Crítica | Louie – 2ª Temporada

estrelas 4,5

Vós deveríeis aprender primeiro a arte do consolo deste lado de cá – vós deveríeis aprender a rir, meus jovens amigos, se todavia quereis continuar sendo completamente pessimistas.
Friedrich Nietzsche

O total controle do roteiro e a consequente sedução dos espectadores permanece no segundo ano de Louie, meticulosamente realizado em torno do jogo de contrastes que o ator já apresentara e que aqui se intensifica com ainda mais brilhantismo. Mais variada em estilos e menos cômica do que a primeira, a presente temporada tem, entre tantos méritos, apresentar um humor inteligente suficiente para evitar a queda em quaisquer armadilhas que elevem a série em arrogância ou presunção. Louis CK continua, essencialmente, tratando com admirável sensibilidade seu cotidiano, estetizando cenários éticos deprimentes e usando o riso como seu principal aliado contra a banalidade dos episódios retratados.

O humor inteligente que citei, faz-se necessário esclarecer, não implica, aqui, na total ausência de piadas sobre sexo. Muito pelo contrário, o comediante continua desbocado tanto no palco quanto diante das câmeras – o protagonista dedica um episódio para a discussão entre ele, defensor da masturbação, e uma religiosa que vê no onanismo um pecado. Felizmente, porém, utiliza as obscenidades de sua mente para apresentar um interminável jogo de luz e sombra, entre o angustiante e o sublime, entre o som do violino e o catador de lixo tomando banho em uma estação de metrô no mesmo take. Não raramente me vi literalmente gargalhando enquanto uma personagem se acabava em lágrimas. De uma situação constrangedora para um ágil ensaio visual de afeto, Louie é capaz de expressar o retrato do ser humano em seus mais diversos vícios e virtudes sem vergonha alguma.

No mesmo sentido, o criador da série não se omite em trazer fatos de sua vida para um microfone cheio de hipérboles e exageros que, dentro do jogo do Louis caladão e reticente, denotam o sutil limiar que revela o intrincado problema de existir. Só o exacerbado, por vezes, é capaz de tirar o indivíduo da inércia, e logo a série apresenta intensos cenários em que as consequências abordam um niilismo suicida, como no excelente Eddie, onde Louis encontra um velho amigo de tempos aparentemente mais simples. Curiosamente, o desfecho do episódio citado vem no modelo que o criador da obra estabelece como principal mensagem do seriado inteiro, aqui mais clara e convicta do que na primeira temporada. O término em bossa nova (!), assim como o pequeno patinho que acompanha o humorista em sua viagem ao Afeganistão no décimo primeiro e ótimo capítulo, vêm como amálgamas estéticos que resolvem conflitos até então vistos puramente – e propositalmente – sob uma perspectiva ética. O gênio de Louis CK não está necessariamente nesta percepção, mas na forma com que a apresenta: a tensa conversa com Eddie desemboca em descontração quando coadjuvantes passam ao lado, desfocados, rindo à toa; o pato escapa em meio a um entrave militar, obrigando o desastrado Louis a ignorar o seu entorno gerando gargalhadas em ambas as partes belicosas. Em muitos dos casos, uma mera piscada de olhos implica em uma perda de detalhes preciosos do texto.

A inesgotável tendência de tentar ver na política e na moral a solução dos obstáculos diários também é vista logo no segundo episódio da temporada, quando o transtornado Louis, que acabara de presenciar uma morte por atropelamento, faz um eloquente discurso honesto sobre a condição mortal que, logo reconhecida, recorrentemente retira da ação cotidiana qualquer traço de relevância. A condução da cena, porém, vai do ponto A ao ponto Z em poucos minutos, mostrando como um honesto desabafo se torna seu oposto: uma desculpa para um banal encontro ir do fracasso certo ao sucesso inesperado. O transtorno só é real até o beijo de uma mulher esvanecê-lo.

Ora acordado como Walter White nos primeiros episódios de Breaking Bad, ora sonhando acordado, imaginando atitudes heroicas e fraternas em meio a sujeira do metrô – convenhamos, quem nunca? – Louis também alterna contrastes poéticos com outros mais críticos. A cheerleader reboladora que se diz eclética mal conhece rock clássico e condena as piadas do ator por não serem cristãs. Já ele próprio, mais honesto consigo mesmo, inofensivo em julgamentos e nervoso na sua insegurança, vê no palco a oportunidade de se soltar ao falar de obscenidades para soldados americanos longe de casa. Os paralelos dentro e fora do show de cada só ficam dissipados quando uma bendita ingenuidade trespassa qualquer tentativa frustrada de comunicação tradicional e formal.

As participações especiais continuam especialíssimas, desta vez com Chris Rock e Joan Rivers entre os nomes mais famosos, além da presença pontual de Bob Saget no metalinguístico Oh Louie/Tickets. Em meio a tudo isso, a relação paterna entre o standup comedian e suas filhas também não fica de lado, aqui retratada com muito esmero na visita feita à cabana da tia-avó de Louis e na noite de Haloween, com destaque para a pequena e forte Ursula Parker, dominadora de seu texto com maestria.

Por fim, mas não menos importante, a segunda temporada dedica bom tempo ao relacionamento anormal de Louis e Pamela, que vão de falas grotescas às declarações de amor extremamente românticas, sempre com um final risível. A química entre os dois é gostosa de ser vista, com Pamela Adlon, consultora da série já na primeira temporada, parecendo saber exatamente o que a mente por trás do texto procura explorar.

O próprio final da temporada, certamente, é um dos mais agridoces possíveis. Um erro patético torna-se uma onírica felicidade que tira do espectador qualquer julgamento de ponta de língua. Por meio da sensação de esperança e paz passada pela errância de um dos personagens mais ordinários da TV em busca de um sentido na vida, partimos da segunda temporada com a típica mistura de sufoco e alívio que só a sagacidade de Louis C.K. pode provocar.

Louie – 2ª temporada (EUA, Junho – Setembro de 2011)
Criador:
Louis C.K.
Diretor: Louis C.K.
Roteiro: Louis C.K.
Elenco: Louic C.K., Hadley Delany e Ursula Parker
Duração: 286 min – 22 min. Cada (aprox.)

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.