Crítica | “Lotta Sea Lice” – Courtney Barnett & Kurt Vile

Duetos são um formato curioso. Duas metades compartilhando o mesmo trabalho. É preciso ter química para que tais projetos gerem resultado, algo que parece ser o caso de Courtney Barnett e Kurt Vile. Ela, uma australiana que, junto de sua banda, se tornaram uma das grandes revelações do indie rock nos últimos anos. Ele, um americano guitarrista do aclamado The War On Drugs e também detentor de uma sólida carreira musical. Ninguém poderia sequer imaginar um disco colaborativo de ambos, mas após uma amizade que surgiu em meio a turnês, a conexão entre os dois parecia tão forte que o álbum se tornou algo perfeitamente realizável.

Lotta Sea Lice, disco divulgado junto a uma turnê que farão juntos por território americano, deixa bem claro o que uniu as duas figuras: o amor pela música e, principalmente, pela guitarra. Na espetacular abertura e primeiro single, Over Everything, a dupla desabafa sobre a criação de uma canção, um daqueles momentos onde, em meio a solidão, se pega a guitarra e arranha-se um blues. A química entre os dois aqui é transcendental. Através de um revezamento perfeito de vocais, o clima quase niilista da canção se deposita em cima de uma única coisa concreta: a música e seu poder interior reformante. As guitarras de cada um se digladiam, não em um sentido malicioso, mas quase como dois irmãos de implicância se divertindo.

Há uma aura mortal e cotidiana por cima de cada canção. A dupla parece olhar de forma contemplativa em relação a vida, como se valorizasse os momentos mais supérfluos, reforçando como as pequenas coisas são o que ligam nossa existência. A doçura inocente na letra de Let It Go mostra o processo de dois músicos compondo, enquanto Continental Breakfast possui a suavidade de um café da manhã entre amigos e Blue Cheese (versão da mesma música de Kurt) narra de forma informal um dia revivido na memória. Pelos arranjos, uma inspiração vívida, bastante calcada em pilares do folk – Joni Mitchell e Neil Young podem ser evocados em vários momentos – mas aqui sempre incorporando pedais típicos de shoegaze a fim de ressaltar a sensação de memórias e sonhos perdidos.

Mesmo através de covers a dupla é capaz de passar uma personalidade enorme nas canções, a começar pela escolha das canções a serem reinterpretadas. Fear Is Like A Forest, exalando uma aura rockeira noventista, é um excelente cover de uma música da parceira de Courtney, Jen Cloher. Talvez o momento onde as guitarras tomam o contorno mais voraz, por cima da excelente e misteriosa letra, que sabe mesclar pessimismo e otimismo de forma natural. Já uma versão levemente mais intimista da belíssima Untogether (da banda Belly) finaliza o álbum de forma concisa. Kurt, fazendo segunda voz, dá sustância a uma das interpretações mais dóceis e sinceras já vistas de Courtney. Um verdadeiro desafio escutar apenas uma vez.

Em meio a alguns trechos é possível ouvir um celular tocando, Kurt xingando e ocasionais risadas entre os dois. É através dessas brechas em meio a atmosfera sonhadora incorporada que observamos a interação e química estonteante entre os dois. É perceptível que estamos diante de dois ótimos artistas melhorando um ao outro e agregando experiência, mas algo ainda mais importante: tirando o melhor de seus momentos juntos. Um dueto de valor.

Lotta Sea Lice
Artista: Courtney Barnett & Kurt Vile
País: Estados Unidos
Gravadora: Matador
Lançamento: 13 de outubro de 2017
Estilo: Folk, Rock

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, fascinado por música, cinema e quadrinhos. Um fã de ficção científica e aventura que carrega seu fone de ouvido por todo lado e se emociona facilmente com música, principalmente com "The Dark Side Of The Moon". Enquanto não viaja pelo tempo e espaço em uma TARDIS, viaja pelo mundo dos livros e da música.