Crítica | Looking – 1X05: Looking for the Future

estrelas 5“Porra, vou gozar! Não quero gozar ainda.” – Murray, Patrick

Na sequência onde Patrick solta essa frase, onde vemos recebendo um sexo oral intenso de Richie, Looking chega aos “finalmentes” no que se refere a algumas reclamações do público sobre a falta de momentos mais quentes no seriado. A cena, extremamente provocativa sem ser explicita, é finalizada de maneira aparentemente vulgar, com Patrick ejaculando diretamente na boca de Richie. Mas o roteiro esperto escapa da armadilha de parecer vulgar apenas por ser vulgar, e emenda neste ato uma discussão pertinente sobre os perigos envolvendo as doenças sexualmente transmissíveis assustam as pessoas sexualmente ativas, sejam gays ou héteros. Mais do que isso, o próprio ato do sexo e o momento intimo que representa entre duas pessoas se faz presente durante quase todo o episódio, mas sem soar como um elemento gratuito.

Por quase 30 minutos, Looking for the Future é apenas sobre Patrick e Richie. Após o reencontro entre ambos no episódio anterior, fica claro que um certo período de tempo passou na vida dos personagens, o que pode ser atestado na interação mais natural e apaixonada entre o casal. Ao se apoiar num único arco narrativo, o episódio corria o sério risco se não conseguir se sustentar até o final, mas o contrário acontece: é um episódio provocante, mas também leve e gostoso de se acompanhar, além de abordar diversas questões pertinentes de maneira correta em tão pouco tempo de duração.

De narrativa muito bem conduzida, fotografia excepcional, diálogos deliciosamente naturais e interpretações idem, o episódio é todo sobre a segunda chance que surge entre Richie e Patrick, o no que o aproveitamento desta segunda chance irá acarretar para os dois. De personalidades completamente opostas, o roteiro é competente ao aprofundar as nuances de cada um: Richie é alguém que gosta de experimentar, descobrir coisas novas, sem medo do desconhecido. Já Patrick é uma pessoa de mais pudores, mas também mais extrovertido, e também medroso. A já comentada cena do sexo oral/ejaculação é um exemplo disto, levando também em consideração o diálogo que se segue entre os dois numa lanchonete após este ato. Descobrimos algumas coisas sobre o passado de Richie, e compreendemos o medo de Paddy em relação à AIDS e outras doenças sexualmente transmissíveis. A identificação é imediata.

Desta forma, o episódio choca seu público com revelações e atos inesperados entre os dois personagens, mas faz uso deste choque como uma forma de alerta ao público, independente de serem gays ou heteros. A discussão vai além, e o roteiro também aproveita para abordar a questão do “quem é quem na cama?”. Paddy afirma que possui relutância em ser passivo apenas por imaginar o que seus pais pensariam se ele fosse passivo. Richie responde: Essas coisas são termos para pessoas de internet”. Afinal, todos não temos a liberdade de sermos o que quisermos na cama? O episódio põe em xeque a existência destes termos (passivo e ativo) de maneira inteligente e provando que a existência de tais rótulos estão aí apenas para nos obrigar a assumir uma posição fixa para a sociedade. E é como eu sempre costumo dizer: flexibilidade é o que há.

De fato, o episódio é tão formidável justamente por saber explorar estes temas/discussões e ao mesmo tempo dissecar seus personagens, permitindo que conheçamo-los mais um pouco e, assim, nos tornemos mais íntimos daquelas figuras na tela. Assim, Looking segue crescendo em maturidade e nos deixando cada vez mais ansiosos para os episódios que virão.

– Você comeu abacaxi ontem?

– Por que?

– Eu senti o gosto no seu…

– Oh, para com isso.

Looking – 1X05: Looking for the Future
Showrunner: Michael Lanna
Roteiro: Andrew Raigh
Direção: Andrew Raigh
Elenco: Jonathan Groff, Raúl Castillo
Duração: 27 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.