Crítica | Louie – 4ª Temporada

estrelas 5,0

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(…) a arte; só ela tem o poder de transformar aqueles pensamentos enjoados sobre o horror e o absurdo da existência em representações com as quais é possível viver: são elas o sublime, enquanto domesticação artística do horrível, e o cômico, enquanto descarga artística da náusea do absurdo.
Friedrich Nietzsche

As temporadas de Louie são muito homogêneas entre si. Exatamente por manter uma regularidade em sua excelência e simplicidade, notar as sutilezas e o pequenos aumentos de custo gastos em detalhes de produção se tornam uma diversão a mais em cada episódio. Aqui, mesmo o mais supérfluo traz uma pista capaz de decifrar os roteiros do criador, ponto alto da série desde seu primeiro ano.

A quarta temporada, sem tantas participações especiais e menos megalomaníaca – ninguém tenta conseguir o emprego de David Letterman desta vez – consegue condensar, em seus quatorze episódios, o espírito poético e a tragicômico do escritor, ora tendendo para um final otimista, ora para o pessimismo sem qualquer sentido. Mais do que nos anos anteriores, Louis foca em um escopo ainda menor ao narrar seu cotidiano nova-iorquino, separando seus capítulos em quatro partes, essencialmente: os três primeiros episódios, o arco de Amya, o de Pamela e mais um flashback que se arrasta em duas partes envolvendo o tema da maconha.

Os três primeiros capítulos, Back, Model e So Did The Fat Lady, não possuem uma linha narrativa direta que os ligue, servindo muito mais para pontadas ácidas com o auxílio de ótimos coadjuvantes conforme já visto nas temporadas anteriores. A introdução do Doutor Bigelow, logo no primeiro, já dá uma densidade filosófica que, cuidadosamente, evita a arrogância, graças ao subtexto que uma dor nas costas pode trazer quando é Louis CK que a roteiriza. As idiossincrasias do comediante ficam ainda mais acentuadas com a surreal narração de seu encontro com uma modelo e, principalmente, com a hipocrisia maravilhosamente bem filmada na cena do desabafo de Sarah Baker, interpretando uma garçonete gorda que convida Louis para um encontro no terceiro episódio.

Com os domínios de escrita, edição e atuação já em dia, o ator aproveita sua quarta temporada para caprichar ainda mais nos movimentos de câmera – como aconteceu na própria cena de desabafo, crua e sem cortes, já citada. É o que acontece também nas seis partes de Elevator, provavelmente o arco mais sensível de toda a série. Um exemplo disso é o próprio andar de Amya, vizinha húngara por quem Louis se apaixona, em um primeiro plano quando filmada em um supermercado, com Louis distante, admirando-a. Lentamente, o diretor consegue mostrar a paixão e o encanto provocados de formas sutilíssimas, fazendo do comediante obsceno uma delicada fonte de sensibilidade, ou pelo menos um esforço para tal.

Nos seis episódios que compõem o arco muita coisa acontece. O caos que suas filhas inevitavelmente trazem em momentos inesperados, assim como a volta da sincera Pamela, contrastam com os sublimes momentos de um romântico Louis e sua vizinha. É no sétimo capítulo que o roteiro começa mostrando um vislumbre da vida dos dois em perfeita harmonia, permeada por jogos, sorrisos, intelecto, música, comida e paz, para logo cair em um flashback de Louis e sua ex-mulher no caminho do divórcio. Do doce ao azedo, sem aviso.

Um dos pontos brilhantes deste arco é a impossibilidade de saber o que Amya diz, a não ser que se entenda húngaro – ou se utilize o youtube. Sem tradução, Louie volta a trazer a linguagem como objeto de análise de forma leve e cômica, ao mesmo tempo que intensamente angustiante. É somente na cena que fecha o arco que percebemos o poder da palavra e o efeito que o cuidado em empregá-la pode trazer. Ainda que a relação tenha esse sentido incomunicável, notar como a produção da série trabalha essa dificuldade e proporciona momentos inesquecíveis para seus espectadores é realmente uma aula. O que tenho em mente quando digo isso é, primordialmente, a espetacular e tocante cena do corredor – a minha favorita em toda a série – envolvendo Amya, a filha caçula de Louis e dois violinos, sem cortes. Um atônito homem, no meio daquele pedaço de paraíso que de repente desceu em seu banal cotidiano , tem em sua cara a grata surpresa de ver a vida ganhar um sentido em praticamente dois minutos. Trabalho primoroso não só do roteiro e da direção, que deixa a cena rolar, mas, principalmente, de Ursula Parker e Eszter Balint.

A angústia trazida pela barreira do idioma segue até o final do arco – tão emocionante e catártica quanto à cena do corredor. E permanece, ainda que por flashbacks de um tema muito mais pesado, quando Louis vê sua filha mais velha fumando e relembra da sua experiência com maconha na juventude. Com outro tom, In the Woods, dividido em dois episódios, aborda o polêmico tema com uma seriedade exemplar, tocando sensivelmente nos afetos de um garoto adolescente em meio à malícia adulta ao seu redor, simbolizada por outra excelente atuação, agora de Jeremy Renner, no papel de um traficante.

A inocência e o romantismo do criador, abordada em diferentes chaves ao longo desta temporada, acaba ganhando, novamente, um final dúbio, ainda que extremamente otimista com os três episódios dedicados à sua relação com Pamela. Desbocada, sem vergonha e direta, a atriz Pamela Adlon, companheira de Louis desde Lucky Louie, série de comédia que foi ao ar em 2006 pela HBO com apenas uma temporada, consegue dissipar o ar denso dos arcos anteriores e permite finalizar a temporada com uma abordagem da sensibilidade masculina corajosa, passando longe da pieguice. Afastando o sentimentalismo extremo, a relação dos dois, uma das constantes da série, é certamente bem-vinda, principalmente por vir em doses homeopáticas e distintas, evitando o “mais do mesmo” enjoativo em que comédias, geralmente, deslizam.

Ao fim de sua quarta temporada, Louie bem pode ser classificada do mesmo modo com que o peculiar Doutor Bigelow chama Louis após Amya deixá-lo: trata-se de um poema ambulante.

Louie – 4ª temporada (EUA, Maio – Junho de 2014)
Criador:
 Louis C.K.
Diretor: Louis C.K.
Roteiro: Louis C.K.
Elenco: Louic C.K., Hadley Delany e Ursula Parker
Duração: 286 min – 22 min. cada (aprox.)

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.