uma situação que a oprime constantemente. Nesse barco das desilusões ainda há espaço para um homem diante do sentimentalismo castrado, pois a mulher pelo qual se apaixonara é casada e se encontra num conflituoso problema de saúde.

Limite é uma obra sobre a angústia humana diante das suas limitações, principalmente no que diz respeito à fugacidade da vida, ao status perecível do ser humano. A produção retrata com vasto repertório simbólico a impotência da humanidade diante da natureza. Isso se torna bem representado através dos abutres do plano inicial, da constante algema (um símbolo máximo da prisão, o que por sua vez denota a ausência de liberdade) e das imagens que ao passo que são justapostas formam uma equação poética repleta de densos significados para o espectador.

Ao longo dos seus 120 minutos, temas como a passagem do tempo e a condução humana são colocados em reflexão, através de dois recursos temporais: a abordagem cronológica e a psicológica. Sendo assim, são tempos narrativos que dependem um do outro para a condução da proposta reflexiva a que o filme se propõe. O tempo, por sinal, é uma temática constante no filme, tendo na cena final (um relógio que afunda) um dos mais emblemáticos momentos de expressividade do cinema brasileiro. Sem exageros, caro leitor.

As filmagens na “semiótica” Mangaratiba também é um ponto sobre o filme que pede destaque: a câmera de Edgar Brasil, sob a direção de Mário Peixoto, registra o brejo, o lodo, a mata e as árvores retorcidas, bem como muros manchados e demais espaços da ambientação, numa interessante perspectiva realista à primeira vista, problematizada logo depois. Em suma: um digno representante do que se convencionou a chamar de Cinema de Poesia no campo da teoria do cinema.

Ainda na perspectiva da forma do filme, cabe ressaltar as interpretações do trio protagonista: sombrios e bastante expressivos, os personagens ganham vida através de performances que dão valor aos olhos e aos gestos, numa espécie de relação com o cinema de D. W. Griffith. A associação com o cineasta responsável por modelar uma espécie de padrão para o cinema moderno, entretanto, vai até este ponto, haja vista o caráter subversivo da narrativa proposta em Limite, longe dos padrões enquadrados pelo estadunidense.

O filme conseguiu sobreviver à passagem do tempo. Há poucos anos, Adriana Calcanhoto utilizou cenas do filme para projeção em um telão durante um de seus shows. Em 2015, a Associação Brasileira de Críticos de Cinema nomeou Limite como o Melhor Filme brasileiro de todos os tempos, numa lista de 100 títulos nacionais. No que tange ao reconhecimento estrangeiro, a produção foi selecionada por David Bowie como um dos dez filmes para encabeçar o High Line Festival, em 2007, mesmo ano em que a obra foi apresentada numa versão restaurada no Festival de Cannes.

Limite– Brasil, 1931.
Direção:  Mário Peixoto.
Roteiro: Mário Peixoto.
Elenco: Olga Breno, Tatiana Rey, Edgar Brasil, Carmen Santos, Raul Schnoor, Brutus Pedreira, Iolanda Bernardes.
Duração: 120 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.