Crítica | LJA: Ano Um

estrelas 4

Após o Universo DC ter sido reformulado com a Crise nas Infinitas Terras, os heróis também precisaram passar pela prova de fogo das novas origens, tendo suas histórias recontadas, já sob os auspícios da Nova Era dos quadrinhos. A Liga da Justiça demorou um pouco para ter o seu “novo começo” mostrado nas HQs, mas isto veio em 1998, quando o Homem-Enciclopédia-dos-Quadrinhos-vulgo-Mark Waid, ao lado do episódico Brian Augustyn, receberam a incumbência de trazer à luz o primeiro ano da Liga nesta nova fase, o que eles fizeram com base na icônica história da Era de Prata, A Origem da Liga da Justiça (LJA #9, lançada em 1962), onde os heróis se viram diante de uma série de invasores apellaxianos, juntaram forças para vencer a ameaça e… bem, vocês sabem o que aconteceu em seguida. Importante lembrar que dez anos antes Peter David já tinha escrito A Origem Secreta da Liga da Justiça, também acenando para um “começo de ano um”.

Na Liga pós-Crise, porém, as coisas são um tantinho diferentes. Sem a Trindade em cena, Waid e Augustyn colocaram um outro time nuclear para a equipe, que conhecemos já nas primeiras páginas, ainda em seus primeiros dias de reunião. Indecisos, um pouco amedrontados e colocando em perspectiva suas vidas heroicas individuais junto à atividade que há pouco tiverem juntos, Aquaman (Orin), Canário Negro (Dinah Laurel Lance), Flash (Barry Allen), Lanterna Verde (Hal Jordan) e Caçador de Marte (J’onn J’onzz) se questionam se devem ou não formalizar uma parceria, algo que se colocará como uma necessidade planetária para eles em pouco tempo. Mesmo que não quisessem, esses heróis precisariam unir forças para vencer os seres de Apellax.

O roteiro adota uma narrativa de ação em andamento mas não foge da obrigação de nos mostrar o princípio do grupo. É verdade que este primeiro time fundador já se conhece, mas isso é bastante recente e eles ainda não sabem verdadeiramente quem são. Aquaman — que a maioria dos leitores reclamam de sua representação nessa história, algo que não vejo problema algum, acho-o representado de maneira adequada, divertida e deslocada na medida certa para alguém que passou praticamente a vida inteira isolado no mar — está aprendendo o inglês e a medir o volume de sua voz na superfície (excelente via de adaptação!). Ajax começa a sua busca pessoal para descobrir quem são os seus colegas e certificar-se de que não corre perigo algum, elemento de confiança e aparente traição que será bem utilizada pelo roteiro no decorrer da trama.

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Caçador de Marte tentando quebrar o gelo fazendo uma boa piada marciana.

Ao se encontrarem e trabalharem juntos pela primeira vez, esses heróis encontraram “seus iguais”, tendo a oportunidade de conviver com outros que possuem habilidades e vontade de usar isso para o bem da humanidade, como eles. É uma boa relação de convivência que podemos aplicar também para qualquer humano que se sinta deslocado e que, de repente, encontra pessoas como ele, capazes de compreendê-lo, principalmente quando se põe em cena laços pessoais e aceitação ou convivência entre iguais, uma espécie de identidade ou representação que é importante para nós desde que criamos a civilização.

Também fortemente amparado pelo ideal de legado — a ligação da Canário Negro com a Sociedade da Justiça, via sua mãe, a Canário da Era de Ouro, é o motor inicial disso –, o enredo faz do primeiro ano da Liga e da batalha contra os apellaxianos um grande evento, algo que vai desde o conhecimento público de quem são esses novos heróis, até a organização espacial e tecnológica deles (financiados por um benfeitor que quer permanecer anônimo), culminando com a grande fase de batalhas que envolvem diversos outros grupos da DC, agora cientes de que existe essa “nova força” guiando e servindo de exemplo para a comunidade, algo que a tríade Batman, Superman e Mulher-Maravilha fariam apenas com a sua presença no time.

É com emoção e grande nostalgia que vemos aparecer, trocar algumas palavras e lutar, sob ordens da Liga, a Sociedade da Justiça, os Homens Metálicos, Demônios do Mar, Sete Soldados da Vitória, Desafiadores do Desconhecido, Guardiões Globais, Combatentes da Liberdade, Patrulha do Destino e Falcões Negros, isso sem contar outros heróis da galeria de “esquecidos”, “desconhecidos” ou “escanteados” da DC, além de outros que estavam em plena atividade, tinham suas histórias próprias, mas não faziam parte de nenhuma equipe. Aliada à bela arte de Barry Kitson, que emula bem a dinâmica de movimentos e alguns cenários de final dos anos 60 nas histórias da Liga, trazendo-nos excelentes quadros com inúmeros heróis e vilões, a história tem uma reta final épica, um pouco exagerada e muitas vezes fugindo do objetivo central de destaque mas, ainda assim, mostrando bem o que deveria mostrar, ou seja, o estabelecimento moral e de força dessa nova equipe.

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A Liga da Justiça se estabelece como a nova face dos heróis na América.

LJA: Ano Um é uma história que olha para o passado da DC, para os diversos grupos heroicos que já passaram pela editora e honra o que eles deixaram para as equipes futuras, dando a oportunidade de lutarem ao lado dos recém-chegados e de perceberem que estão sendo substituídos por gente muito boa. O roteiro acaba caindo em sua própria mania de grandeza na reta final e aqui e ali a representação da Canário Negro parece um pouco forçada (sem contar que grandes medalhões da DC sem uma real participação aqui acabam fazendo falta), mas nada que tire o divertimento da leitura e nos dê aquilo que a história se propôs desde o início, algo que faz muito bem. Ao terminar a saga, nós percebemos que a Liga teve, de fato, um ano bem movimentado. E este era só o começo de uma vida inteira de grandes movimentações para esta equipe.

JLA: Year One (1998)
No Brasil: Os Melhores do Mundo #21 a 25 (Editora Abril, 1999) e DC Comics – Coleção de Graphic Novels #9 e 10 (Eaglemoss, 2016)
Roteiro: Mark Waid, Brian Augustyn (a edição #11 é escrita apenas por Mark Waid)
Arte: Barry Kitson
Arte-final: Barry Kitson (#1 a 3), Michael Bair (#4 a 12), John Stokes (#6)
Cores: Pat Garrahy
Letras: Ken Lopez
Capas: Barry Kitson
Editoria: Peter Tomasi
196 páginas (2 encadernados da Eaglemoss)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.