Crítica | Looking – 1X02: Looking For Uncut

estrelas 4Talvez devido a expectativa gerada em torno de si mesma, o episódio piloto de Looking acabou deixando um gosto de frustração para muitos espectadores. Engana-se, entretanto, quem acredita que os baixos números de audiência do primeiro episódio refletem a qualidade da série, pois Looking acertou justamente ao retratar, com o máximo de simplicidade (mas sem perder sua ambição) o cotidiano de três amigos gays na cidade de São Francisco, cada qual com seus próprios conflitos e que, através da maneira sincera com que suas personas nos foram apresentadas, geravam uma identificação imediata com o público. Afinal, uma masturbação ligeira com um estranho num parque, quem nunca?

Este segundo episódio, Looking for Uncut, nos traz um roteiro ainda mais consistente, delineando muito bem os rumos que a série poderá tomar daqui por diante, mas sem exibir demais, o que já é suficiente para atiçar e manter nossa curiosidade. E se a simplicidade dominava cada frame do primeiro capítulo, aqui temos uma narrativa que injeta traços de complexidade aos seus personagens, que ganham ares ainda mais realistas.

E para uma série que ainda se encontra em seus primeiros passos, surpreende a liberdade com que o roteiro visa discutir sobre diversos detalhes envolvendo questões como o amor desejado, o amor perdido e até mesmo a distância que existe entre este sentimento e o desejo pelo desejo, ou seja, a promiscuidade. Com diálogos e cenas mais ousadas, o episódio é inteligente ao trazer diversos elementos sexuais (e a questão do ménage no episódio anterior acaba sendo inevitavelmente abordada) para discutir sobre o que é o amor e o que é o tesão, e qual a linha tênue que separa estes dois polos. Entre esses momentos, impossível não parar e refletir: o que é sexo e o que é a real intimidade entre um casal?

Isto é visto, principalmente, entre Agustín e seu namorado Frank, com o qual finalmente decide morar junto. De maneira sutil, pequenos dilemas já começam a ser inseridos dentro da convivência conjunta entre estes dois personagens, duas figuras de personalidades distintas, e que certamente renderão muito pano pra manga sobre a questão da convivência entre duas pessoas.

E tal qual qualquer ser humano, independente de sua idade, Dom e seu bigodinho charmoso enfrentam a velha questão do amor do passado, aquela paixão nunca esquecida e que, apesar dos nossos esforços, sempre insistem em nos acompanhar. Interessante um personagem de meia idade (numa forma de quebrar a visão equivocada que nossa sociedade possui sobre pessoas nesse ponto da vida) ser humanizado desta forma, mostrando-se vulnerável e desesperado em superar os problemas que este relacionamento lhe trouxe (inclusive financeiros). Meu único receio é que este plot tenha sido encerrado cedo mais, uma vez que ainda poderia ser trabalhado de maneira mais completa.

Patrick segue sendo o “fator charme” da série, muito devido a interpretação de Jonathan Groff, extremamente despojado e natural em cena. Patrick é o personagem tragicômico, imaturo e inconsequente na hora de se jogar em um relacionamento. Rimos do nervosismo de Patrick ao estragar o momento caliente entre ele e o mexicano chamado Richie, mas rimos justamente ao percebemos que também somos nós, ali, naquela situação. Afinal, quem nunca passou por um momento de constrangimento semelhante, que atire a primeira pedra.

Ao contrário do que muitos possam afirmar por aí, Looking vai além da vulgaridade. Mais do que isso, usa justamente deste artifício para trazer um toque mais verossímil aos seus personagens, que entre risos e frustrações, nos permitem enxergar a nós mesmos na tela. Prova de que tudo vai além da nossa sexualidade ou do apegado ao sexo em si: todos somos humanos, e todos passamos pelas mesmas provações.

Looking – 1X02: Looking For Uncut
Showrunner: Michael Lannan
Roteiro: Andrew Raigh
Direção: Andrew Raigh
Elenco: Jonathah Groff, Frankie J. Alvarez, Murray Bartlett, Scott Bakula, Russell Tovey, OT Fagbenle, Lei Andrew, Raúl Castillo, Lauren Weedman
Duração: 28 min

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.