Crítica | Lion – Uma Jornada para Casa

estrelas 3

Existem dois filmes em Lion – Uma Jornada para Casa. O primeiro, passado na Índia e estrelando Sunny Pawar no papel de Saroo, uma criança de cinco anos, é muito mais interessante do que o segundo, passado na Austrália e estrelando Dev Patel no mesmo papel, vinte anos depois. O resultado final é um tanto quanto desequilibrado, ainda que o début diretorial de Garth Davis em longas de ficção seja competente em criar emoção nos momentos certos.

Baseado em autobiografia de Saroo Brierley, o filme conta sua história a partir de momentos antes do grande e angustiante ponto de virada em sua vida, quando ele se perde de seu venerado irmão mais velho Guddu (Abhishek Bharate) em uma estação de trem e não consegue mais voltar para casa. Há ecos de Quem Quer Ser um Milionário? aqui, sem dúvidas, mas somente porque Dev Patel é a estrela dos dois e porque ambos lidam com crianças desfavorecidas na Índia. Mas as semelhanças param aí, já que a pegada do roteiro de Luke Davies (Life – Um Retrato de James Dean) é menos fabulesca e esperançosa neste primeiro terço da fita. A câmera de Davis faz bom uso do trabalho do roteirista ao funcionar como um olhar verdadeiro sobre as mazelas das milhares de crianças que todos os anos se separam dos pais por lá, lidando ao mesmo tempo com a impressionante diversidade cultural e linguística desse multifacetado país e, claro, a maldade e a bondade humanas, com o jovem e simpaticíssimo Sunny Pawar cativando corações com seu misto de inocência e inteligência que já revela, em sua tenra idade, o potencial de um grande ator.

Mas os desafios do pequeno Saroo logo acabam, com a obra deixando de abordar com mais vagar o que ele passou e o sistema governamental de recolhimento de crianças de rua. O roteiro nos entrega apenas pinceladas e deixa muito nas entrelinhas, pecando ao não mergulhar de verdade nos mecanismos nefastos colocados em funcionamento nas variadas e curtas fases por que passa Saroo perdido. Com isso, ele acaba sendo adotado por Sue (Nicole Kidman) e John Brierley (David Wenham) e levado para a Austrália, onde sua vida muda completamente mais uma vez. Vemos um pouco desse início com os Brierley, inclusive a adoção de uma segunda criança indiana pelo casal e o filme, então, corta.

E, basicamente, com isso, recomeça. Vinte anos depois, Saroo, já como Dev Patel, começa a se interessar em achar os traços de sua vida pregressa e, aos poucos, usando o Google Earth (sim, o nome é repetido diversas vezes e determinadas sequências funcionam como tutoriais, quase como se estivéssemos em uma peça publicitária do software) e o pouco de memória que tem do seu passado, o rapaz vai montando um quebra-cabeças.

No entanto, toda a urgência que Davis construíra no começo desaparece de uma hora para outra e momentos quase aleatórios da nova vida de um Saroo já adulto e perfeitamente adaptado à sua nova realidade são salpicados aqui e ali, sem que sejamos efetivamente convencidos de sua busca, mesmo quando ela se torna uma obsessão. Talvez justamente por não parar em um momento temporal único, com o roteiro funcionando como um desfile de “melhores momentos”, a fragmentação da fita acaba acontecendo. A entrada de Rooney Mara, como Lucy, namorada de Saroo, parece burocrática e banal. Mesmo a relação de Saroo com seus pais adotivos não ganha foco e muito se deve à escolha de se pular 20 anos no futuro, o que não permite que nos indentifiquemos com os coadjuvantes ou até mesmo com Saroo adulto da forma como nos aproximamos de Saroo jovem. E é um desperdício, pois pelo menos a personagem Sue Brierley dá a impressão de ser alguém com profundidade a ser explorada, algo que ocorre em somente em uma sequência reveladora e franca com Saroo que finalmente abre espaço para Kidman mostrar a que veio e justificar sua indicação ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante.

Dev Patel, por outro lado, não encontra seu personagem e não justifica sua indicação na categoria Melhor Ator Coadjuvante (o que não faz sentido, pois ele vive o personagem central…). Perdido entre um sofrimento que parece falso e vindo do nada e uma vida em família que não ressona de verdade, o ator tem dificuldade para mostrar emoção genuína. No entanto, a culpa não é dele apenas e sim também justamente do roteiro que toma atalhos narrativos com saltos temporais e da direção de Davis que não traz urgência ou drama verdadeiro depois que a sequência sobre o passado do jovem aos cinco anos acaba e somos transportados, por intermédio da transição de uma fotografia de Greg Fraser (normalmente ótimo, vide seu trabalho recente em Rogue One) com paleta de cores marrom, remetendo à sujeira e solidão, a um ambiente quase asséptico, predominantemente branco, que cria estranhamento e denota um maniqueísmo bobo que, apesar de funcional à história e às mudanças de tom da narrativa, não alcança seu resultado. Aliás, essa questão é ainda amplificada pela trilha sonora de Dustin O’Halloran e Volker Bertelmann predominantemente com cordas e piano, cujo objetivo é ditar como o espectador deve se sentir, ainda que ela funcione muito bem como obra independente do filme.

Sem dúvida, há emoção em Lion – Uma Jornada para Casa, mas há, também, um claro conflito entre a urgência e a cadência de seu primeiro terço e a inconstância e os pulos temporais do restante. É, porém, perfeitamente possível ver o ótimo filme que havia por trás das escolhas equivocadas de Garth Davis e Luke Davies. Do jeito que ficou, Lion muito provavelmente não ficará na memória do espectador por muito tempo depois dos créditos – e das eventuais lágrimas – terminarem de rolar.

Lion – Uma jornada para casa (Lion, Austrália – 2016)
Direção: Garth Davis
Roteiro: Luke Davies (baseado em biografia de Saroo Brierley)
Elenco: Dev Patel, Nicole Kidman, David Wenham, Rooney Mara, Divian Ladwa, Sunny Pawar, Abhishek Bharate, Priyanka Bose, Khushi Solanki, Shankar Nisode, Tannishtha Chatterjee, Nawazuddin Siddiqui,  Riddhi Sen, Koushik Sen,  Rita Boy, Udayshankar Pal, Deepti Naval
Duração: 118 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.