Crítica | Língua – Vidas em Português

Língua, de Caetano Veloso, é um dos maiores clássicos da MPB. Em determinado trecho, o cantor questiona “o que quer e o que pode essa língua?”. Algum tempo depois, o cineasta Victor Lopes, também responsável pelo roteiro, escrito em parceria pela dupla formada com Ulysses Nadruz, parece tentar responder ao questionamento, por meio do documentário intitulado Língua – Vidas em Português, lançado em 2004 no Brasil. Victor Lopes, moçambicano radicado no Brasil há 25 anos, faz em sua produção uma radiografia do “português” ao redor do planeta, com análises de cunho político, sociológico e cultural, além de debates sobre interculturalidade e empréstimos linguísticos.

Concebida em 2001 entre as viagens realizadas por destinos diversos, dentre estes, Brasil, Moçambique, Índia, Portugal, Japão e França (Angola é citada, mas não é mostrada) a produção traz uma pesquisa bem fundamentada e poucas incongruências, perdoáveis quando listamos os entrevistados e seus discursos mais que autorizados para refletir sobre o assunto: “viver em língua portuguesa”.  Para tratar do assunto, desfilam pela tela os depoimentos de João Ubaldo Ribeiro, Martinho da Vila, Mia Couto, Grupo Madredeus, alguns anônimos importantes para o desenvolvimento das reflexões, em especial, um vendedor de balas que depende dos usos linguísticos para “sobreviver”, com os melhores momentos e “tiradas” dedicadas ao escritor José Saramago.

Para o escritor, famoso pelas obras-primas Ensaio Sobre a Cegueira, As Intermitências da Morte e Memorial de Aires, dentre outras, “não há língua portuguesa, mas línguas em português”. Ele afirma que “são pessoas que apesar de falar português, não falam a mesma língua”. O que Saramago aponta é que a língua em questão é um “corpo espalhado”, fruto do crescimento de um filho maior que o pai, isto é, Brasil (filho) e Portugal (pai). Canônico e “tradicional”, o escritor reclama que há atualmente um processo de involução linguística, pois os primeiros humanos usavam sons e grunhidos, mas a fala evolui. Então, por qual motivo, usamos cada vez mais as palavras na atualidade?

Dentre os demais depoimentos há a questão das ressonâncias da língua inglesa no português, tendo em vista a Índia também ter influências do tronco linguístico germânico. João Ubaldo Ribeiro aborda o tópico e comenta a presença de elementos próprios do inglês na sintaxe portuguesa. Martinho da Vila, músico popular gabaritado, tece opiniões valiosas sobre a unidade dos países lusófonos no que tange aos elementos da música, da gastronomia e da literatura. No geral, todos comentam sobre “falar e sonhar em português”, num documentário aberto ao público em geral, mas bem direcionado aos estudantes de Língua e Cultura, mesmo que os especialistas se debrucem diante do documentário para analisar as suas lacunas.

Ao longo dos 105 minutos, Língua – Vidas em Português deixa de lado o clássico recurso da narração para ganhar ritmo com uma montagem que privilegia apenas os testemunhos dos seus entrevistados que versam constantemente sobre a língua portuguesa pelo mundo, bem como a sua permanência em culturas diversas. Muito além do didatismo preguiçoso que muitas produções do gênero documentário aderem, principalmente no Brasil, Victor Lopes e sua equipe traçam retratos curiosos e ricos de detalhes ao adentrar em países de costumes diversos, mas unificados pela questão idiomática: todos, teoricamente, falam a “língua portuguesa”, mas como é que podemos discutir isso na prática?

Sob a direção de fotografia eficiente de Paulo Violeta, o documentário enquadra bem os seus personagens e capta as imagens ideais para compor o material adicional. Engraçado observar a referência ao poeta Fernando Pessoa, quando disse que “minha pátria é a língua portuguesa”, afirmação que renderia um ensaio repleto de outras reflexões adicionais sobre um tema tão vivo quanto a língua portuguesa: a identidade cultural e as relações linguísticas. Victor Lopes mergulha em um tema complexo e amplo, fruto de longas relações históricas.

Como sabemos, a língua portuguesa evoluiu na Península Ibérica e se apresenta como resultado da evolução do latim vulgar dos colonos romanos que viviam no século III A.C. Os interesses por estudos humanísticos, em especial, os filológicos, animados com o advento da imprensa, determinaram o a criação das regras de normatização da nossa língua. Como curiosidade, o Cancioneiro Geral de Garcia Resende é tido como o marco do fim do português arcaico e o começo de uma nova era para a versátil língua portuguesa. Com ressonâncias de outros idiomas menores, recebeu elementos dos árabes, expandiu pelo mundo com a “globalização” das Grandes Navegações e sofreu Acordos Ortográficos ao longo da história mais recente. São discussões que não estão no documentário, mas latentes nas bases do material, pois foram os primeiros passos para o que se discute ao longo dos depoimentos e imagens contemplativas de momentos culturais plurais pelas locações.

Aos realizadores, uma observação plena e totalmente deslocada de polêmica: por qual motivo o Brasil, um país de dimensões continentais, ficou relegado apenas ao Rio de Janeiro? Será que não dava para ampliar as possibilidades e radiografar outras regiões? É nesse trecho que o documentário peca e reforça os estereótipos estrangeiros do “Rio” como metonímia do Brasil. No entanto, o restante do material traz abordagens tão interessantes que nós perdoamos essa “pequena” falha. Cabe aos brasileiros continuar a reflexão e trazer o filme para a nossa realidade, ampliando assim, as suas possibilidades narrativas.

Língua – Vidas em Português — Brasil/Moçambique/Portugal/França/Japão, 2004.
Direção: Victor Lopes
Roteiro: Ulysses Nadruz, Victor Lopes
Elenco: João Ubaldo Ribeiro, Martinho da Vila, Mia Couto, José Saramago, Victor Lopes
Duração: 105 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.