Crítica | Louca Obsessão

estrelas 4

Desde adolescente as histórias de Stephen King me encantavam. Apesar de sempre ser avessa ao terror e morrer de medo de assistir a filmes do gênero, os livros do escritor americano me deixavam em transe. Tanto que lembro de ler e reler muitas vezes O Iluminado e de assistir ao clássico dirigido por Kubrick e ainda uma versão feita para a TV mais fiel ao livro, mas bem menor genial que o filme protagonizado por Jack Nicholson.

Foi por essa época que eu assisti a Louca Obsessão, que em 2015 completa 25 anos de estreia nos cinemas americanos. Lembro de na época ficar abismada com a crueldade que Kathy Bates realiza as maiores atrocidades em seu ídolo, o escritor Paul Sheldon que havia acabado de sofrer um acidente de carro nas imediações de sua casa. O filme, com direção de Rob Reiner, começa de cara mostrando Sheldon terminando seu último livro. Depois de uma bem sucedida série intitulada Misery, o escritor decide matar a personagem de mesmo nome para se livrar do estigma de um autor de um livro só. Recluso em uma pousada em busca de inspiração ele acaba se acidentando durante uma nevasca violenta. Annie, que se considera sua fã número 1, resgata-o das ferragens e cuida de seu ídolo com carinho e esmero.

Aos poucos, Sheldon vai percebendo que aquela simpática e pacata enfermeira reclusa nas montanhas geladas, esconde um lado psicopata. De uma hora para a outra, suas feições se transformam e a raiva doentia toma conta de suas ações.

Tecnicamente falando Louca Obsessão é um filme simples e em alguns momentos lembra até um telefilme. A edição é linear e a trilha sonora de Marc Shaiman pontua muito bem os momentos mais tensos vividos na casa da protagonista. A fotografia assinada por Barry Sonnenfeld alterna momentos bucólicos, com lindos planos das montanhas nevadas e da calma do casebre de Annie, com a tensão vivida dentro da casa da enfermeira. As cenas assustadoras pontuadas com raios e tempestades só deixa tudo ainda mais tenso, um pouco caricato sim, mas ainda assim atormentador. O que torna o filme um clássico do gênero é de fato o seu elenco e o seu roteiro inspirado no livro do mestre do suspense.

Vamos falar do primeiro ponto. O filme, que tem pouco menos de 90 minutos, é basicamente protagonizado por dois atores, espetaculares, por sinal. James Caan, o eterno Sonny de O Poderoso Chefão, imprime uma boa dose de charme nesse escritor que busca se encontrar dentro de uma carreira já consolidada mas que faz dele, de certa forma, um refém de seu próprio trabalho. É possível sentir a dor na face do personagem quando ele é submetido aos maus tratos realizados por Annie durante a sua estada na casa. E claro, o grande trunfo do filme e que sem ele é possível que Louca Obsessão fosse apenas mais um bom filme de suspense baseado nos escritos de King, é Kathy Bates. Não é por acaso que a atriz foi a primeira mulher a ganhar um Oscar nesse gênero cinematográfico. Sua interpretação é icônica e assustadoramente incrível.

A facilidade com que a atriz transita entre as duas personalidades de Annie é realmente espantosa. Esse é o tipo de personagem que mesmo sabendo que ela irá se transformar em um verdadeiro pesadelo para o mocinho do filme é quase que impossível não torcer por ela, de certa forma. Kathy nos faz gostar de Annie e de ver nela um pouco da nossa própria obsessão, claro que contida, mas ainda assim um sentimento que existe dentro de nós.

O estupendo trabalho de Kathy é ajudado pela boa direção de Reiner, que se utiliza de closes da personagem e movimentos de câmera que intensificam suas feições demoníacas, deixa tudo ainda mais crível e assustador. A famosa cena em que Kathy quebra os pés de Sheldon após ele ter saído do quarto é um clássico do gênero e revê-la, mesmo 25 anos depois, ainda nos assusta pela tamanha crueldade que uma pessoa pode chegar movida pela loucura e pela obsessão.

Annie é uma personagem com muitas camadas. E cada vez que Kathy nos mostra uma nova faceta dessa mulher solitária e atormentada ficamos espantados com o que ela ainda será capaz de fazer em busca dessa felicidade maquiada e retirada das páginas do seu livro preferido.

Interessante notar que mesmo após 25 anos Louca Obsessão ainda nos guarda surpresas e é incrível pode rever a esse clássico do suspense e acabar o filme sem ar. Reveja a esse clássico em um final de semana chuvoso em casa, com bastante pipoca e uma boa companhia. E claro, se você for uma pessoa famosa, desconfie sempre das pessoas que chegam para você alegando ser sua fã número 1. A gente nunca sabe a loucura que cada um guarda dentro de si!

Louca Obsessão – (Misery, Estados Unidos – 1990)
Direção: Rob Reiner
Roteiro: William Goldman (baseado na obra de mesmo nome de Stephen King)
Elenco: James Caan, Kathy Bates, Lauren Bacall, Frances Sternhagen, Richard Farnsworth, Graham Jarvis, J.T. Walsh
Duração: 85 minutos

GISELE SANTOS . . Gaúcha de nascimento, mas que não curte bairrismos nem chimarrão! Me encantei pelo cinema ainda criança e a paixão só cresceu ao longo dos anos. O top 1 da vida é "Cidadão Kane", mas tenho uma dificuldade enorme de listar os melhores filmes da minha vida. De uns anos para cá, os filmes alternativos têm ganhado espaço neste coração que um dia já foi ocupado apenas por blockbusters pipoquentos.