Crítica | Looney Tunes: De Volta à Ação

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Depois do sucesso de público e o fracasso de crítica que foi Space Jam: O Jogo do Século, muitas pessoas ficaram se perguntando se algum dia teríamos mais dos Looney Tunes em outra adaptação cinematográfica, talvez uma mais engraçada, desta vez com personalidade e um roteiro. Quem sabe, se der, um diretor competente para deixar tudo melhor. A resposta veio com Looney Tunes: De Volta à Ação.

Menos conhecido mas facilmente superior ao filme onde os personagens animados interagem com Michael Jordan, De volta à ação é muito mais charmoso e fiel ao material original. Agora a premissa é mais envolvente do que apenas uma partida de basquete, é um longa interessado em brincar com a dinâmica da dupla mais famosa e divertida do estúdio. Depois de incontáveis aventuras juntos, Patolino decide se separar de Pernalonga, seu companheiro de cena. Sentindo-se negligenciado e inconformado com o status quo do estúdio, prefere se demitir ao ter que dividir um set de filmagens com o coelho descarado novamente, tendo como condição para retorno uma presença maior nas próximas produções. Ele sai da forma mais dramática possível enquanto evita as investidas da produtora Kate (Jenna Elfman), que tenta mudar a cabeça do pato. Na correria acaba esbarrando no segurança Dj Drake, interpretado por um Brendan Fraser ainda aclamado pela franquia A Múmia. E através da magia do cinema entramos em uma road trip com Pernalonga, Patolino, Drake e Kate (Nem todos no mesmo carro, não necessariamente na mesma direção) à procura de um artefato sagrado encontrado com a ajuda do pai de DJ, um ator canastrão escondendo sua verdadeira profissão de agente secreto. Se parece que pulei algum detalhe, é porque o filme também te deixa um pouco perdido às vezes. Mas pra falar a verdade é melhor você assistir e ver com seus próprios olhos, vai entender na hora o que estou dizendo.

Além de Fraser e Jenna, o filme está cheio de participações especiais, mas de bons atores que realmente parecem tentar criar um personagem minimamente bom. Steve Martin usa sua habilidade para comédia e dá vida ao vilão do filme, o responsável pelas indústrias ACME, Mr. Chairman. Extravagante e caricato, pode ser um incômodo para alguns, mas se você aceita o tom mais descompromissado do filme, até acha ele divertido. Timothy Dalton usa todo o seu charme e graça natural como o pai de DJ, Damien Drake, dando sua melhor imitação de um agente 007. Joan Cusack e Heather Locklear fazem uma ponta e tem até espaço para o Roger Corman dirigindo uma versão “baixo orçamento” de Batman nos corredores do estúdio. Vale destacar a cena de Matthew Lillard interpretando o Salsicha da versão cinematográfica de Scooby Doo sendo criticado pela versão animada do personagem. São mundos colidindo! (Quem pegar essa referência de Seinfeld vem falar comigo, vamos tomar um café).

O maior erro do elenco está infelizmente nos protagonistas. Fraser e Jenna não tem química nenhuma, e recentemente descobri que uma das cenas deletadas do filme brincava com esse exato problema. Talvez tenha sido retirado na esperança de alguém ficar convencido com a atuação dos dois? Nunca vamos saber. Esse aspecto de auto crítica e consciência do filme é surpreendentemente um dos pontos positivos, rendendo as melhores piadas, como a cena do restaurante, onde Pernalonga descobre como seu famoso número envolvendo cross-dressing corre o risco de ser visto com maus olhos pelo público de hoje, e Gaguinho desabafa com Ligeirinho como acabaram sendo afetados pelo “politicamente correto”. Na melhor piada metalinguística do filme, um personagem faz o truque da “pessoa por trás da máscara” e uma das várias revelações é a estrela de Space Jam, Michael Jordan, convidando a equipe para uma partida de basquete. De Volta à Ação sabe exatamente o que evitar e em quais feridas pode colocar o dedo. Sério, procure as cenas deletadas, são mais reais e engraçadas do que você imagina, principalmente quando Pernalonga e Patolino analisam os protagonistas live action como fórmulas para um filme genérico de estúdio. Infelizmente, elas não estão no filme, então não posso levar em consideração na hora de criticar o produto final, mas é legal saber que as intenções eram boas o tempo todo e o longa não servia apenas como um comercial de uma hora e meia – mesmo que tenha seu product placement aqui e ali, mas reconhecido de forma irônica.  

Ainda assim, é um filme com alguns dos mesmos problemas de Space Jam. Kate é muitas vezes resumida em clássicos estereótipos femininos do cinema, como a donzela em perigo, a executiva mal humorada e o interesse amoroso, o que é uma pena já que tudo parecia estar indo na direção contrária do que um dia já foi considerado padrão na indústria (e infelizmente, ainda passamos por isso), e neste mesmo tópico, entra Patolino constantemente mandando indiretas e cantando as atrizes do elenco, um comportamento estranho para quem conhece o pato. Outro incômodo está nas participações especiais de figuras fora do meio cinematográfico, como o piloto da Nascar, Jeff Gordon, o que rende uma cena desnecessária e sem qualquer função narrativa. Essa é uma prática comum em produções como esta, mas se você não está em um filme dos Muppets, melhor nem tentar, deixe pra quem sabe fazer.

De volta à ação tem também um ritmo inconsistente e a montagem é confusa em certas partes, mas ninguém presta muita atenção nisso já que o filme é tão exagerado e barulhento que só dá tempo de prestar atenção na comédia visual e as tiradas rápidas dos personagens. E a comédia visual é o que mais se destaca, principalmente na sequência da perseguição dentro do museu, onde a animação se mescla com o estilo da pintura que os protagonistas visitam. É sensacional e a parte que melhor representa como um filme dos Looney Tunes deve ser, absurdo e cheio de atitude anárquica.

De todas as realidades possíveis, é um alívio saber que não vamos morrer sem ter um filme decente com Pernalonga e sua turma. Pode ser um pouco bagunçado, pode ser um pouco sexista, poderia ser um pouco mais carismático no elenco live action principal, poderia ter menos cenas de debates no escritório ACME, mas a gente se contenta com uma viagem divertida e cheia de piadas legitimamente engraçadas com uma das melhores duplas da história da animação, e não faz mal nenhum saber que pelo menos algum esforço parece ter sido feito desta vez.

Looney Tunes: De Volta à Ação (Looney Tunes: Back In Action) – EUA, 2003
Direção: Joe Dante
Roteiro: Larry Doyle
Elenco: Brendan Fraser, Jenna Elfman, Steve Martin, Timothy Dalton, Joan Cusack, Don Stanton, Roger Corman, Matthew Lillard, Heather Locklear
Duração: 91 min.

ROBERTO HONORATO . . . Criado pela TV, minha família era o programa dos Muppets e minha segunda casa era a locadora (era fácil de chegar, só precisava atravessar a rua). Não me incomodava rebobinar todas as fitas, e nem podia, já que assistia o mesmo filme várias vezes. E quando não é cinema, o cheiro de quadrinhos me chama de longe e preciso gastar dinheiro que não tenho. E nunca esqueça: #sixseasonsandamovie