Crítica | Logan

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estrelas 4

  • Leia, aqui, nossa crítica com spoilers e, aqui, nosso Entenda Melhor com referências e easter-eggs.

Com 17 anos desde sua primeira aparição nos cinemas, nenhum ator na História do Cinema teve uma carreira como a de Hugh Jackman e seu Wolverine, personagem mais icônico e adorado dos X-Men. Contabilizando 9 filmes entre participações coadjuvantes, filmes solo e cameos em filmes da equipe, o Carcaju sempre esteve muito bem representado pelo ator australiano, que agora prepara-se para um adeus com Logan, segunda grande aposta da Marvel-Fox em um filme do gênero para maiores de 18 anos. Com isso, o terceiro filme solo do Wolverine é seu melhor e mais profundo, e um dos filmes de quadrinhos mais únicos e fascinantes que tivemos nos últimos anos.

Assim como a maioria dos filmes do universo, continuidade não é algo importante no início da trama – aliás, sempre digo que esse universo cinematográfico mutante deveria ser encarada como uma antologia, da mesma forma como alguns encaram a quadrilogia Alien. Dessa vez, estamos em 2029 e encontramos Logan em sua pior fase: seu fator de cura está debilitado, uma tosse nunca deixa de perturbá-lo, abusa do álcool e trabalha como motorista de limusine em um mundo onde os mutantes estão praticamente extintos – e os X-Men, destruídos e adaptados para quadrinhos. A grande devoção de Logan enquanto junta trocados entre serviços é cuidar de Charles Xavier (Patrick Stewart), que sofre de demência e apresenta um risco para todos ao seu redor graças ao descontrole de seu poder. Tudo ganha um novo significado quando a menina Laura (Dafne Keen) cruza o caminho de Logan, com uma enfermeira mexicana implorando para que ele a leve em segurança dos mercenários que a perseguem.

É um filme que se difere de outras adaptações de quadrinhos e do selo Marvel de muitas maneiras. Temos um retrato melancólico e debilitado de um universo outrora tão colorido, soando como uma mistura esperta entre Filhos da Esperança (adicione também o fato de que “nenhum mutante é nascido há anos) e Mad Max, com o visual próximo de um western e que concentre boa parte de sua ação na estrada e na fronteira entre os EUA e México. O fato de termos uma censura mais alta também contribui para uma experiência mais selvagem e perigosa, com membros sendo decepados e sangue jorrando a todo o instante, consequência natural de um protagonista cuja principal habilidade reside em garras de metal, claro – o próprio fato de vermos sangue entre as garras já nos permite sentir melhor como a arma fere as mãos do protagonista. Wolverine e todos os personagens xingam, brigam e parecem completamente perdidos nesse futuro que é quase apocalíptico, e que o designer de produção François Audoy é inteligente ao equilibrar seus aspectos mais decadentes (a fronteira, a cúpula de Xavier) com aspectos definitivamente contemporâneos, vide o hotel cassino que abriga o grupo em certo momento da projeção.

Quando Laura entra no jogo, temos uma das melhores experiências do ano. A garotinha claro, é a mutante X-23, uma feroz assassina que também possui garras (um par em cada mão, além da nitidamente desconfortável presença de uma em cada pé) e saiu do mesmo programa Arma X que criou o esqueleto de adamantium do Wolverine. A partir daí, o roteiro de Scott Frank, Michael Green e do diretor James Mangold transforma-se em um road movie como poucos, com o cansado Logan, a silenciosa Laura e o debilitado Xavier formando o trio mais incomum na situação mais peculiar possível; há momentos de ternura, como quando são acolhidos por uma família na estrada para jantar, e de um bem-vindo senso de humor – a relação entre Logan e Xavier nunca esteve tão dinâmica e paternal, e o inesperado senso de proteção com o protagonista e a jovem Laura é outro ponto fortíssimo, com a estreante Dafne Keen sendo capaz de dominar todas as cenas em que aparece, e o fato de conseguir fazê-lo quando passa 70% do filme calada – atuando apenas com seus olhos e a expressão curiosa/ameaçadora – é impressionante.

E ainda mais incrível é ver o desempenho da pequenina durante as brutais cenas de ação. Mangold mantém uma mise-en-scène clara e engenhosa, com a pequena mutante usando seus oponentes para escalar, rodopiar e até dar estrelas enquanto os fatia com suas pequenas garras, e confesso que a imagem de uma criança sendo atingida por um arpão no peito é de uma brutalidade que raramente vimos no gênero até então. Em compensação, ver Laura e Logan lutando juntos contra um grupo de mercenários é algo simplesmente inebriante, e confesso que ficarei muito chateado se não voltar a ver a Laura de Keen em futuros projetos. A violência nunca é gratuita ou super exagerada, servindo bem ao propósito de criar um mundo hostil e demonstrar as consequências de lutas claramente perigosas.

Os antagonistas também funcionam, em parte. Boyd Holbrook merece créditos por elevar um vilão claramente genérico e sem personalidade, fornecendo a Donald Pierce uma presença ameaçadora e imprevisível, algo também beneficiado por sua prótese mecânica altamente chamativa (reparem em como as pontas dos dedos trazem pedaços de pele), e todo o conceito do grupo de caçadores apelidados de Carniceiros funciona como bons vilões para o trio protagonista. O problema reside quando o roteiro aprofunda seu conceito, e acabamos com a insurgência de um novo antagonista que parece completamente deslocado do universo realista e sujo que vinha dominando a primeira metade da projeção. É um oponente que oferece uma óbvia metáfora sobre os conflitos de Logan, mas que surge de forma incômoda e artificial, juntando-se ao Deadpool de X-Men Origens: Wolverine e o Samurai de Prata de Wolverine: Imortal como o “grupo de antagonistas infelizes” dos filmes solo do Carcaju.

Há ainda mais algumas decisões questionáveis do trio roteirista, especialmente no terceiro ato. E se mencionei que o estabilishment do universo lembrava Mad Max, temos um núcleo apresentado na metade do longa que é praticamente uma mistura de Mad Max: Além da Cúpula do Trovão e… Hook: A Volta do Capitão Gancho, e que também destoam do restante do tom da projeção. Aliás, outro demérito reside na bizarra exposição para apresentar tais personagens, que se dá através de um registro de celular surpreendentemente elaborado: em teoria, apenas um relato da enfermeira mexicana falando com a câmera, mas converte-se entre narrações em off, edições e até inserts. É no mínimo confuso qual exatamente era a intenção de Mangold com tal sequência, e o resultado acaba provocando essa exposição artificial.

Mas os problemas ficam por aí. Há muito mais qualidades do que defeitos em Logan, e este com certeza é o filme que Hugh Jackman sempre quis fazer. Sua performance tem mais nuances do que nunca e o personagem ganha um aprofundamento e uma despedida que certamente vai emocionar aqueles que acompanham sua jornada desde o ano 2000. E mais do que isso, representa também mais um marco significativo em termos de adaptações de quadrinhos, sendo eficiente em evitar fórmulas e transcender gêneros.

Logan — EUA, 2017
Direção: James Mangold
Roteiro: James Mangold, Michael Green e Scott Frank
Elenco: Hugh Jackman, Patrick Stewart, Boyd Holbrook, Stephan Merchant, Dafne Keen, Elizabeth Rodriguez, Richard E. Grant
Duração: 135 min.

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.