Crítica | LJA: Terra 2

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estrelas 3

Existem momentos na história dos quadrinhos que ninguém jamais irá se esquecer. Na DC Comics, dois desses momentos são a edição #123 da revista Flash (Flash de Dois Mundos), publicada em 1961 e a icônica Crise nas Infinitas Terras (1985 – 1986), que desfez o conceito de múltiplas Terras criado na Era de Prata. Mas como a nona arte parece sempre visitada por uma crise de eterno retorno, algumas mortes, decisões editoriais, destinos de personagens, planetas e Universos não são necessariamente fixos. Alguns voltam com grande estrondo (vide a saga Convergência, de 2015, que desfez a Crise nas Infinitas Terras) e outros voltam apenas como um exercício interessante de reintrodução, como esta LJA: Terra 2, lançada em 2000 nos Estados Unidos.

Escrita por Grant Morrison e ilustrada pelo extremamente criativo e detalhista Frank Quitely, esta aventura coloca em cena a Liga da Justiça da “nossa Terra” (aqui, pelo ponto de vista do Lex Luthor do bem, chamada de “Terra 2”) contra o Sindicato do Crime da Amerika. Cada grupo habita uma planeta diferente (explorarei isso no conceito da história mais adiante) e todos os valores que podemos imaginar, desde princípios morais e éticos até clichês simples ligados ao heroísmo ou eventos históricos e condições sociais são vistos, exercidos, pensados e aceitos de maneiras diferentes nas duas Terras.

A Liga aqui é formada por Aquaman (Orin, com a sua mão esquerda substituída por um arpão, após ter sido comida por piranhas), Batman, Flash (Wally West), Lanterna Verde (Kyle Rayner), Superman, Caçador de Marte e Mulher-Maravilha. Em uma rápida e excelente mobilização no início da história vemos o grupo resgatando um avião que está para cair e é durante o resgate que eles descobrem duas coisas intrigantes: o coração de todos os passageiros ali está do lado direito do peito; e todos estão mortos. Como é típico dos roteiros de Morrison, pequenas coisas, mesmo as mais insignificantes, podem se tornar motivos para grandes eventos galáticos e confesso que pelo menos no início dessa Terra 2, o autor planta muito bem o mistério e consegue a nossa atenção, principalmente quando as contrapartes dos nossos heróis começam a aparecer. O SCA, que estreou nas histórias da Liga durante a Era de Prata, em Crise na Terra-3, é formado por Relâmpago (Johnny Quick), Coruja (Thomas Wayne Jr.), Anel Energético (Harold Jordan), Supermulher (Lois Lane) e Ultraman (Clark Kent), além de ter uma espécie de consultoria tecnológica de Brainiac.

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O Sindicato do Crime da Amerika se reúne.

O que o leitor precisa entender aqui é a essência por trás desses dois planetas Terras que Morrison apresenta na aventura. Vejam, o Multiverso não existe mais desde a Crise lá nos anos 80 e estamos 15 anos antes do retorno do Multiverso DC em Convergência. Para contornar isso, Morrison resolveu inventar uma desculpa curiosa, já utilizada antes na editora mas não nessa mostragem de realidades. Não estamos falando de um Multiverso, mas sim de um UNIVERSO DE MATÉRIA e um UNIVERSO DE ANTIMATÉRIA. Então, para quem reclama que o escocês careca jogou fora “a base cronológica da DC” (como se isso realmente existisse, com tanto retcon que dá até dor de cabeça…), simplesmente não prestou atenção no que é literalmente exposto em diálogos do Sindicato e nas falas do Luthor do bem para a Liga. Nesse contexto, fica claro por que “Terra 2” é, na verdade, a nossa Terra. A perspectiva é diferente. No frigir dos ovos, é uma desculpa para se livrar das correntes editoriais e fazer algo “diferente”.

Nessa separação de lugares, o leitor acompanha uma verdadeira luta do bem contra o mal protagonizada por indivíduos de Universos com valores diferentes que visitam lugares funcionando fora do que eles imaginam. Do início até o miolo da aventura isso é muito bem explorado, mas na reta final, nos espantamos ao ver que o Sindicato do Crime, que consegue uma passagem grátis para a nossa Terra, se resigna a aceitar a bondade como padrão (diferente da Liga, que mesmo sabendo que a Terra de antimatéria tem o mal em foco, não aceita isso como resultado final, fomentando, mesmo que de maneira utópica, a esperança); e principalmente, temos que lidar com a estranha participação de Brainiac como um tipo de arquiteto vilanesco adormecido, computando dados para depois se aproveitar deles e evoluir, uma ideia isoladamente excelente mas que cria um “ponto B” no roteiro que não tem tempo de ser desenvolvido, é apenas revelado como um motor oculto para o problema e solucionado rapidamente, o que é bastante irritante.

Frank Quitely cria aqui mais um excelente trabalho, especialmente na representação da Terra de antimatéria. Seus detalhes, as belas cenas de luta e a movimentação dos heróis e vilões enchem os olhos, assim como o aplaudível trabalho de cores de Laura Martin, que cria atmosferas sólidas e austeras para os dois mundos, destacando o conteúdo, em uma palavra, triste, que marca esse encontro de Universos.

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A Liga da Justiça consertando o caos deixado pelo Sindicato do Crime na nossa Terra.

Divertida até a sua reta final e com decisões questionáveis do autor para nos mostrar o motor do problema e sua resolução, LJA: Terra 2 é uma saga de espelhos distorcidos dos nossos heróis. A trama é irresistível justamente pela oposição de valores e, mesmo que não tenha exatamente uma conclusão tão boa quanto sua premissa, não deixa de ser algo que vale muito a pena conhecer.

LJA: Terra 2 (JLA: Earth-2) — EUA, 2000
No Brasil:
Coleção Eaglemoss #13 (2016)
Roteiro: Grant Morrison
Arte: Frank Quitely
Cores: Laura Martin
Letras: Ken Lopez
Capa: Frank Quitely
Editoria: Dan Raspler, Tony Bedard
152 páginas (encadernado Eaglemoss)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.