Crítica | Lola

Sempre entendi perfeitamente o raciocínio econômico por trás de um remake, especialmente quando a obra original não é americana. O filme original foi, provavelmente, bem recebido em seu país de origem, comprovando que a fórmula funciona, mas, não sendo em inglês e considerando que os americanos têm certos problemas com legendas e não gostam de dublagem (nesse segundo ponto, devo admitir, eles têm toda razão), sua refilmagem com atores mais conhecidos falando em inglês tem, na teoria, significativas chances de sucesso. O que me incomoda profundamente é a quantidade de filmes que sofrem esse processo, demonstrando certo esgotamento das ideias e, também, um grande temor pelo “desconhecido” ou o não testado.

Lola é a mais recente refilmagem americana de sucesso não americano. Em 2008, a diretora Lisa Azuelos co-escreveu e capitaneou o filme francês Rindo à Toa estrelando Sophie Marceau e Christa Theret. Apesar de suas limitações, o filme fez sucesso em seu país de origem e outros, ao atualizar o batido drama adolescente com o uso das redes sociais e outros aspectos da chamada “vida moderna”.

Com a boa recepção de Rindo à Toa, a mesma diretora foi recrutada para fazer Lola, refilmagem de seu próprio filme, mas, dessa vez, com Demi Moore no lugar de Marceau e Miley Cyrus (a Hannah Montana da televisão) no lugar de Theret.

No entanto, o resultado não é muito mais do que patético.

Primeiro, o filme foi “vendido” como sendo uma modernização da relação entre jovens. Balela. A obra nada mais é do que uma série de situações amorosas envolvendo adolescentes e a mãe de uma delas, com alguns momentos de trocas de mensagens por ferramenta que lembra o Facebook. No entanto, esses momentos são, literalmente, forçados goela abaixo do espectador, pois não só eles são de pouquíssima originalidade (o fantástico seriado Sherlock da BBC faz esse trabalho de forma muito mais inteligente) como não adiantam em nada a trama. A diretora  apenas os coloca em meio ao diálogos (ou monólogos) do filme para dar ares modernosos. Acaba soando como se estivesse já atrasado, antigo.

Segundo, Lola representa mal os adolescentes de hoje. Miley Cyrus é Lola, uma menina de 15 anos que acabou de terminar com o namorado e fica cheia de dúvidas se ama ou não seu melhor amigo Kyle (Douglas Booth). Paralelamente, sua mãe, Anne (Demi Moore), divorciada, não sabe se volta para o ex-marido (os dois estão namorando novamente) ou se parte para algo completamente novo, representado pelo policial que conhece às portas do tribunal de Chicago onde foi para resolver um problema com uma multa. A tentativa de refletir os problemas de Lola em Anne e vice-versa é uma pífia forma de mostrar que as questões que afligem os jovens também podem afligir os mais velhos. Acontece que o mundo verdadeiro parece ser bem diferente do que esse que é retratado no filme e Lola e Anne acabam sendo meras repetições ou reiterações das mesmas situações.

Quero crer que os jovens de hoje têm mais personalidade do que Lola e seus amigos todos juntos, que só pensam em… O que eles pensam mesmo? Sexo? Não fica muito claro se é isso mesmo. Viagens? Humm, o assunto é tratado, mas muito por alto, sem qualquer tentativa de exploração sistemática. Roupas de grife? Apenas em um momento isso é tratado, envolvendo uma bolsa. Algo mais profundo? Realmente não dá para dizer. É quase como se a diretora estivesse completamente perdida e em crise de meia-idade ou de identidade.

Em terceiro, temos as situações clichê aos borbotões. Aliás, nada no filme se resolve sem clichê. É a menina que não sabe se beijar seu melhor amigo pode arruinar o relacionamento, a outra que é assediada pelo nerd do grupo mas que secretamente gosta dele, o pai divorciado galinha, o pai que não gosta de música e proíbe o filme de tocar e por aí vai. Não há problema em fazer uso de situações lugar-comum no cinema. O que não se pode aceitar é o abuso sistemático disso, tornando o filme quase que um repositório de ideias batidas para filmes de adolescente.

No quesito atuações, Demi Moore (ainda bela, mas toda retocada) não prejudica , mas, também, o papel não exige muito. Assim como Lola, Anne não tem muito mais na cabeça do que seus casos amorosos, um cigarrinho de maconha e seus filhos. É como se o diretor gritasse ”ação” e Moore só fizesse aquilo que faz todo dia.

Miley Cyrus tem um ar de autenticidade que até me encanta. Longe de ter se rendido à imagens pasteurizadas de beleza, a menina aparece da maneira como nos acostumamos a vê-la em seu finado seriado: dentucinha, meio bagunçada e com as longas madeixas despenteadas. Só com isso ela já ganha pontos em meu livro. No entanto, no quesito atuação, ainda é um peixe fora d’água que não consegue ultrapassar a barreira dos beicinhos e sorrisos exagerados. Ela ainda tem muito que aprender e torço para que consiga.

Thomas Jane, que faz o pai de Lola, Allen, parece não ter conseguido sair de seu papel em O Justiceiro(aliás, alguém viu o sensacional curta do personagem que ele produziu?). Atua como amante e pai (carinhoso até) da mesma forma que metralha bandidos no meio da rua. Muito estranho.

O resto do elenco só faz figuração, inclusive Ashley Hinshaw no papel da melhor amiga de Lola, Emily. A menina é um poço de olhares lânguidos para o professor bonitão que dá vergonha de ver, especialmente depois do desenvolvimento do personagem em seu roteiro.

A trilha sonora, porém, além da autenticidade de Cyrus, é um ponto alto do filme. Reúne clássicos eternos como os dos Rolling Stones e músicas mais atuais em um mix alegre e que muito eficientemente comenta o que está acontecendo no filme.

Para resumir no estilo Twitter: Lola é um filme que idiotiza os adolescentes, com direção ineficaz e artificial e atuações não mais do que mornas. Fiquem com o original francês mesmo que consegue ser bem melhor do que essa cópia barata.

Lola (LOL, Estados Unidos, 2012)
Direção: Lisa Azuelos
Roteiro: Lisa Azuelos e Kamir Aïnouz
Elenco: Miley Cyrus, Douglas Booth, Ashley Greene, Adam G. Sevani, Jean-Luc  Bilodeau, Demi Moore, Gina Gershon, Ashley Hinshaw, Thomas Jane, Austin Nichols, Jay Hernandez, George Finn, Michele Burke, Marlo Thomas
Duração: 97 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.