Crítica | Linha Mortal

Questionamentos sobre o que há além da vida são inerentes ao ser humano, sejam eles incentivados por religiões ou pelo simples medo de morrer. Mas o que aconteceria se existisse uma forma de testemunhar o que acontece após morrermos? Essa é a premissa básica de Linha Mortal, obra de Joel Schumacher, que, em 2017, ganhou um remake. Ao invés de focar no que nos aguarda, porém, o longa-metragem opta por demonstrar os efeitos de tal experiência de ressurreição nos indivíduos que desbravaram esse território desconhecido.

Logo nos primeiros minutos vemos Nelson (Kiefer Sutherland), um estudante de medicina contemplando o horizonte, dizendo “hoje é um bom dia para morrer”. Pouco depois descobrimos que ele é o realizador de um projeto com o objetivo de descobrir o que há após a morte. Para isso, ele conta com a ajuda de outros estudantes, Rachel Mannus (Julia Roberts), David Labraccio (Kevin Bacon), Joe Hurley (William Baldwin) e Randy Steckle (Oliver Platt), tomos com temores acerca do experimento, mas que, após o sucesso, se submetem à experiência. O que não esperavam é que estranhos efeitos colaterais, incluindo visões e mudança na personalidade, tomariam conta de suas vidas.

O que mais nos chama a atenção em Linha Mortal é a sua atmosfera. Quase todo filmado à noite, a obra ganha um ar nítido de mistério, que dialoga com a ilegalidade desse projeto dos jovens, além, é claro, do paralelo com esse caminho desconhecido a ser trilhado. Com uso constante de iluminação azulada, Schumacher garante um toque de surrealismo à obra, como se tudo fosse um grande sonho ou pesadelo, mantendo a tensão como constante durante toda a duração do filme, gerando sempre a dúvida sobre o que iremos ver a seguir.

O grande problema é que essa tensão acaba perdendo sua força com o passar do tempo, em razão da repetitividade do roteiro, que insiste em repetir a mesma sequência de morte e ressurreição, na integridade, com todos os integrantes desse grupo. Trata-se da exata mesma fórmula aparecendo inúmeras vezes, sempre deixando a dúvida se irão conseguir trazer a pessoa de volta, algo que funciona nas duas primeiras vezes, mas, após essas, acaba nos cansando, trazendo até certa previsibilidade ao texto, por mais que a dúvida sobre o sucesso da operação seja, ao menos, um pouco mantida.

Felizmente, os esforços do elenco mais do que compensam esse fator, todos entregando o máximo de si. É importante notar como a decupagem de Schumacher valoriza tais interpretações, optando por constantes closes, que, também, permitem maior aproximação do espectador com os personagens, além de transmitir a sensação de alucinação nas sequências correspondentes. Dessa forma, por mais que o roteiro prejudique nossa imersão em determinados momentos, nosso envolvimento com a obra é mantida quase inabalada, já que efetivamente nos importamos com cada um dos indivíduos retratados em tela, mesmo considerando a crescente agressividade de Nelson, muito bem explorada por Sutherland.

Pode causar certo desapontamento, pois, a ausência de uma abordagem mais ligada às respostas providas pelo experimento. Ainda que lide exatamente com isso em sua premissa, o roteiro, como já dito antes, foca no psicológico de seus personagens, muitas vezes ressaltando a competitividade entre esses jovens. Sentimos a falta de ousadia por parte do texto ao se esquivar de tais questões, mas o resultado final é satisfatório, sendo capaz de se manter atraente, mesmo com os problemas sobre os quais já falamos, que prejudicam, mas não estragam o longa-metragem por completo.

Linha Mortal, portanto, configura-se como um belo thriller, que sabe mergulhar na mente de seus personagens, nos colocando ao lado deles em suas estranhas e misteriosas visões. Determinados deslizes afetam nosso aproveitamento geral, especialmente a repetitividade de algumas sequências, mas nada que comprometa por completo nossa experiência. No fim, a obra de Joel Schumacher é capaz de entreter, enquanto mantém sua tensão em um bom nível, fazendo com que permaneçamos engajados com a sua narrativa.

Linha Mortal (Flatliners) — EUA, 1990
Direção:
 Joel Schumacher
Roteiro: Peter Filardi
Elenco: Kiefer Sutherland, Kevin Bacon, Julia Roberts, William Baldwin, Oliver Platt, Kimberly Scott,  Joshua Rudoy
Duração: 115 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.