Crítica | Livrai-nos do Mal (2014)

Scott Derrickson acertou em cheio ao assumir a direção de O Exorcismo de Emily Rose, único filme posterior ao clássico O Exorcista capaz de criar uma atmosfera sombria e assustadora, bem como exercer o magnetismo com a plateia diante do desenvolvimento dramático aliado ao processo de ambientação com toques de horror, isso, claro, no que tange ao subgênero “filmes de exorcismo”. A sua incursão no tema em 2014, por sua vez, já não foi tão eficiente, pois Livrai-nos do Mal até constroi um clima acolhedor, mas a indecisão narrativa acaba por dispersar as nossas atenções, tendo como resultado apenas mais um filme mediano de terror mediano.

A narrativa, inspirada no livro Beware the Night, de Ralph Sarchie, escrito com base em suas memórias, teve roteiro assinado por Paul Harris Boardman. Desenvolvida no Bronx, local conhecido por sua má reputação desde os anos 1960 e 1970, a produção que segundo o produtor Jerry Bruckheimer, une Serpico ao “Exorcista”, retrata os desafios encontrados pelo tenente da polícia de Nova Iorque, Ralph Sarchie (Eric Bana), envolvido numa série de crimes que envolvem elementos demoníacos.

Como todo esquema narrativo industrial ligado ao gênero, Sarchie primeiro vai demonstrar desapego com os assuntos sobrenaturais, mas ao passo que a narrativa avança, começa a acreditar na possibilidade de existência do “demoníaco”. Tendo ao seu lado o padre Mendonza (Edgar Ramirez), um religioso com passado cheio de irregularidades, o representante policial sai em busca de respostas e acaba por encontrar presenças nada agradáveis em meio a sua trajetória, com um demônio que domina o inglês, o latim e o espanhol.

Há algumas questões pontuais que atrapalham o enredo, dentre elas, a forçada inserção de humor em cenas que poderiam funcionar sem necessariamente apelar para o alivio cômico. Livrai-nos do Mal abre com um clima de mistério e horror bastante eficiente, promissor, mas logo percebemos ser o sobrenatural apenas um elemento adicional na trama de investigação policial. Com características que nos remete aos tensos Possuídos, de 1998, e Cure, de 1997, a trama também é tributária do clássico com Linda Blair ao iniciar o seu percurso no Iraque, com soldados estadunidenses atacado por uma força misteriosa durante uma missão, deslocando a sua narrativa logo depois para os Estados Unidos.

Como personagem, Sarchie funciona bem. Eric Bana consegue dar credibilidade ao papel de um homem que acredita ser Satanás o “maior opressor que pode existir”, dentre outras generalizações. Membro do Departamento de Polícia de Nova Iorque por 18 anos, tendo se aposentado em 2004 com o título de sargento, Sarchie ficou conhecido como um agente contra as forças demoníacas, estudioso da demonologia e interessado em manter a “ordem” não apenas no plano material, mas também no espiritual.   Serviu por bastante tempo na 46º Delegacia do Bronx, tendo estudado as manifestações demoníacas desde mais jovem, quando teve acesso ao livro Satan’s Harvest, um estudo de caso do casal Ed e Lorraine Warren.

Quando teve acesso ao material, Sarchie descobriu que morava há alguns metros de Joe Forrester, um dos investigadores da dupla de demonologistas. Não hesitou em ligar para Lorraine e logo mais estava assinando a fundação de uma filial da New England Societ for Psychic Research. A experiência o preparou para tratar com mais foco os problemas enfrentados anos depois, enquanto policial que observou a degradação moral, social e espiritual de um pequeno trecho de uma das cidades mais agitadas do mundo. Pena que a direção de Derrickson, tendo como guia, provavelmente, os produtores opinativos e incovenientes, caminha por uma via repleta de imprecisões, algo que leva o filme para um caminho menos interessante do que poderia ter seguido.

O desenvolvimento narrativo com alguns problemas, por sua vez, não anula a experiência. É louvável o trabalho de maquiagem de Mike Marino, numa busca por exposição do medo por meio de uma perspectiva mais realista e menos excessiva. Em sua opinião, a maquiagem funciona como uma espécie de escultura em movimento, oriunda, nesta caso, de um processo que girava em torno de nove horas de duração, um notável desafio de produção que merece ser reconhecido. Seu trabalho é tão interessante quanto a direção de fotografia de Scott Kevan, com algumas cenas tensas, escuras e sombrias, bem trabalhadas em consonância com o designer de produção de Bob Shaw. Destaque para o trecho no zoológico, inquietante e bem conduzido.

Livrai-nos do Mal (Deliver Us from Evil – EUA, 2014)
Direção:
Scott Derrickson
Roteiro: Scott Derrickson, Paul Harris (baseado no livro de Ralph Sarchie e Lisa Collier Cool)
Elenco: Eric Bana, Édgar Ramírez, Olivia Munn, Joel McHale, Sean Harris, Dorian Missick, Chris Coy, Mike Houston, Lulu Wilson
Duração: 118 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.