Crítica | Louie – 1ª Temporada

estrelas 4,5

Se queres dizer a verdade aos outros, é melhor fazê-los rir. Do contrário, eles te matarão.
George Bernard Shaw

Louie não provoca nenhuma catarse. Suas gargalhadas também só vêm com o costume e podem levar algum tempo. Mas certifique-se, com tranquilidade, de que se trata de uma extraordinária abordagem do cotidiano urbano nova-iorquino, graças à perspicácia de Louis CK,, um dos comediantes stand-up mais famosos dos Estados Unidos nas últimas décadas. Criador, escritor, diretor e protagonista da obra aqui tratada, e, nas horas vagas, pai divorciado de duas lindas filhas interpretadas por Hadley Delany e Ursula Parker, o humorista ruivo estabelece uma emocional vibração para a primeira temporada desta série que mistura ficção e realidade como poucas outras.

Mais do que dramatizar seu dia a dia, alternando-o com cenas do seu show ao vivo durante os pouco mais de vinte minutos de cada episódio, Louis retrata com coragem, acidez e sutileza o próprio homem contemporâneo em seus momentos mais frívolos e em seus pensamentos mais recônditos. Politicamente incorreto, o comediante molda sua série com roteiros que chegam ao surrealismo nos cenários mais banais imagináveis, utilizando a rotina de cuidar dos filhos, falar com colegas de profissão e vivenciar (muitos) encontros desagradáveis, em suma, para encontrar, na resignação marcante em seu rosto, um fundo de esperança que o motive a seguir em frente, rindo de si mesmo e da hipocrisia inerente a todos.

Imprevisível, como o jazz que dita o ritmo na maioria das cenas dramáticas – e aqui já ressalto a beleza da trilha sonora pontual, principalmente com a música tema “Brother Louie”, que nos versos de seu refrão já dá uma pista do que se segue – Louie funciona, primordialmente, graças à edição entre as falas ao vivo do Louis, comediante de palco de fala extremamente cínica, com a atuação de Louis, interpretando a si mesmo em cenas que servem mais como retratos da mente do humorista sobre o cotidiano tragicômico do que como uma narrativa intrincada típica das séries de comédia mais aclamadas dos últimos anos. Exatamente por se tratar desse tipo de retrato é que o ator e criador da série se permite, para deleite do espectador, quebrar a linha realista recorrentemente, mostrando absurdos que as mais comuns das pessoas geralmente imaginam da mesma forma que o texto do standup gosta de pontuar.

Uma rápida pesquisa no Youtube é capaz de mostrar o humor negro e fora do comum com que Louis tempera suas observações, sejam elas as mais sexualmente grotescas, sejam as mais inocentes e poéticas. Felizmente, o pessimismo recorrente do protagonista impede que o surreal se torne enfadonho. É um ótimo exemplo de uma série que sabe seu limite, dando pistas da sensibilidade autora de uma temporada que fixa muito bem o seu tom.

Em apenas treze episódios surgem reuniões de escola, consultas ao psicólogo, discussões políticas – inimagináveis em uma série brasileira – e pesquisas por velhos colegas no facebook que não deixam o senso de ridículo escapar. Ora com um olhar extremamente cético, ora em busca de um viés mais reformista, o texto parece muitas vezes servir como válvula de escape para o moralismo – no sentido filosófico – do comediante sem ser, por um segundo sequer, impositivo, autoritário ou dogmático. Cada situação é permeada por uma esquisitice que emana humor. Tudo parece uma tentativa de mostrar como a mente daquele sagaz humorista, que vemos fazendo seu show ao vivo, é trabalhada durante o dia. Como as piadas são geradas, como a percepção do imbatível homem com microfone ocorre nas dificuldades diárias. Não seria exagero pontuar a necessária autoconfiança para desenvolver uma série como essa por parte de Louis, que aqui se abre com a honestidade típica de seus relatos, mas mais visceral, posto que não vemos a piada acabada e pronta, mas sim, todo o processo que é, na maioria dos casos, desagradável, porque ordinário.

Quando a coisa começa a parecer muito pessoal, todavia, Louie faz questão de tirar o espectador do clima fornecido, mandando-o para outro estado de espírito e equilibrando bem os ápices de diferentes emoções que um episódio causa. Geralmente, o laço narrativo entre o texto do standup e as cenas do seriado em si consegue traçar bons paralelos, principalmente quando não se faz tão evidente. Travel day/South, quinto episódio, é uma amostra do sutil automatismo de atendentes de aeroporto, que logo enerva os clientes da companhia, da mesma forma que faz clara crítica ao cidadão exigente que se vê como centro de direitos imune a qualquer contingência. Tudo de forma fluida, permeada por rápidas notas de piano e cômicos coadjuvantes que dão à obra um tom teatral, quase caricatural, mas extremamente eficaz no seu objetivo. Intercaladas com o incisivo texto falado ao vivo, tais cenas constroem não só uma crítica comum, como também ressaltam a falha do próprio protagonista no cenário que tanto acabara de criticar.

Ainda no mesmo episódio, temos nove minutos de uma discussão entre ator e uma falante fã, abordando comportamento ético, desrespeito e, novamente, quem se considera centro do universo, ainda que por boa-fé. Logo no capítulo seguinte, somos premiados por uma das melhores participações especiais de toda a série. Ícone dos anos 80, Matthew Broderick, que já fizera brilhante participação, por exemplo, em Modern Family, participa de um primor de ritmo e tempo de cena. O texto aqui criado é sensacional, deixando na atuação dos dois e nos aspectos técnicos, como edição e efeitos sonoros, o real funcionamento do escrito. Exemplo claríssimo de uma edição bem realizada, propositalmente colocada em contraste com a primeira parte do episódio, muito mais intimista.

Nesse ciclo entre algo mais pessoal e melancólico – há belíssimos flashbacks nesse sentido – e o riso fácil, vindo de piadas normalmente obscenas, é que se situam os principais temas tratados do seriado. Angústia, fragilidade, hipocrisia e pessimismo são tocados no subtexto por diversas vezes, algumas de forma tão rápida ou tão dispersa entre Louis e outros personagens, que os vinte minutos de cada capítulo pedem para ser revisitados. Afinal, em matéria de fracassos, como disse Joseph Brodsky, tentar recordar o passado é como tentar compreender o significado da existência. A nostalgia do protagonista nunca deixa o senso de humor de lado, mas também não o elege como único aspecto a ser considerado.

Louie aborda as dinâmicas do comportamento e da linguagem com fineza, a ponto de causar estranheza por ora beirar o didatismo, ora esconder as armadilhas que um simples e corriqueiro diálogo carrega, seja onde for. É um texto primoroso, que tem na comédia a cereja do bolo, vinda de diversas formas: surreal, macabra, ingênua ou exagerada.

Louie – 1ª temporada (EUA, Junho – Setembro de 2010)
Criador:
Louis C.K.
Diretor: Louis C.K.
Roteiro: Louis C.K.
Elenco: Louic C.K., Hadley Delany e Ursula Parker
Produtora: FX
Duração: 13 episódios de aproximadamente 22 min. cada.

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.