Crítica | Louie – 3ª Temporada

estrelas 4

Mais convém ao homem rir-se da vida que lamentá-la.
Sêneca

O terceiro ano de Louie tem alguns indícios iniciais de mudanças. O primeiro episódio, Something is Wrong, já começa com o azarado protagonista em situação inédita: terminando um namoro com uma muda covardia. Por mais que dite o humor mais seco desta temporada e as idas e vindas de um personagem cada vez menos caseiro, o primeiro capítulo não dá conta de todo o escopo humorístico e dramático que o standup comedian apresenta aqui, com a genialidade usual.

Com mudanças sutis e menos humor obsceno, o criador consegue misturar realidade com ficção como nunca antes, apontando um futuro mais poético e aproveitando participações especialíssimas para, se não melhorar, pelo menos refinar algumas ideias apresentadas nas temporadas anteriores. Para citar apenas algumas pontas, temos aqui Chirs Rock, Amy Poehler, Jerry Seinfeld e Marc Maron. Como memoráveis participações, é impossível sair desta temporada sem lembrar de Robin Williams, David Lynch e Parker Posey, pontos destacados dos treze episódios, principalmente os dois últimos que sustentam praticamente metade dos episódios. Vejamos melhor a participação dos três.

Barney/Never, sexto capítulo, traz um dos roteiros mais simples, entregando o peso na contida atuação do astro de Jumanji que conhece Louis no funeral de um amigo em comum. Com cenas em preto e branco, o episódio toma um pouco o tom macabro graças ao tema escolhido e o hoje sabido destino do ator de Gênio Indomável. O espaço que o criador dá para seu convidado, retirando-o do contexto com que o público se acostumou e colocando-o em um clima aconchegante que se mantém do bar ao clube de strip-tease e ao enterro em si.

Outra pérola desta temporada vem com a brilhante participação de David Lynch, que vive uma espécie de treinador de Louis em dois episódios que formaram, até aqui, o arco mais longo da série: a luta para substituir David Letterman, que, na série, estava para se aposentar. Não bastasse a motivação surreal, Louis conseguiu casou a esquisitice do contexto e do personagem com a de Lynch. Não são raras as mudanças de fotografia nestes episódios – méritos também ao diretor Paul Koestner – com cores quentes, ora lembrando Twin Peaks pelo esoterismo da cenografia, ora pela câmera angular e caretas dos envolvidos na cena – incluo aqui, evidentemente, o caricatural Edward Gelbinovich interpretando o empresário do ator.

O arco em si é arrastado, mesmo contendo ótimos momentos e críticas ácidas ao show business americano. Mesmo guardando boas surpresas e retratando a pressão para o pai divorciado de duas filhas, os três episódios de Late Show acabam caindo em clichês de superação que vêm na contramão do que se tornou a essência da série: sutileza nos elogios à dureza da vida e cinismo no trato social permeado de insegurança.

A cereja do bolo, todavia, fica com a participação da mais desconhecida Parker Posey. Vivendo a mesma personagem por três episódios – o que não é regra em uma série que já descartou o irmão de Louis da primeira para a segunda temporada, deu à mesma atriz o papel de namorada e mãe de Louis em outros momentos e que, vira e mexe, apresenta uma nova irmã do protagonista – a atriz traz os momentos mais tocantes destes treze episódios. Da corajosa e ensaiada pergunta sobre sair para jantar efetuada na livraria ao vestido provado por Louis, das escadas infinitas ao discurso na varanda, Louie mostra um primor na narração leve que se propõe a fazer, contrastando tal leveza com um subtexto que não se acanha em colocar o dedo na ferida trágica que é a vida humana.

Pode parecer pedantismo, mas C.K. sabe bem o jogo que quer mostrar e demonstra, novamente, convicção para jogá-lo em nossa cara no season finale, um dos melhores episódios de toda a série. New Year’s Eve é um turbilhão de emoções em vinte minutos, com aquele gosto agridoce típico que, aqui, tende ao mais doce no final, apesar do grande susto no meio do capítulo. Além de ser um perfeito exemplo do que é a série em seus dias mais lúdicos, o finale da terceira temporada vai mais longe do que a viagem ao Afeganistão no anterior em termos sensíveis e moralistas. Montando bem o ciclo que tem início na pseudo banalidade do início do episódio e que se finda ao final, Louie traz frustrações, espiritualidade e epifanias sobre companhia e compartilhamento envoltos em perspectivas sucessivas completamente distintas. O ritmo mais lento de toda a temporada parece ser compensado com um final de tirar o fôlego, muito mais centrado no drama e quase sem nenhuma piada.

Sendo este o grosso da temporada, é injusto dizer que o resto é dispensável. Dad, por exemplo, além de indicar o violino da pequena Ursula Parker, a ser genialmente na quarta temporada, traz um ensaio sobre o papel do pai e a repetição involuntária de comportamentos arraigados com incrível variedade de abordagens, sem deixar de escancarar a mente surreal de seu escritor. No final, como costume, a lembrança do riso é a única capaz de retirar traumas e lembrar, tanto ator quanto espectador, que a vida não passa de patética.

Louie – 3ª temporada (EUA, Junho – Setembro de 2012)
Criador:
 Louis C.K.
Diretor: Louis C.K.
Roteiro: Louis C.K.
Elenco: Louic C.K., Hadley Delany e Ursula Parker
Duração: 286 min – 22 min. Cada (aprox.)

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.