Crítica | Livrai-nos do Mal (2014)

estrelas 2

Scott Derrickson, cotado para diretor do filme do Doutor Estranho, mais uma vez se vira para o gênero que possui mais experiência: o terror. Após dirigir o interessante O Exorcismo de Emily Rose e o bem-sucedido (ainda que de menor qualidade) A Entidade, ele decide se apoiar em um relato do Sargento Ralph Sarchie, da polícia de Nova York, para compor sua nova empreitada no horror. Derrickson, então, suga diversos elementos de gêneros distintos e mesmo subgêneros do terror para construir essa história que nada mais se trata de um homem se reconciliando com si mesmo.

Dado início a projeção, vemos um grupo de soldados no Iraque encontrando uma espécie de tumba ou centro ritualístico no subterrâneo. O espectador imediatamente irá remeter a O Exorcista e a figura do demônio sumério. Scott sabidamente abre esse diálogo, já se apoiando nos ombros de gigantes. Nossa perspectiva, então, muda para alguns poucos anos mais tarde, quando passamos a acompanhar o Sgt. Ralph Sarchie (Eric Bana) e seu parceiro, Butler (Joel McHale), investigando uma série de casos fora do comum. Logo descobrem que esses acontecimentos estranhos estão ligados e envolvem forças ocultas, que não acreditam até os momentos finais. Para quebrar esse ceticismo, temos a figura do Padre Mendoza (Édgar Ramírez) que age à paisana (como ele próprio diz) e mais chega a parecer uma espécie de John Constantine mais comportado.

Livrai-nos do Mal funciona bem em seu começo, ao adotar uma narrativa de filmes policiais. A dinâmica entre Sarchie e Butler nos traz constantes risadas e chegando a nos fazer questionar o porquê da obra não ter caminhado por uma via que explorasse melhor essa relação. Na metade da projeção o parceiro é praticamente deixado de lado e Joel McHale faz falta com sua retratação quase caricata do personagem. Eric Bana, por outro lado, nos coloca em um impasse. Por mais que sua atuação nos entretenha, há um certo ar de artificialidade nela, característica que paira sobre o filme como uma força invisível e que demora para conseguirmos identificar, afinal, o que há de errado. Esse mesmo fator se estende para a interação entre ele e Mendoza, que soa forçosamente inserido na trama somente para garantir um lado mais espiritual ao longa-metragem.

Peço aqui que não me entendam mal – as angústias de Ralph, que diretamente afetam sua relação com Deus, são um ponto positivo da obra – o grande problema está no pouco tempo que o filme se dispõe para investir em tal lado. No fim, tanto o lado policial quanto o espiritual caem por terra e ficam longe de atingir seus objetivos. A impressão que nos é deixada é que ambos os roteiristas, Scott Derrickson e Paul Harris, simplesmente decidiram mudar o tom da obra de uma hora para outra, como se desistissem de seu projeto inicial. No meio dessa confusão, o terror fica perdido, não criando aquele clima de medo tão necessário ao gênero. O resumo são alguns pequenos sustos provocados por inserts acompanhados de estouros sonoros.

Neste ponto entramos em um dos aspectos positivos do longa, sua mixagem de som – ponto crucial a qualquer filme de horror, mas que, na maioria dos casos, falha miseravelmente. Muito da projeção é construído através da audição e o diretor sabe dar o devido espaço narrativo para ela. Sejam ruídos, passos ou músicas não diegéticas, a composição final ocorre de forma orgânica e, por mais que apele para os velhos tons mais altos, acaba tendo êxito onde a imagem não consegue: na construção do tom. Porém não me confundam: o filme, como um todo, ainda não é bem-sucedido em sua proposta, mas o som certamente mascara esse grande deslize.

Por mais que a fotografia não consiga construir o terror, ela ainda nos traz escolhas interessantes de enquadramentos, que trabalham em cima do já citado foco intimista no protagonista. Há uma presença constante de closes nos rostos tanto nos momentos de tensão quanto em diálogos, ilustrando bem um dos objetivos que o filme almejava: a construção do psicológico de Sarchie. Houvesse um investimento maior no drama, teríamos uma obra consideravelmente melhor, podendo trabalhar nos medos interiores do sargento ao invés da presença de uma força demoníaca de fato.

Livrai-nos do Mal, então, tenta ser uma amálgama de diversos gêneros sem conseguir, de fato, ser bem-sucedido em qualquer um deles, criando um distinto problema de ritmo que tira nossa imersão logo na metade da projeção. Trata-se de um roteiro com inúmeros aspectos artificiais e mal trabalhados em conjunto com uma fotografia alien a esse tipo de filme. No fim, o que salva a obra da total desgraça é seu começo e o ótimo trabalho sonoro nele empregado. Se o desejo for assistir um bom filme de terror, porém, o espectador deve passar longe.

Livrai-nos do Mal (Deliver Us from Evil – EUA, 2014)
Direção:
Scott Derrickson
Roteiro: Scott Derrickson, Paul Harris (baseado no livro de Ralph Sarchie e Lisa Collier Cool)
Elenco: Eric Bana, Édgar Ramírez, Olivia Munn, Joel McHale, Sean Harris, Dorian Missick, Chris Coy, Mike Houston, Lulu Wilson
Duração: 118 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.