Crítica | Louco – Fuga

estrelas 3,5

É importante começar esse texto pelo ponto principal de Louco – Fuga (2015), a 10ª publicação do projeto Graphic MSP: a arte de Rogério Coelho e as cores empregadas por ele em parceria com Francis Ortolan são uma verdadeira obra-prima, tanto em detalhamento e rigor da técnica (perspectiva e movimentação de objetos dentro do quadro são pontos altos) quanto na modificação do estilo artístico para representar cada cenário que o Louco percorre em sua fuga, dando aos ambientes uma identidade e paleta de cores particulares, criando pequenos universos dentro de um grande universo, abordagem que é a essência de Fuga, ou seja, a metalinguagem; proposta que infelizmente não se saiu tão bem no texto.

A concepção da história deveria trazer, segundo orientações de Mauricio de Sousa e de Sidney Gusman, editor do projeto, toda a carga de nonsense que permeia o universo do Louco. A história não teria a camada de detalhamento na explicação e obrigatoriamente precisaria trabalhar com elementos surreais, inexplicáveis e que colocassem o Louco em contato com personagens do universo de Mauricio de Sousa (lembrando que o biruta foi criado Marcio Araujo, irmão de Mauricio, em 1973), e o fizesse percorrer o seu próprio universo, que seria a novidade da releitura. Esse ponto de partida exigente e bastante amplo talvez tenha tornado o personagem refém de uma estrutura que tem um forte apelo emocional, mas não consegue ter a força dos outros três lançamentos das Graphic MSP deste ano, Penadinho – Vida, Turma da Mônica – Lições e Turma da Mata – Muralha.

louco-fuga-rogerio-coelho

Cada um dos lançamentos de 2015 teve uma ambientação bem diferente e conseguiu fazer um louvável diálogo com o passado e o este “novo momento” dos personagens, construindo uma trama que se sustenta de maneira sólida e a partir dela, fazendo referências e criando novas situações para velhos personagens. Em Fuga, a trama dos corvos e dos Guardiões do Silêncio (até agora, o vilão mais frágil e menos interessante do projeto — dramaticamente não artisticamente, que fique claro) são pouco interessantes, não oferecem uma verdadeira ameaça e conseguem apenas algum impacto no leitor pelo sensacional trabalho visual de Rogério Coelho, que os construiu como seres metálicos cuja textura parece estar ao alcance do nosso dedo na página. Essa impressão de grandeza e sua importância são igualmente percebidas no lugar incógnito (a outra história / a alucinação do Louco) das gaiolas onde estão os pássaros da criatividade e a pessoas que sabem de seu “canto”, trancadas, em silêncio, uma alusão muito bem vinda à censura ou ao simples bloqueio criativo.

Pela densidade do tema e o trato metalinguístico do texto, além da premissa de que situações nonsenses deveriam acontecer, Rogério Coelho poderia ter diminuído a visita do Louco ao mundo da Turma da Mônica (ele precisava vir de qualquer forma, nem que fosse para encontrar pelo menos o Cenourinha Cebolinha) ou priorizado esse cenário se sua intenção principal era nos fazer ter dúvidas sobre o fato de que o universo dos Guardiões do Silêncio estava apenas na cabeça do protagonista.

louco-fugaOu, o contrário, se sua intenção era tornar central a passagem do Louco de uma história para outra, servindo de inspiração para os artistas com seu “pássaro da criatividade”, que o universo dos castelos de fechadura fosse mais amplamente explorado e seus outros contatos fossem menores, quase insinuações. O que o autor fez aqui foi optar por um trabalho mais ou menos equilibrado entre os dois universos que alude às suas intenções de diversas interpretações para o que está acontecendo mas paga o preço de não dar a eles uma verdadeira substância (elementos apreendidos bem mais através da arte), tornando-os, muitas vezes, fillers, como a cena do Louco-Mágico, a cena com o Bidu ou a visita inspiradora aos personagens de Mauricio de Sousa em duas distintas fases de sua existência.

Ao final, a obra acaba tendo uma estranha aparência autoindulgente, como se a sugestão de que o Louco está na cabeça de cada um dos artistas que criaram aqueles personagens (“os Loucos somos nozes” [sic]) servisse de perdão para a história ser montada em pequenos flashes de ação, boa parte deles bem pensados mas que perderam força no todo da história. Como os braços de interpretação e possibilidades eram muitos, talvez fosse benéfico para a trama ter apenas parte dessas sugestões e, em uma eventual segunda aventura, outras possibilidades fossem investigadas e executadas.

Louco – Fuga encerra as publicações da Graphic MSP em 2015 com a arte mais poética — as páginas duplas e os grandes quadros provavelmente virarão quadros nas paredes de muita gente — e as cores mais belas de todo o projeto até o momento. Mas infelizmente o volume quebra a boa leva de roteiros bem fechados que tivemos este ano.

Louco – Fuga (Brasil, 2015)
Roteiro: Rogério Coelho
Arte: Rogério Coelho
Cores: Rogério Coelho e Francis Ortolan
Editora: Panini Comics, Graphic MSP, Mauricio de Sousa Editora
Páginas: 82

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.