Crítica | Lobo e Ovelha (2016)

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estrelas 2,5

Segundo longa-metragem da diretora irano-afegã Shahrbanoo Sadat, Lobo e Ovelha (2016) é baseados em diários não publicados de moradores de uma vila do Afeganistão. Os atores são habitantes locais e o drama, filmado no Tadjiquistão, é, na verdade, um flash do cotidiano dessas famílias, onde o pastoreio é realizado pelas crianças e onde lobos e ovelhas são igualmente importantes para o local, servindo como parte do folclore — de onde vem o realismo mágico da obra, um tanto deslocado do todo, mas muito interessante isoladamente — e o olhar etnográfico, realista, documental (e interferidor) diante dos impasses da pequena população das montanhas.

Diariamente, as crianças sobem e descem as montanhas, separados em grupos de meninos e meninas, para apascentar cabras e ovelhas para os adultos. Todos ali são responsáveis diretos pelo que acontece aos animais e punidos física e moralmente se algum deles é atacado por um lobo. Discussões sobre o pagamento ou não dos devidos honorários de serviço (não há moeda, o comércio e as dívidas são pagas com animais ou derivados como leite e ovos) são feitas e entendemos que mesmo na penúria e simplicidade locais há muito da dinâmica de compra e venda ou remuneração de mão de obra que conhecemos tão bem em ambientes urbanos do Ocidente.

Mas o filme não é uma crítica ou denúncia social. Tampouco toma como vergonha a marca do conservadorismo, das tradições definidoras para os papeis de homens e mulheres nessa sociedade, desde cedo ensinadas e logo atuando como se estivessem em preparação para um futuro obrigatório; os meninos falando de dominar meninas; as meninas brincando de casamento. Evidente que esta é uma versão afegã/tadjique dos papeis nucleares que também se vê na origem das nossas sociedades, mas o isolamento da vila, a pobreza e a literal falta de oportunidade ou conhecimento do exterior torna tudo ainda mais chocante.

Lobo e Ovelha funciona muito mais em seu nível estético (tal como outro que traz muitas similaridades temáticas, produzido no mesmo ano, mas em outra parte do mundo, Mimosas) do que narrativo. A geografia das locações, as belas tomadas do pastoreio pelas montanhas, alguns momentos de muito lirismo entre as crianças, ou mesmo imagens chocantes como a das primeiras sequências e a de um garoto que não tem muito sucesso ao ensinar um amigo a manusear a funda, marcam mais do que a lenta repetição dos dias, onde é difícil definir a passagem do tempo — às vezes atribuímos isto a erros de montagem, mas é apenas a forma que a direção encontrou para nos transmitir a sensação de recepção automática das coisas — e onde pouca ou nenhuma novidade é vista.

A lenda do Lobo Kashmir é representada pela diretora em três momentos, a primeira pela narração de um ancião e as outras duas pela aparição do lobo e da fada verde e nua, caminhando por entre as casas durante a noite. Como disse no início, o realismo mágico que vem com essa inclusão do folclore local fica solta na obra, até porque tem apenas uma interação palpável com um dos personagens. Isso não tira o impacto das cenas e nem sua beleza, mas não impede que sejam um excesso desnecessário.

A parte mais fraca da obra é mesmo o seu final, que não se decide entre metáfora ou imitação da realidade. A decisão dos aldeões diante da ameaça pode, claro, servir de exemplo para o que acontece constantemente na região central ou médio-oriental da Ásia, mas a forma abrupta com que aparece e a abertura do roteiro para a nossa conclusão não são exatamente boas escolhas. Fica-nos, portanto, a boa experiência visual e a crônica em docu-drama de mais este lugar do mundo onde as situações e as condições são ainda mais impactantes pela clara dificuldade de escolha e mudança em sua estrutura.

Lobo e Ovelha (Wolf and Sheep) – Dinamarca, França, Suécia, Afeganistão, 2016
Direção: Shahrbanoo Sadat
Roteiro: Shahrbanoo Sadat
Elenco: Habitantes de uma vila afegã
Duração: 86 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.